De todos os clubes do mundo, o Real Madrid é o mais mundial dos clubes. Poucos outros emblemas apresentam a dimensão e a grandeza dos merengues no panorama internacional, exponenciada nos últimos anos com o acentuar do estatuto na Champions League. Também na sua grandeza, há no Real Madrid um fator distintivo.
São inúmeros os craques mundiais que passaram pelos merengues algures na sua carreira. Ora, só no século XXI, Ronaldo Nazário, Zinedine Zidane e Cristiano Ronaldo já andaram pela capital espanhola. Os Galáticos, essa memória distante do início do milénio, juntaram os dois primeiros desta lista a Luís Figo, David Beckam e tantas outras estrelas.
No Real Madrid, os jogadores foram sempre superiores aos treinadores. Se o Barcelona era o de Lionel Messi e dos médios, também o era o de Pep Guardiola. Tamanha nomenclatura – uma equipa do treinador – raramente ocorreu no lado dos blancos. Mesmo a equipa de José Mourinho, no ano histórico que bateu a de Pep Guardiola a pontos corridos, ficou na história como a dos 100 pontos, mais do que a do Special One, ainda que os méritos do português estejam nesta decalcados.
Num clube onde os jogadores assumem um papel fulcral e em que as contratações e as transferências são pensadas pelo nome, há no papel do treinador uma função diferente dos restantes clubes. É essa a principal dificuldade no projeto dos merengues – a de arranjar um técnico capaz de gerir todos os egos de um balneário onde a qualidade nos pés surge equiparada à grandeza e altivez daqueles que se sabem maiores que os outros. Porque o são, na maioria das vezes.
O histórico de treinadores do Real Madrid


Há poucas semanas, o ano mudou e o quarto de século foi superado. Xabi Alonso acabou por ter uma passagem de ano diferente e entrou Álvaro Arbeloa, o 20.º treinador – mediante algumas repetições – do século.
- Vicente del Bosque, 1999-2003
- Carlos Queiroz, 2003-2004
- José Antonio Camacho, 2004
- Mariano García Remón, 2004
- Vanderlei Luxemburgo, 2004-2005
- Juan Ramón López Caro, 2005-2006
- Fabio Capello, 2006-2007
- Bernd Schuster, 2007-2008
- Juande Ramos, 2008-2009
- Manuel Pellegrini, 2009-2010
- José Mourinho, 2010-2013
- Carlo Ancelotti, 2013-2015
- Rafael Benítez, 2015-2016
- Zinedine Zidane, 2016-2018
- Julen Lopetegui, 2018
- Santiago Solari, 2018-2019
- Zinedine Zidane, 2019-2021
- Carlo Ancelotti, 2021-2025
- Xabi Alonso 2025-2026
- Álvaro Arbeloa 2026-presente


Há poucas exceções à regra, como José Mourinho até apontou recentemente. É raro um treinador ser despedido do Real Madrid e é muito raro ver um treinador durar mais de um ano nos merengues.
As exceções são Vicente Del Bosque, José Mourinho, Zinedine Zidane e Carlo Ancelotti. Todos eles com duas característica base: o estatuto forte e a capacidade conciliadora e moldável.
Dos quatro nomes, José Mourinho ainda é o mais fora da caixa, com uma personalidade tão ou mais forte do que muitos dos nomes que orientou. O técnico acumulou algumas lutas internas na sua passagem pelo Real Madrid, num período delicado face à afirmação de uma das equipas mais míticas da história do Barcelona. Era também, de todos os nomes, o que chegava a Madrid com mais créditos firmados, depois de trabalhos de excelência por FC Porto, Chelsea e Inter Milão.
Ainda assim, tal como os restantes, José Mourinho consegue tirar de si o protagonismo e dá-lo aos jogadores. Foi assim que procurou sempre enquadrar e dar conforto aos nomes que treinou, fugindo de modelos pré-definidos e ideias inegociáveis para procurar, acima de tudo, encaixar toda a qualidade e olear uma equipa.


Esta é a definição, por excelência de Carlo Ancelotti ou de Zinedine Zidane. Mais do que grandes estrategas, os dois nomes foram sempre mais fortes na gestão de grupo do que, necessariamente, nos planos táticos para a época. Não o eram necessários partindo do princípio de que, com melhores jogadores, era extraindo a melhor individualidade de cada um que a equipa mais se aproximava da vitória.
Eram também, quer José Mourinho, quer Carlo Ancelotti, quer Zinedine Zidane, nomes fortes no futebol. O único que chegou aos merengues sem ser um treinador do topo europeu era o francês, que compensava com uma característica única. É um dos melhores jogadores da história do futebol e um dos que melhor percebe, quase como que por arrasto, as necessidades dos melhores jogadores do mundo.
O perfil certo para o treinador do Real Madrid pode variar muito, mas a capacidade de se impor pelo estatuto, mais do que pela força, e a maleabilidade tática para enquadrar os jogadores o melhor possível, são uma obrigatoriedade. Foi com isso que Xabi Alonso lutou e é a isso que Álvaro Arbeloa se está a agarrar.
De Xabi a Arbeloa: o que mudou?


Não é propriamente incomum ver o Real Madrid apostar na prata da casa para o lugar de treinador. Foi assim com Xabi Alonso e foi assim, até de forma mais vincada, com Álvaro Arbeloa.
Depois de dois anos no Bayer Leverkusen, onde conseguiu quebrar a hegemonia do Bayern Munique, Xabi Alonso estava pronto para dar o salto para um dos tubarões europeus. Arrancou o percurso no Mundial de Clubes 2025, foi conseguindo resultados equilibrados ao longo da temporada, mas cedo se percebeu que a corda não conseguia esticar muito tempo sem rebentar.
A nova versão dos Galácticos tem Kylian Mbappé e Vinícius Júnior como grandes estrelas, mas também jogadores com a especificidade de Rodrygo ou de Jude Bellingham e que precisam de uma certa liberdade para brilhar. Com tantos egos, tantas camisolas pesadas e tantas restrições no trabalho sujo, quer com bola, quer sem bola, a rigidez de Xabi Alonso no contacto com o grupo acabou por cair para o lado do treinador.


Os métodos de trabalho de Xabi Alonso não eram o problema, o Bayer Leverkusen que o comprove. Mas não encaixavam minimamente numa equipa que teve o seu auge com Carlo Ancelotti a libertar os jogadores de grandes amarras e que sempre viveu muito da capacidade de criar combinações lá na frente. Gonzalo García, um trabalhador e jogador mais posicional no ataque, foi um dos destaques do trabalho do técnico espanhol e não é surpreendente que assim o seja.
De resto, para lá do jogo posicional que Xabi Alonso aprecia, havia problemas claros no momento de transição defensivo, o grande desafio de qualquer treinador do Real Madrid. E é também muito por aqui que é possível ver Álvaro Arbeloa a marcar diferenças face ao seu antecessor.
O discurso de Álvaro Arbeloa mudou e o foco passou para o lado dos jogadores, recompensados com folgas e mini-férias quando possíveis depois de um período no qual, garante a imprensa espanhola, se queixaram da rigidez e quantidade exacerbada de trabalho e treino com Xabi Alonso. A diferença começou a procurar ser marcada.


Também quando se olha para o campo e se vê Vinícius Júnior e Kylian Mbappé mais soltos e centralizados na frente, sem obrigações defensivas que não passem por incomodar minimamente os centrais e impedir linhas de passe para os médios, se percebe a mudança. A lesão de Jude Bellingham, indiretamente, também facilitou o trabalho de Álvaro Arbeloa, que manteve Arda Guler como principal organizador e rodeou o turco de Camavinga, Tchouaméni e Valverde, esses sim máquinas de trabalho e de fisicalidade. Foi desta maneira que o equilíbrio surgiu, numa tentativa de favorecer os principais jogadores da equipa e não, como Xabi Alonso pretendeu, moldá-los ao seu sistema e ideias de jogo.
Os desafios de Álvaro Arbeloa são outros. Se Xabi Alonso, apesar de tudo, se podia agarrar ao sucesso na Alemanha, o antigo lateral não tem grande histórico para se agarrar. Conseguir impor-se como aliado no balneário e, simultaneamente, ser capaz de passar uma imagem de segurança e de respeito – evitando cair numa espécie de treinador interino com prazo de validade – é o grande desafio do novo técnico dos merengues.

