Olhar tático ao FC Porto x Famalicão: as dificuldades impostas pela equipa minhota no corredor central e a abordagem cautelosa de Francesco Farioli na pressão

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FC Porto e Famalicão protagonizaram, no passado sábado, um dos jogos mais emocionantes da Primeira Liga esta temporada, marcado por uma série de acontecimentos pouco previsíveis tendo em conta aquilo que era expectável para o encontro. As duas equipas empataram 2-2 no Estádio do Dragão, num jogo relativo à 28.ª jornada da competição.

Tendo em conta o momento do Famalicão, quatro vitórias e um empate nos últimos cinco jogos, já se antecipava um jogo extremamente exigente para os dragões. Para além da confiança, o futebol apresentado pela equipa minhota tem sido claramente revelador de uma ideia bem trabalhada e de grande competência coletiva.

No Estádio do Dragão e, em organização defensiva, o Famalicão apresentou-se num 4-4-2 muito bem definido, com Elisor e Gustavo Sá como dupla mais avançada e com Sorriso marcação individual ao lateral direito dos dragões. Esta estrutura apresentada por Hugo Oliveira revelou-se fundamental para condicionar o jogo do FC Porto, sobretudo na forma como conseguiu anular, em vários momentos, o corredor central. Gustavo Sá teve um papel crucial nesse sentido, fechando várias vezes o espaço entre os corredores e impedindo que Zaidu e Rodrigo Mora recebessem a bola com facilidade.

Mais do que o sistema tático em si, aquilo que se vai percebendo cada vez mais é que o fator diferenciador está no timing com que as equipas decidem saltar na pressão ao portador da bola ou, por outro lado, baixar e jogar em contenção. A isto junta-se um aspeto decisivo: as distâncias entre jogadores, tanto entre elementos da mesma equipa como em relação ao adversário. Na presente temporada, vários adversários do FC Porto têm adotado esta dinâmica, com dois elementos mais adiantados a fechar os espaços interiores. Uns com mais sucesso do que outros e, no fundo, tudo acaba por depender da forma como conseguem articular estes dois fatores.

Jogadores FC Porto
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Nesse sentido, o Famalicão foi extremamente competente a controlar o espaço interior. Alan Varela teve muitas dificuldades em assumir o papel de terceiro homem na construção, muito por mérito da forma como o bloco famalicense fechava as linhas de passe. Ao mesmo tempo, os médios interiores do FC Porto raramente conseguiram enquadrar-se, muito devido à capacidade de Tomás Van de Looi e Mathias de Amorim em condicionar, pressionar e encurtar espaço com eficácia.

Também Terem Moffi esteve bastante condicionado pela ação de Ibrahima Ba, um central muito forte no duelo e com grande capacidade física. Ao avançado nigeriano faltou maior capacidade para segurar bola e oferecer apoios frontais, algo que teria sido importante para ligar o jogo e permitir à equipa respirar com posse em zonas mais adiantadas.

Com o corredor central constantemente bloqueado, o FC Porto foi sendo empurrado para zonas exteriores. Nesse contexto, os centrais assumiram maior protagonismo na construção, mais até do que o habitual. Jakub Kiwior, pela sua capacidade de passe vertical foi tentando encontrar os extremos através do passe longo, mas acabou por se mostrar mais errático na primeira parte, sobretudo na definição. Já Jan Bednarek procurou a solução do passe rasteiro, muitas vezes através dos movimentos de Alberto Costa de fora para dentro, permitindo ligar o jogo a Pepê na largura. Ainda assim, essas situações tiveram pouca sequência, muito por mérito do Famalicão, que foi sempre muito eficaz nas coberturas, com os extremos a reagirem rapidamente para fechar o espaço.

Uma possível solução poderia ter passado por baixar Rodrigo Mora no terreno, permitindo-lhe receber de frente para o jogo, assumir a parte da organização ofensiva e baralhar referências individuais do Famalicão e obrigar a acompanhar. No entanto, o médio do FC Porto mostrou-se condicionado fisicamente e acabou por sair ainda na primeira parte, o que agravou ainda mais as dificuldades portistas no jogo com bola, tendo em conta também a ausência de Gabri Veiga.

Rodrigo Mora lesão FC Porto
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Outra das questões que o jogo levanta prende-se com a postura do FC Porto na primeira fase de construção do Famalicão. Ao contrário do que se verificou frente ao Braga – onde Francesco Farioli apostou numa pressão alta agressiva, com uma primeira linha de quatro jogadores a condicionar logo na área adversária -, neste encontro os dragões adotaram uma abordagem mais cautelosa

É certo que o Famalicão utiliza Lazar Carevic como elemento ativo na construção, criando superioridade numérica nessa fase. Ainda assim, o Braga também recorre frequentemente a Lukas Hornicek nesse contexto, e, nesse jogo, o FC Porto conseguiu condicionar essa saída com sucesso. Fica, por isso, a dúvida sobre se teria sido possível repetir uma abordagem semelhante, por exemplo, com o Oskar Pietuszewski a pressionar de fora para dentro para condicionar e obrigar Ibrahima Ba ou Lazar Carevic a jogar para o seu pé esquerdo (pé não preferencial).

Com o FC Porto em bloco médio, o Famalicão ganhou espaço para construir e manipular a pressão adversária. Gustavo Sá esteve em grande nível nesse capítulo, conseguindo atrair o jogo a um corredor, muitas vezes o direito do ataque famalicense, para depois variar rapidamente o centro de jogo e explorar o lado contrário. Foi nesse contexto que Sorriso apareceu várias vezes com espaço para o 1×1 frente a Alberto Costa.

Jogadores FC Porto
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

Ainda assim, foram os dragões a inaugurar o marcador, ao minuto 35, num lance de insistência na área do Famalicão que terminou com o remate certeiro de Alberto Costa. Na segunda parte, já com a entrada de William Gomes, o FC Porto subiu ligeiramente as linhas de pressão e tentou condicionar mais alto. No entanto, foi o Famalicão a chegar ao empate, aos 54 minutos: após um cruzamento, Elisor obrigou Diogo Costa a uma intervenção e, na recarga, Sorriso fez o 1-1.

O FC Porto continuou a insistir, sobretudo pelos corredores laterais, mas o momento de maior qualidade individual surgiu apenas nos instantes finais. Aos 90+1 minutos, Seko Fofana protagonizou um lance de génio, partindo da esquerda, ultrapassando vários adversários e finalizando com qualidade para o fundo das redes. Num ambiente de ebulição no Estádio do Dragão, tudo indicava que os três pontos ficariam novamente na Invicta, no entanto, o Famalicão voltou a mostrar a sua capacidade competitiva e, já aos 90+5, chegou ao empate por Rodrigo Pinheiro, fixando o resultado final em 2-2.

Tendo em conta o contexto do jogo e o momento das equipas, não há razões para alarme no FC Porto. A equipa de Francesco Farioli defrontou um adversário extremamente bem organizado, em grande forma, que já tinha criado muitas dificuldades a Benfica e Sporting. Ainda assim, será fundamental que os dragões voltem a ligar o seu jogo coletivo, sobretudo depois de virem de um dos melhores momentos da temporada antes da pausa para seleções. Nem tudo está mal agora, nem tudo estava bem há duas semanas. Nesse sentido, a capacidade de gestão emocional e competitiva nesta fase final será determinante e Francesco Farioli terá aqui um papel central.

Do lado do Famalicão, há muito mérito na forma como a equipa conseguiu condicionar o FC Porto em vários momentos do jogo, mantendo sempre uma organização consistente e uma grande capacidade de reação. Destaque também para a resposta de Hugo Olivera à pergunta do Bola na Rede, onde explicou a estratégia da equipa famalicense diante dos dragões, com foco no bloqueio do do corredor central, na eficácia das coberturas laterais e na utilização de Lazar Carevic como peça-chave na construção.

O resultado acaba por ser positivo para a equipa de Hugo Oliveira, que regressa ao 5.º lugar da competição, ultrapassando o Gil Vicente na luta pelos lugares europeus. Já o FC Porto pode ver o Sporting reduzir a diferença para apenas dois pontos na liderança.

Rodrigo Lima

Francesco Farioli FC Porto x Famalicão
Fonte: Diogo Cardoso / Bola na Rede

BnR na Conferência de Imprensa

Bola na Rede: O Famalicão, em 4-4-2, acabou por dificultar os caminhos pelo corredor central do FC Porto na primeira parte. Pergunto-lhe o que procurou corrigir ao intervalo para que a equipa conseguisse explorar mais as triangulações pelo meio e também encontrar mais vezes o Terem Moffi?

Francesco Farioli: Jogámos quatro vezes contra o Famalicão: três em jogos oficiais e um na pré-época. Nós sabíamos os padrões do Famalicão, mas hoje ajustaram alguns detalhes. Na realidade, é mais da nossa responsabilidade, porque não estivemos ao nível: não fizemos uma circulação rápida de bola, faltou precisão e não houve agressividade na construção de jogo. Fomos definitivamente passivos e isso fez com que a nossa performance ficasse abaixo dos nossos padrões. Gosto de ser honesto e acho que hoje não merecíamos a vitória, porque a nossa exibição não esteve ao nível. Por outro lado, às vezes é bom conseguir um resultado mesmo quando não merecemos ou quando não fazemos um jogo top, mas mesmo assim, quando tivemos a oportunidade, não conseguimos gerir a situação da forma como devíamos.

Bola na Rede: A equipa do Famalicão mostrou-se muito organizada desde o início, dificultando que o FC Porto jogasse pelo corredor central e obrigando os centrais a recorrerem muitas vezes à bola longa. Pergunto-lhe, por um lado, se isso fazia parte da estratégia defensiva da equipa e, por outro lado, se o surpreendeu o bloco médio do FC Porto, que não pressionou tão alto a primeira fase de construção do Famalicão na primeira parte?

Hugo Oliveira: O Famalicão é sempre uma equipa organizada, não foi só hoje; a organização e disciplina são uma das imagens de marca da equipa. Depois, obviamente, esse era um dos planos sem bola: fechar o espaço central, cortar as ligações pelo meio do FC Porto e, quando a bola chegasse à largura, garantir cobertura para essa zona, porque o FC Porto tem jogadores nas alas extremamente agressivos no 1×1, criando até algumas permutas entre os jogadores que vêm de dentro e os que vêm de fora. Nós tínhamos de manter a nossa capacidade de pressionar e de saltar aos dois centrais em determinados momentos. Aqui tenho de enaltecer o trabalho de alguns jogadores: o jogo que o Gustavo Sá fez hoje foi de um nível muito, muito alto. Com bola, encontrava espaços e sabia para onde se virar; sem bola, sabia quando era o momento de saltar e quando não era. Um jogador com uma capacidade de interpretação tática fora do comum para alguém da sua idade, e caminhamos nesse sentido de desenvolvimento, é para isso que trabalhamos todos os dias. Obviamente, também tínhamos de encontrar os nossos caminhos para jogar. E não é só o FC Porto que decide não pressionar o nosso momento de construção; a dificuldade que criamos aos adversários passa por usar o nosso guarda-redes. O facto de construirmos o jogo com 11 jogadores cria naturalmente dificuldades: há sempre um homem livre, o que torna mais difícil para eles saltarem. O FC Porto é uma equipa pressionante, com poder para saltar, mas se não conseguem chegar a tempo depois de saltar ao guarda-redes, há sempre um homem livre. Sempre que encontramos esse homem livre, giramos e exploramos o espaço cego do FC Porto. Depois de criar, temos de definir, e é para isso que trabalhamos. Há coisas que temos de evoluir, de melhorar, mas acima de tudo, a vida é feita de momentos, e hoje queríamos dar essa alegria aos nossos adeptos. O FC Porto era, hoje, mais próximo de ser campeão nacional, um adversário extremamente forte, com uma campanha fortíssima, e mesmo assim bateu-se perante um Famalicão que teve coragem e jogou o seu jogo dentro deste ambiente. Mesmo depois de sofrer o 2-1 naquele minuto, o Famalicão não se vergou; foi atrás do empate. A vida, de vez em quando, devolve o que merecemos, e hoje devolveu.

Rodrigo Lima
Rodrigo Limahttp://www.bolanarede.pt
Rodrigo é licenciado em Ciências da Comunicação e está a frequentar o mestrado em Gestão do Desporto. Trabalha na área do jornalismo desportivo, com particular interesse pela análise de futebol.

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