Um Benfica de autor | Benfica 6-1 Hearts

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O Benfica tem quase os dois pés no playoff de acesso à fase de liga da Europa League. O encontro frente ao Hearts mostrou uma imagem positiva dos encarnados, ainda que com algumas arestas por limar. Já do lado dos escoceses, há muito trabalho a fazer, um projeto que perdeu o seu norte, depois de um 2025/26 de sonho, com a quase conquista da Liga. O 6-1 não foi um exagero, bem pelo contrário. As águias deram a sua melhor versão ao longo de quase toda a partida, deixando-se ‘adormecer’ um pouco depois da saída de Enzo Barrenechea do meio campo, o médio mais posicional, que parece fundamental de existir nas ideias de Marco Silva.

O técnico mexeu na equipa, com Samuel Soares a entrar para o lugar de Anatoliy Trubin. O português não contou com muito trabalho, mas nota para a sua má saída na bola aos ferros do Hearts. Algo a se trabalhado. No entanto, a entrada em campo de Gianluca Prestianni foi a que melhor rejeitou (quase fazendo esquecer as outras mexidas). O argentino foi aposta na esquerda, onde pode mostrar a sua melhor versão. O extremo foi o farol da equipa naquele lado do terreno, sem medo de progredir com a bola, realizar recuperações, entrar na área e tentar o remate. O jogo do argentino não contou com muitos pontos fracos. Quiçá algumas das suas combinações não resultaram, mas a ‘culpa’ terá de ser repartida com Georgiy Sudakov, que não está confortável na Luz e Marco Silva ainda não encontrou uma fórmula de o ucraniano conseguir entrosar com os restantes colegas. 

Tomás Araújo Benfica
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

Gianluca Prestianni em dia ‘sim’ faz a diferença. Marcou um golo, mas a sua ação foi bem mais além do que isso. O grande problema do atleta é que o posto de extremo esquerdo tem um titular indiscutível: Andreas Schjelderup. Isto provoca a mudança do jogador para a direita, onde tem alguns rasgos, mas não consegue produzir certas ações que apresentou ante o Hearts. Uma boa dor de cabeça para Marco Silva e restante equipa técnica.

Quem também foi titular no jogo foi Tomás Araújo, que desempenhou inclusivamente a função de capitão. O internacional português, além do golo marcado, deixou uma imagem segura. A crítica sabe que o atleta tem qualidade e o seu nível é mais do que suficiente para ser titular. Ao seu lado, uma das novidades dos encarnados esta época e que pode dar muito ao jogo de Marco Silva. Clément Lenglet permite ao Benfica ter um defesa central esquerdino, que sabe ter bola no pé. Na última época isso não existia. O francês permite às águias contaram com outras maneiras de sair a jogar, numa construção mais tricotada. Além disso, é um defesa que sabe progredir com a bola se tem espaço para tal. O lance que origina o segundo golo é provocado pelo ex-Atlético Madrid. Trata-se de um passe longo que vai parar à cabeça de Leandro Barreiro, levando à defesa de Beau Reus. Os adeptos da Luz não estão habituados a este tipo de jogo, que beneficia todos os colegas, principalmente quando se tem de assumir o domínio da posse.

Benfica Jogadores
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

Um pouco mais à frente no terreno atuou outra figura do encontro. Enzo Barrenechea está a convencer o exigente tribunal da Luz, que o queria fora do plantel no final de 2025/26. O argentino é um médio mais posicional, trata-se de um jogador que sabe distribuir bem o jogo e é forte nos duelos. O argentino não é como Florentino Luís, que tinha uma capacidade defensiva acima da média, cobria uma grande zona do campo. Marco Silva entendeu que para o médio brilhar, o meio campo também teria de se adaptar às suas caraterísticas e um 4x3x3 promove as virtudes de Enzo Barrenechea e as suas imperfeições são mais ‘cobertas’. Como referido anteriormente, a equipa ressentiu-se da sua saída, com um duplo pivot constituído por Richard Ríos e Leandro Barreiro a ficarem em campo, dois médio não posicionais. A equipa demorou a equilibrar.

Há que escrever sobre o triangulo que o Benfica montou pela direita: Alexander Bah, Leandro Barreiro e Rafa Silva. O dinamarquês é um todo o terreno pela linha e tem um perfil associativo precioso (Amar Dedic e Daniel Banjaqui também poderão desempenhar a tarefa sem grandes dificuldades). Já o luxemburguês, que atua na segunda altura do meio campo, consegue estar presente com a mesma qualidade próximo da sua área, tal como da área do adversário, promovendo inclusivamente incursões na mesma (é ver o primeiro golo do Benfica). O internacional português é um vagabundo, sabe aparecer onde Alexander Bah e Leandro Barreiro necessitam dele, sempre em terrenos mais interiores, deixando a linha para o lateral. Os movimentos apresentados no jogo contra o Hearts, cujo primeiro golo serve de exemplo, são a imagem do que Marco Silva que impor no Benfica: associativismo, domínio, uma marca própria. Não são os encarnados que têm de se adaptar ao rival (ainda que tenham de o estudar de igual modo), mas sim o oponente que tem de se preparar para um embate com o Benfica. Na teoria, as águias são favoritas em 90% dos jogos, vão enfrentar defesas recuadas e têm de saber desmontar esse puzzle. Com Gianluca Prestianni mais aberto na esquerda, este triangulo na direita funcionou perfeitamente e pode ser complicado de mexer.

Clément Lenglet Benfica
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

Este foi o melhor jogo do Benfica na época, com poucos alertas a fazer. Marco Silva terá de mostrar ao plantel o que falhou a partir dos 70’ (numa fase em que já estava fazer gestão física), quando o Hearts assumiu o domínio do encontro, ainda que o resultado estivesse avolumado. Nada que pusesse a equipa em crise. As águias terão de entrar em campo já no domingo, para enfrentar um Académico de Viseu que regressou à Primeira Liga com vontade de ficar e deixar uma boa imagem. O conjunto do Fontelo viu onde o Hearts falhou (que foi em quase toda a linha) e o Benfica sabe que não vai contar com tanto facilitismo. Para já, as indicações são positivas e a equipa está a crescer a olhos vistos.

Bola na Rede na Conferência de Imprensa

Bola na Rede: Retirou de campo o Enzo Barrenechea, deixando o Richard Ríos e o Leandro Barreiro como duplo pivot. Sente que o Benfica se ressentiu com a saída do médio mais posicional que tinha em campo?

Marco Silva: Sim, mas a decisão foi consciente e não escondo que estava a pensar no jogo do próximo domingo. Não há que escondê-lo, foi essa a decisão. O Enzo é um jogador que tem vindo a crescer, é um atleta que tem algumas caraterísticas muito próprias em termos físicos. Queremos dar-lhe cada vez mais minutos, mas sabemos que domingo estamos a começar outro jogo, que também é para ganhar. Foi uma decisão de gestão, nada relacionado com questões táticas. Estava a fazer um excelente jogo, na primeira parte faltou um pouco perceber que podia estar numa linha mais adiantada, atrás dos dois avançados, se ele o conseguisse fazer, ainda teria uma maior influência no nosso jogo. Foi o que tentei explicar à equipa e a ele próprio ao intervalo. Mas a decisão neste caso não tem nada a ver com decisões técnico-táticas, mas sim com uma gestão clara do que é o jogo do próximo domingo.

Marco Silva Benfica
Fonte: Paulo Ladeira / Bola na Rede

Ricardo João Lopes
Ricardo João Lopeshttp://www.bolanarede.pt
O Ricardo João Lopes realizou a sua formação na área da História, mas é um apaixonado pelo desporto (especialmente pelo futebol) desde criança, procurando estar sempre a par da atualidade.

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