João Aroso antevê Mundial 2026 com a Coreia do Sul: «Temos alguns jogadores de primeira linha do futebol mundial, mas depois temos alguns que jogam em patamares mais abaixo»

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João Aroso foi o mais recente entrevistado pelo Bola na Rede. O técnico abordou Mundial 2026 pela Coreia do Sul.

João Aroso, treinador adjunto da Coreia do Sul, foi o mais recente entrevistado pelo Bola na Rede. O técnico abordou a chegada à seleção asiática e olhou para o Mundial 2026.

«Eu entro no Famalicão e surgem-me vários convites efetivos. Às vezes o tempo passa e nada se efetiva. Outras vezes, é ao contrário. Eu vou recusando. Um dos convites era para a Primeira Liga da Arábia Saudita. Há situações que são complicadas de recusar. O clube que me queria contratar foi o Al Okhdood, onde esteve até recentemente o Paulo Sérgio. Eu estava dentro, se eu quisesse. Foi difícil inclusivamente ter recusado. Como é que eu podia recusar? Eu acedi a ser entrevistado e tive o convite. Recusei porque não me seduz totalmente um passo destes, apesar de reconhecer que é uma liga que tem os jogadores que tem e os treinadores que tem. A realidade do Al Okhdood é diferente, como é lógico, mas era entrar na Primeira Liga da Arábia Saudita. Houve outras questões como o peso do Famalicão, de estar nesse clube. Também houve questões do ponto de vista pessoal e familiar que me fizeram pensar que estava melhor onde estava. Mais ou menos em simultâneo há um contacto para questionar se eu estava disponível para uma entrevista com a Federação da Coreia do Sul. Havia um interesse deles em ter um selecionador coreano, no decurso de saída do Jurgen Klinsmann. Eles queriam um selecionador da casa, que fosse institucionalmente a cara, uma figura quotidiana. Mas depois queria um treinador europeu para organizar todo o processo de organização do treino e do jogo. É neste sentido que vêm até mim e eu acedo a ser entrevistado. Sei que várias pessoas foram entrevistadas, não apenas em Portugal, mas também em Espanha. Eu fui à entrevista a pensar que devia haver muita gente, fui quase como experiência. Mas fizeram-me um convite formal. O convite tornou difícil a minha decisão, sobretudo por estar no Famalicão. Demorei algum tempo a decidir e a minha primeira resposta foi negativa. Eu recusei esse tal primeiro convite. Não me sentia confortável em sair do Famalicão. Depois houve uma insistência, viajaram até Portugal para estar comigo. Isto foi uma demonstração muito grande de que queriam de facto contar comigo. Tratei de algumas questões e limei algumas arestas, sendo que depois falei com o presidente Miguel Ribeiro, de forma a mostrar o meu desejo de sair. Perante a forma como as coisas me foram colocadas, mesmo do ponto de vista das minhas funções, tomei a decisão. Tinha a possibilidade de trabalhar no campo, qualificar-me para o Mundial 2026, estar com jogadores de muita qualidade, estar num bom país. As minhas funções, ou seja, o que queriam de mim, era um treinador de campo. O selecionador coreano é a cara principal do projeto, mas queriam alguém que organizasse o treino, desenvolvesse uma ideia de jogo. Queria inclusivamente que levasse elementos da equipa técnica. Perante o arrastar da minha decisão não foram logo todos os que estão agora. Inicialmente levei o Tiago Maia, analista. Depois houve um reforço muito positivo sobre a satisfação deles para com o nosso trabalho. Após a qualificação para o Mundial 2026 pediram-nos também um preparador físico e um treinador de guarda-redes lusos. Era suposto isto ter acontecido logo no começo. Mais tarde, trouxemos um fisioterapeuta. Foram pessoas recomendadas por mim. Juntou-se o Nuno Matias para ser preparador físico, ele tem muitos anos de Benfica. O Pedro Roma também veio, para a função de treinador de guarda-redes e que estava nas seleções jovens de Portugal. Somos quatro portugueses», explicou João Aroso.

João Aroso colocou ainda o Mundial 2026 como perspetiva e falou nas intenções e na proposta de jogo da Coreia do Sul para a competição.

«Jogamos na Europa com a Costa do Marfim e com a Áustria. Eu dividido o meu tempo entre vários lugares. Consigo estar em Portugal para acompanhar os jogadores coreanos a jogarem na Europa, eles pediram-me isso. Viajo muito pela Europa para observar jogos e estar com os jogadores, entrar em contacto com eles. Este contacto é muito importante. Observar jogos é possível de todo o lado, através da televisão e de plataformas. Tenho tido um feedback muito positivo por parte dos jogadores, de eles sentirem esta presença próxima da minha parte. O Tiago Maia também faz este trabalho quando está cá em Portugal. Para além disto, há muita coisa que fazemos. Felizmente consegue-se trabalhar muito com as tecnologias. Os analistas também ajudam muito. Desenvolvemos o nosso modelo de jogo com imagens, vamos tendo tempo disponível para estruturar algo. Planificamos com os preparadores físicos a questão do treino. Quando estou cá, isto é possível de se fazer. Quando estou na Coreia foco-me em acompanhar jogos da Liga Coreana, tenho reuniões presenciais para trabalhar em todas estas questões. Obviamente vamos fazendo reuniões periódicas. Eu cheguei recentemente da Alemanha, já que o selecionador esteve lá. Ele e alguns adjuntos estiveram a observar jogos, a Primeira Liga Coreana está parada. Estivemos lá em reunião. Não é a densidade de trabalho que existe num clube, mas há tarefas que vamos fazendo com muita sistematização, nomeadamente a observação dos jogadores. Os atletas que jogam na Europa, eu vejo todos os jogos deles. Às vezes até posso só ver as suas ações, vejo todas e faço o relatório. Este trabalho é sistemático. Tudo isto, quando estou fora do campo», confidenciou o treinador.

«Há um contributo muito grande no que diz respeito ao meu trabalho do Tiago Maia. Não te consigo dizer em termos de estrutura como é que jogávamos na fase de qualificação. Mas posso dizer que defendíamos em 4-4-2, com uma ideia de pressão alta sempre que tal era possível. Caso contrário, estabelecer muito bem as nossas dinâmicas de pressão em bloco médio. Obviamente tínhamos que defender em certas ocasiões perto da nossa baliza. Mas em termos estruturais apresentar um 4-4-2 a defender. Já a atacar, quando estávamos no meio campo ofensivo, assumíamos um 3-2-5. Três defesas, com o nosso lateral esquerdo, os dois médios e depois jogávamos com o Son Heun-min aberto na esquerda, quando ele ainda jogava a extremo no Tottenham. Quisemos aproveitar as dinâmicas habituais dele. Do lado direito projetávamos o lateral e o Kang-in Lee ia para zona interior, já que é muito forte nessa zona. Esse era o nosso 3-2-5 a atacar. Por vezes estávamos em 3-4-3, mas na maioria das vezes colocávamos cinco jogadores em cima da linha defensiva adversária. Tudo muito em traços gerais. Depois tivemos uma outra fase. Houve uma conversa entre mim e o selecionador e chegámos à conclusão de que poderia ser interessante, tendo em vista o Mundial, preparar uma linha de cinco quando estivéssemos em bloco baixo. Porquê? As boas equipas colocam quatro/cinco/seis jogadores sobre a linha defensiva adversária, quando atacam. Aguentar isto com uma linha de quatro é muito difícil. Há equipas que baixam o médio centro, outros baixam um dos alas. Nós pensámos, olhando às caraterísticas dos nossos jogadores, jogar em três centrais. Tivemos uma competição em julho apenas com jogadores que atuam na Coreia do Sul e o Japão e decidimos experimentar. Funcionou bastante bem. O nosso 3-4-3 funcionou mesmo muito bem, com pouco tempo para treinar. Ainda assim, a equipa assimilou bastante bem esta especificidade. Também foram vários jogadores novos, os que atuam na Europa não participaram. Segue-se o passo seguinte, em setembro passado, já com os tais jogadores ‘europeus’. Tivemos dois jogos extremamente desafiantes na semana FIFA de setembro: Estados Unidos e México, ambos fora, ambos nos Estados Unidos. O México também parecia que jogava mais em casa que os próprios Estados Unidos (risos). Isto provocado pelo contexto cultural do que é esse país. Era uma zona de muitos mexicanos e parecia que estávamos no México. Tivemos um desempenho muito positivo. A sensação dos jogadores bastante boa também. Isso sedimentou a nossa ideia. Voltámos a jogar uma vez com uma linha de quatro defesas, num jogo contra a Bolívia, na semana FIFA de novembro. Mas os restantes foram em 3-4-3. Eu sinto que nós neste momento estamos preparados para jogar com as duas estruturas e com qualquer uma delas preparados para pressionar, utilizar uma construção a três ou a quatro. Com bola, tendencialmente assumimos esta configuração do 3-2-5, independentemente dos intérpretes. Se a base foi a linha de quatro, existe a tal questão do lateral esquerdo. Mas vamos procurando ter alguma variabilidade. Olhamos para as caraterísticas dos jogadores. Dando um exemplo: o PSG joga um futebol atraente e moderno, na minha opinião. Vemos quase todos os jogadores a interpretarem vários papeis e várias posições. Mas há duas coisas que ajudam muito a isso: o tempo para treinar e o facto do perfil da maioria desses jogadores lhes permitir jogar por dentro, por fora, mais à frente, mais atrás, pedir na profundidade, jogar à largura, jogar em zonas interiores, etc… quase todos têm caraterísticas que os fazem ser bons em tudo. No nosso caso, apesar de termos muito bons jogadores também, por vezes os jogadores têm de assumir predominantemente algo mais. É um pouco da nossa ideia e é assim que vamos configurando as nossas dinâmicas de jogo», vincou ainda.

«Objetivo? Ele não foi assumido assim formalmente para fora, mas eu diria que eu acredito que o primeiro grande objetivo é passar à fase seguinte. Nós temos uma boa equipa, composta por bons jogadores, mas está longe da qualidade e quantidade da seleção portuguesa. É incomparável. Temos alguns jogadores de primeira linha do futebol mundial, mas depois temos alguns que jogam em patamares mais abaixo. Olhamos para a seleção portuguesa e estão todos no top. Há muitos que estão a top e não conseguem entrar no lote. Podemos estender isto a outras seleções que são de facto aquelas que têm outro tipo de ambições. Realisticamente, em primeiro lugar, passar à fase seguinte. Depois, cada eliminatória que puder vir a mais, será muito positivo», concluiu João Aroso.

toda a entrevista de João Aroso.

Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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