António Conceição concedeu uma entrevista em exclusivo ao Bola na Rede. Treinador falou de Samuel Eto’o e do despedimento dos Camarões.
António Conceição foi o mais recente entrevistado pelo Bola na Rede. O treinador falou da relação com Samuel Eto’o e explicou despedimento sem aviso prévio da seleção dos Camarões, uma decisão do antigo jogador de futebol.
«O Eto’o é, de facto, uma figura de peso no futebol africano e uma referência nos Camarões. É um ídolo. Quando chega aos Camarões é recebido em apoteose. Cumprimos dois anos de contrato com o anterior presidente da Federação e a pouco tempo do CAN houve eleições. O Eto’o venceu e entrámos em estágio de preparação para o CAN a 26 de dezembro. No dia 27, ele convocou uma reunião para se apresentar, dizer ao que vinha e trocarmos umas impressões. Foi extremamente simpático e correu tudo muito bem. Correu tão bem que se pode dizer: “Quando a esmola é grande até o pobre desconfia”. Fiquei desconfiado de algumas coisas porque não ando no futebol há dois dias. Estava a lidar com uma grande referência do futebol camaronês e com uma pessoa com um grande ego, portanto algumas coisas serviram de alerta, mas a relação foi sempre positiva. Nunca houve qualquer conflito. Terminámos o CAN com o jogo de 3.º/4.º lugar no sábado e tive uma reunião com ele na segunda-feira para preparar o estágio seguinte. Correu muito bem, batemos umas ideias e deixámos muitas coisas já definidas. Vim para Portugal passar 15 dias de férias para descansar e visitar a família. Passados uns dias, recebi um e-mail a dizer que estava dispensado e nunca mais falei com o Eto’o. Nunca houve conflito nem atrito de circunstância. Houve uma decisão do Eto’o, que entendeu que era o momento, numa paragem de três meses, para meter um treinador da sua confiança. Assim aconteceu. Nunca houve atrito. Até hoje estou para perceber qual o motivo da sua decisão, porque tinha tido uma reunião com ele e outra com o Ministro do Desporto que me transmitiu que o Presidente da República e os camaroneses estavam felizes com o comportamento da seleção, que tinha feito bons jogos e só foi eliminada pelo pormenor dos penáltis. Disse-me para descansar para voltar fresco da cabeça para preparar os jogos seguintes. Passados três ou quatro dias, recebi um e-mail da parte do Eto’o a dizer que estava despedido em contraciclo com a decisão do ministro. Eu fui contratado pelo Ministro do Desporto e não pela Federação, embora a Federação tenha sido veiculada. Em África acontece isto. Os Ministros do Desporto têm muita influência nas decisões da Federação porque é o Governo quem mete dinheiro. Assim, o Governo entende que tem de interferir em algumas decisões para que as coisas sejam mais transparentes e funcionais. Na altura fui contactado pelo ministro e pelo Presidente da Federação, com quem trabalhei dois anos antes de perder as eleições para o Eto’o. O Eto’o tomou a decisão contra a vontade do Ministro do Desporto, que até me ligou para dizer que não percebia bem a sua decisão e que ele queria trabalhar com gente da confiança dele e com um treinador africano. Foi o Rigobert Song que me substituiu. Foi uma coisa unilateral. Não houve acordo porque eu nem fui sequer convidado para uma reunião para debater a decisão. Ainda tinha dois anos de contrato. Obviamente que respeitei, cada um toma as decisões que entende, mas não concordei porque não havia motivos para isso. Foi a decisão do presidente e a partir daí o processo desenvolveu-se. Ao fim de três anos, a decisão foi tomada a nosso favor», destacou António Conceição, que aprofundou a ligação entre o futebol e a política.
«Para os selecionadores não é fácil. Às vezes não estão assim tão interligados e, no caso dos Camarões, a partir do momento em que o Eto’o entrou que tem havido muitas divergências, quer com o Ministro do Desporto, quer com o selecionador que este escolheu a seguir ao Rigobert Song. Depois de um ano e pouco foi despedido e o Ministério assumiu a decisão de contratar um treinador [Marc Brys] contra a vontade do Eto’o. Há sempre conflito e nunca há consenso nas decisões, o que não é fácil nas decisões. Revejo-me agora no que se passou com o Marc Brys, que teve momentos difíceis. Um treinador tem de ser inteligente e arranjar forma de se manobrar nos conflitos ou de evitar meter-se nos conflitos», frisou o técnico.
Lê toda a entrevista de António Conceição.

