A BBC fez as contas e são já 20 as denúncias de Vinícius Júnior por insultos racistas. Por 20 vezes, o avançado brasileiro ouviu das bancadas ou do relvado ataques direcionados ao tom de pele e às suas origens.
As denúncias começaram em 2021, num jogo contra o Barcelona, e foram-se multiplicando e disseminando como os braços de um polvo, umas ignoradas, outras punidas com um comunicado e outras com consequências judiciais. Em 2023, quatro homens foram multados e proibidos de frequentar recintos desportivos por dois anos depois de “enforcar” um boneco com a camisola do brasileiro, naquela que foi a primeira consequência real a gestos considerados de ódio.
Mesmo assim, nenhum destes casos foi tão mediático como aquele que se sucedeu em Valência, corria o mês de maio de 2023. Vinícius Júnior parou um jogo com as denúncias de insultos racistas oriundos da bancada. A partida acabou por ser retomada e o brasileiro viria a ser expulso no meio de uma confusão. O jogo foi tão marcante que é o protagonista do documentário “Baila, Vini” onde o futebolista e os que o rodeiam contam a sua história de superação e de chegada ao futebol profissional, em caminhos cruzados com a luta ao racismo.
Desde então, pouco mudou. Foram várias as denúncias que surgiram, as movimentações de apoio e, infelizmente, as palavras racistas dirigidas ao extremo. O antídoto para os insultos racistas é uma utopia distante. Afinal, o problema está muito para lá do futebol. Mas qual a justificação para a desproporcionalidade dos insultos ouvidos por Vinícius Júnior e para os ataques constantes ao brasileiro?
Aproveitando a presença em Madrid, o Bola na Rede foi à procura de respostas.
As dualidades de Vinícius, o jogador da história que mais alto elevou a luta contra o racismo


Há, no futebol espanhol, poucos jogadores com o impacto mediático de Vinícius Júnior. O avançado chegou como promessa à capital espanhola, depois de um reinado longo de Cristiano Ronaldo como o mais Galáctico de Madrid e foi aumentando progressivamente de progressão, da equipa B merengue até ao estatuto de maior destaque da equipa principal.
É isso que nos relata Adrián Fouz, jornalista da Mediaset España, que rapidamente chega ao ponto central que explica o carácter tão divisório do brasileiro, amado por uns, odiado por outros.
«De uma maneira geral, creio que a imprensa é crítica quando o Vinícius faz algo desrespeitoso para com os adeptos adversários ou companheiros. Mas aqui em Espanha também há uma tolerância zero contra o racismo».
Adrián Fouz
«O Vinícius, desde que chegou a Espanha, tem vindo o nível de importância e de relevância a crescer ano após ano. Até à chegada do Mbappé, era o jogador mais importante do Real Madrid. É um jogador muito mediático e os adeptos gostam dele e estimam-no. Apesar disso, há certos comportamentos que muitos adeptos estão contra, por exemplo o que se passou. Há alguns adeptos do Real Madrid que não gostam que o Vinícius celebre em frente dos adeptos adversários. Essa é uma parte crítica, mas futebolisticamente os adeptos gostam muito dele», explica o jornalista espanhol.
É neste ponto, o das celebrações, que se abre o campo da subjetividade, garante o jornalista. Aquilo que para uns vale, para outros não, e quando a dança de Vinícius Júnior começa, abre-se o campo para as demonstrações das bancadas: umas mais ajustadas que outras.
«Há muita divisão de opiniões. De uma maneira geral, creio que a imprensa é crítica quando o Vinícius faz algo desrespeitoso para com os adeptos adversários ou companheiros. Mas aqui em Espanha também há uma tolerância zero contra o racismo. Todos estamos contra. É verdade que, no passado, houve vários adeptos racistas contra o Vinícius por este choque», esclarece o jornalista, que faz um ponto sobre a abordagem da imprensa espanhola.
«na história do futebol em Espanha, não me recordo de um jogador que tenha levado tão alto a luta contra o racismo».
Adrián Fouz
Sem se querer colocar como a figura central na história nem como representação da imprensa espanhola como um todo, Adrián Fouz reafirma o compromisso de quem escreve e fala publicamente deste tema nos jornais, rádios e televisões de Nuestros Hermanos.
A critica é comum, confessa o jornalista, mas a linha divisória está, geralmente, bem marcada. Há exceções como em todo o lado, confirma Adrián, mas os insultos racistas são vistos como uma linha vermelha
«Provavelmente, na história do futebol em Espanha, não me recordo de um jogador que tenha levado tão alto a luta contra o racismo. É verdade que sofreu muito, mas ele também quis manifestar-se contra tudo. Fez um documentário e parou um jogo de futebol em Valência, há três temporadas, por insultos racistas. É um exemplo claro da luta», enaltece Adrián Fouz.
A representação do Brasil e a culturalidade do baile


Nem só de espanhóis se faz a comunicação social espanhola. Tati Mantovani é brasileira e uma das caras da TNT Sports no país da Roja, e acompanha de perto o futebol espanhol e Vinícius Júnior.
Para a jornalista, Vinícius Júnior colocou o dedo na ferida e foi responsável por feitos e méritos que só no futuro lhe serão reconhecidos. A denúncia que o levou aos holofotes e o tornou numa das caras principais da luta contra o racismo é uma das justificações pela qual os ataques ao brasileiro são tão comuns, explica Tati.
«O Vini é um jogador que fez a Espanha olhar-se ao espelho há três anos atrás quando começaram as denúncias mais ativas dos casos de racismo que sofreu em, se não me engano, 10 estádios diferentes. São mais de 20 denúncias somadas em três anos. Por isso ele sofre mais, por ter denunciado. Antes do Vinícius, isso não existia. De outros jogadores que sofreram racismo noutras décadas, que nem podemos julgar porque a sociedade estava num momento diferente, o Vinícius é o primeiro que, de forma ativa, denuncia e faz com que o sistema se movimente para denunciar tanto o clube como as competições nas quais ele é vítima de racismo. É complicado até dizer como ele é visto, porque a gente só vai entender o tamanho do que o Vinícius fez nesses anos daqui a uma década. Quando as coisas estão a acontecer, muitos vestem a camisa e não conseguem ver da mesma forma. Foi um passo muito importante que ele deu nestes últimos anos», salienta Tati Mantovani, que procede com a explicação.
«Para nós, a dança é uma forma de celebração e de comemoração. Que se utilize isso para justificar um ato de racismo é baixo e é vil e eu não consigo entender».
Tati Mantovani
«Quando alguém se torna a voz de quem não tem voz numa sociedade e num mundo, no geral, que não quer aceitar que aquela pessoa tem o direito de se posicionar quando é ela que está a sofrer, geralmente acaba por ser alvo de quem não acredita que o mundo tem de progredir e evoluir. Eu acho que o Vini é um desses casos», confessa a jornalista.
É nas danças e nas manifestações após o golo, frequentemente frente a bancadas rivais, que muitas palavras de desagrado começam a surgir. Tati Mantovani enquadra o bailado de Vinícius Júnior como uma demonstração de culturalidade e algo que entrou no corpo do jogador à nascença.
«O brasileiro comemora absolutamente tudo cantando, dançando e sendo feliz. Para nós, a dança é uma forma de celebração e de comemoração. Que se utilize isso para justificar um ato de racismo é baixo e é vil e eu não consigo entender. Eu sou uma pessoa que não sei dançar e, mesmo assim, quando acontece uma coisa boa na minha vida eu danço, mesmo não sabendo. O Vinícius sabe, então ainda pior. É algo normal que já vimos inúmeras vezes, inclusive em jogadores como o Cristiano Ronaldo. Já dançou para comemorar golos. Que se utilize a dança para justificar um ato racista torna ainda pior o que a gente sente no Brasil», lamentou a jornalista.
«Acho que o Vinícius é uma voz do Brasil. Muitas vezes perguntam-se se no Brasil não há só pessoas negras».
Sobre o impacto de Vinícius Júnior
Há, por Espanha, vários emigrantes brasileiros que rumaram a solo europeu à procura de melhores condições de vida. Falámos com uma mulher brasileira que, por motivos pessoais e profissionais, não quis ser identificada. O futebol não ocupa grande espaço na sua vida, mas há em Vinícius Júnior um sentimento de representação claro.
«Sinto-me bem representada por ele. Acho legal quando paro na saída do metro e vejo uma foto dele no Real Madrid, ao lado dos outros jogadores. Acho bem legal isso», começou por afirmar a entrevistada. «Acho que é uma voz do Brasil. Muitas vezes perguntam-se se no Brasil não há só pessoas negras. Não é assim, o Brasil é uma mescla total», confessou.


O facto de ser negro, permite a Vinícius Júnior falar por quem muitas vezes não tem voz, explica ainda, lamentando o racismo e a discriminação que surgem quando se vê no passaporte a “ordem” e o “progresso”.
«É uma força que ele tem. Infelizmente, as pessoas negras não têm muitas oportunidades e está lá ele como um dos maiores jogadores do Brasil. Agora que ele vai para a Copa do Mundo, acho legal. Eu nunca passei por uma situação igual à dele e ninguém sofre na proporção que ele sofre», garantiu ainda, alertando para a diferença na proporção da voz de Vinícius Júnior. Se o insultam e diminuem por ser do Brasil, a entrevistada orgulha-se da sua voz chegar bem mais longe.
«Sempre vão existir pessoas que o vão querer diminuir só por ser do Brasil, mas o trabalho dele vai muito além do que o Brasil», complementa.
«Ele sabe que incomoda quando faz isso, mas é a maneira de ele dizer “Eu sou assim e vão ter de me aceitar assim”»
Sobre as comemorações de Vinícius Júnior
O que é ser do Brasil volta a estar em cima da mesa e, tal como Tati Mantonavi havia atribuído na questão da dança, também a entrevistada coloca a questão cultural como uma das razões que justifica a quantidade de denúncias feitas pelo brasileiro.
«Acho que a postura dele é muito a do brasileiro. Não aguentar calado, questionar e falar. Ele é uma voz e é uma pessoa que pode falar e os outros podem tomá-lo como exemplo para denunciar», manifestou-se.
Quanto às danças, o gosto é comum. Onde há um brasileiro, há uma vontade inerente em dançar para extrapolar todos os sentimentos de felicidade. Diz-se que quem dança seus males espanta, mas o dança do brasileiro atrai os maiores males da sociedade.
«Eu gosto e é uma maneira dele confrontar e de falar que é bom naquilo que faz. Acho que é a comemoração dele, uma maneira dele extravasar as críticas. Ele sabe que isso incomoda. É a maneira que ele consegue tacar. Ele sabe que incomoda quando faz isso, mas é a maneira de ele dizer “Eu sou assim e vão ter de me aceitar assim”», destaca a entrevistada, que recentra o problema não no jogador, mas na sociedade.
«Há muitos outros que fazem tantas coisas e ninguém ataca como atacam ele. Acho que os adversários encontraram uma maneira de o provocar. É racismo», conclui.
Quando a vontade de lutar contra o racismo se sobrepôs à tentação de desistir


Nunca Vinícius Júnior se mostrou tão vulnerável como em março de 2024. Na antevisão de um duelo entre Espanha, o país onde se destaca nos relvados, e o Brasil, país onde nasceu e cultivou toda a ginga futebolística, Vinícius Júnior chorou e levantou a sua voz.
Ao contrário do que muitos apontam, confessou na altura o brasileiro, a denúncia não é um momento de felicidade, mas de profunda tristeza. O jogador relembrou a sua luta que já foi, outrora, a luta do pai
«É algo muito triste e que acontece aqui a cada jogo e a cada dia. Cada denúncia que faço deixa-me muito triste, tal como a todos os negros do mundo. É algo muito triste e não é só em Espanha que está a acontecer, é também no mundo. Também acontecia com o meu pai, escolhiam antes um branco do que um negro. É algo que noto e que luto porque me escolheram a mim. Luto para que num futuro próximo isto não volte a acontecer a ninguém. Entendo que se fale do que eu faço em campo. Claro que tenho muito para melhorar, ainda só tenho 23 anos e é um progresso natural. Já vejo isto há muito tempo e cada vez me sinto mais triste, cada vez tenho menos vontade de jogar», destacou o avançado, numas declarações que correram o mundo.
«Cada vez tenho menos vontade de jogar», disse Vinícius Júnior. Não porque o futebol se tornou menos artístico, não porque o treinador o colocava a jogar numa posição de que não gostava é não porque viu uma transferência calhar. O problema não era sequer uma lesão grave ou circunstâncias pessoais que se sobrepunham ao amor ao jogo. O centro da questão era somente a cor da pele. Desde então, Vinícius Júnior continuou a falar da luta contra o racismo e a discriminação, mas não esqueceu a promessa, que continua a cumprir.
«As pessoas vão ter cada vez mais o meu rosto. Os racistas são a minoria».
Vinícius Júnior
«Se saio daqui, dou aos racistas o que eles querem. Vou continuar aqui a lutar, a jogar no melhor clube do mundo, a ganhar títulos, marcando golos. As pessoas vão ter cada vez mais o meu rosto. Os racistas são a minoria. Como sou um jogador atrevido, que joga no Real Madrid e ganhamos muitos títulos, é muito complicado, mas vou seguir firme e forte porque tenho o apoio do clube e do presidente», destacou o jogador que relembrou a sua luta e o seu propósito com a causa.
«No futebol, há muitas pessoas, tantos jogadores melhores do que eu que já passaram por aqui. Eu quero fazer com que as pessoas no mundo possam evoluir, melhorar, que possamos ter igualdade, que num futuro próximo haja menos casos de racismo, que as pessoas negras possam ter uma vida normal, como as outras. Eu vou para os jogos com a cabeça centrada no jogo para fazer o melhor, mas nem sempre é possível. Tenho que me concentrar muito todos os dias», destacou o jogador.
Sobre o futuro, Vinícius Júnior não sabe o que mudará e, em dois anos, as conclusões são variadas. Havia no brasileiro uma certeza:
«Há crianças que gozam comigo e eu não as culpo, porque elas não entendem. Eu na idade delas também não entendia o racismo», referiu, à data, o jogador.
Não está nas mãos de Vinícius Júnior ser o responsável para que a próxima geração deixe de saber o que é racismo para lá da definição nos livros de história. Não está, sequer, nas mãos de ninguém garantir que tal possa vir a acontecer. Por agora, Vinícius Júnior vai bailando para festejar golos e erguendo a voz. De Adrián a Tati e não só, a conclusão é clara: Vini é muito mais do que somente um jogador de futebol, embora seja nessa arte que tenha alcançado o palco para erguer bem alto a voz.



