«A CAN foi uma experiência muito enriquecedora e não me importava nada de um dia a repetir» – Entrevista Bola na Rede a António Conceição

António Conceição está pronto para voltar à azáfama diária do futebol, aos treinos e ao dia de jogo. Até das assobiadelas dos adeptos já sente falta, confidencia o treinador. A última experiência nos Camarões trouxe à pele as emoções da CAN, a paixão africana pelo futebol e as tensões entre a Federação liderada pelo mítico Samuel Eto’o e as instituições políticas do país. Antes disso, houve uma carreira longa construída entre Portugal e o estrangeiro e passada em revista numa entrevista em exclusivo ao Bola na Rede.

«Chegou a hora de regressarmos e provavelmente isso vai acontecer».

António Conceição
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Bola na Rede: Admitiu recentemente que sente falta do futebol e de treinar. Do que tem mais saudades?

António Conceição: Exatamente disso. Do jogo, do treino, do contacto com o grupo de trabalho, de toda a adrenalina com que nos vamos habituando ao longo de tantos anos de experiência e que, de um momento para o outro, por razões diferentes, não sentimos. Sentimos saudades disso, desse contacto diário com todos esses fatores. Foram muitos anos de contacto com o futebol, seja como trabalhador ou como jogador. É quase como o vício do tabaco. Quando passamos uma semana sem fumar, parece que falta qualquer coisa. Eu não falo por experiência própria porque não fumo, mas porque tenho amigos meus com essa experiência e que me dizem. Faz falta essa parte.

Bola na Rede: Com o avançar dos anos, essa adrenalina não se dissipa?

António Conceição: Não. Faz parte. Não há treinador nenhum que seja indiferente às situações e vivências que temos no dia-a-dia de trabalho e nos jogos, a toda a pressão que é exercida sobre os jogadores e treinadores. Ninguém é indiferente a isso e todos o sentimos de uma ou de outra maneira. Faz parte da nossa vivência como Homens do futebol. Uns controlam melhor que outros e não há ninguém que não sinta a ausência disso.

Bola na Rede: Tem planos para regressar num futuro mais ou menos próximo?

António Conceição: Vou dizer isto com honestidade e humildade. Ainda não regressámos ao trabalho porque tivemos um processo com a Federação de Camarões que se arrastou durante mais de três anos. Por estratégia nossa e do advogado, esperámos pela decisão definitiva do Tribunal Arbitral da Suíça, o TAS, para ter a resolução resolvida a nosso favor. Nesse período, entre a saída da seleção dos Camarões e a decisão do TAS, fomos abordados para regressar ao trabalho, mas definimos que não era apropriado regressar. A decisão foi tomada há um ano e o assunto ficou resolvido. De lá para cá, o que tem aparecido não é o que desejaríamos para a carreira profissional e temos temporizado. A verdade é que o tempo vai passando e faz-nos falta a vivência do treino, do trabalho, o cheiro da relva, a convivência com os jogadores, as assobiadelas e o apoio dos adeptos. Tudo isso nos faz falta. Chegou a hora de regressarmos e provavelmente isso vai acontecer.

Bola na Rede: Entre clubes nacionais, clubes estrangeiros e seleções, tem preferência?

António Conceição: Equacionamos tudo. Nesse espaço de tempo acabei por ser abordado para regressar a África e por outras seleções africanas. Pelas razões que já apontei, não regressámos enquanto o processo em tribunal não fosse resolvido e recusámos voltar a trabalhar. Já tive também clubes fora do país e projetos que achei que não deveria assumir. São países complicados e acho que para trabalhar é preciso a nossa estabilidade. A nossa e a da família.

Bola na Rede: O que é preciso para um projeto ser um bom projeto?

António Conceição: Sobretudo estabilidade e condições de trabalho, condições em termos de budget para termos um bom lote de jogadores. O nosso trabalho também vive muito da qualidade dos jogadores e não só da nossa capacidade e trabalho. Esse fator também pesa muito nas possibilidades que os clubes têm, ou não, para dar aos treinadores. Se tivermos de ir trabalhar para fora do país, temos de poder estar tranquilos e com estabilidade familiar. Tudo isso permite desempenharmos as nossas funções com sucesso.

«Na minha equipa técnica há democracia e todos os treinadores têm a possibilidade de expressar as suas ideias».

António Conceição
António Conceição
Fonte: Arquivo Pessoal António Conceição

Bola na Rede: Fala sempre em nós e em nome de uma equipa técnica. Qual o peso que a equipa técnica tem para o treinador principal?

António Conceição: Quando eu e todos os treinadores principais construímos uma equipa técnica é baseado na competência e na lealdade. Depois, vão-se criando laços de amizade. Foi isso que criei na minha equipa técnica. Tenho dois elementos que trabalham comigo há 20 ou mais anos. Pontualmente mudámos um ou outro, porque entendem que devem seguir o seu caminho, como o António da Silva que seguiu o seu trajeto sozinho. Foi um elemento por quem optámos quando fomos para os Camarões. Na vinda, decidiu que estava na hora de começar o caminho sozinho e tem todo o direito para o fazer. Fundamentalmente, as nossas escolhas são feitas na base da competência e lealdade e com gente que saiba sofrer e ter sucesso. As equipas técnicas passam por tudo e temos de ser equilibrados.

Bola na Rede: Na construção de uma ideia de jogo, qual o espaço para o confronto e para o alinhamento de ideias e como é procurado o equilíbrio?

António Conceição: Quando chegamos a um clube, analisamos o plantel ao nosso dispor, a mística do clube ou da seleção e isso conta para a definição de um projeto de jogo. A partir daí, está aberto o diálogo e a discussão entre todos os elementos do staff técnico. Toda a gente tem o direito a opinar, toda a gente tem o direito a expressar as suas ideias. Depois a decisão cabe ao treinador principal. Na minha equipa técnica há democracia e todos os treinadores têm a possibilidade de expressar as suas ideias. Quando projetamos os momentos de trabalho e as sessões de treino, fazemos reuniões atempadas para definir as fases do treino. Todos os treinadores têm o seu momento de ação no treino e o seu cunho, sentirem-se importante num desempenho coletivo. Isso para mim é primordial. Quero que todos sintam que participem e se sintam importantes no trabalho. Quando há sucesso, este é dividido por todos. Aparece sempre a figura do treinador principal, mas há um conjunto de pessoas nas suas costas com muita participação e responsabilidade neste momento.

Bola na Rede: A discussão já é antiga, mas ressurgiu nas últimas semanas, sobre a distinção entre coach e manager. Como se definiria nestes dois parâmetros.

António Conceição: Já fiz um bocadinho de tudo. Já fui só treinador porque hoje em dia nos clubes o trabalho dos treinadores é mais condicionado ao treino e à preparação de jogo. Noutros países e noutras latitudes, nomeadamente em Inglaterra, o papel de treinador principal é alargado ao de manager. Tem responsabilidades acrescidas atribuídas pela direção para construir um plantel e terá a responsabilidade para contratar os jogadores que entender, de definir o modelo de jogo, princípios de jogo e estratégias. É responsável por todos os departamentos ligados à equipa de futebol e responde por isso. Já tive um pouco de tudo e na seleção dos Camarões estive um pouco assim. O trabalho do selecionador é diferente do que o treinador leva no clube. É treinar, selecionar, visionar, observar. São fatores acrescidos de responsabilidade. Hoje em dia há um fator que facilita a vida do treinador principal ou do manager. As equipas técnicas são muito alargadas e abrangentes. Cada treinador tem competência e, reconhecendo-a, são delegados em todos os seus trabalhos o que alivia e permite ao selecionador focar-se em coisas que são mais importantes, como lidar com as equipas diretivas. O treinador tem uma panóplia de situações na sua vida diária que lhe permitem estar concentrado em muitas coisas e é bom delegar nos outros treinadores, para se concentrar no essencial. A comunicação é muito importante.

Bola na Rede: O que estes três anos de pausa permitiram no aprofundamento de uma ideia de jogo?

António Conceição: A minha dedicação ao futebol passou por outras coisas. Fiz ações de formação, estive nos Congressos da Associação Nacional de Treinadores realizados em março, fiz algumas viagens fora para ver jogos de outros campeonatos. Vou em breve ao Cairo para falar de novos conceitos no futebol. Estes contactos permitem-me estar no ativo e falar com pessoas com ideias diferentes. O futebol evoluiu em vários sentidos e hoje assistimos a coisas diferentes do que há dez anos. O guarda-redes é o primeiro construtor da equipa, os defesas também são obrigados a construir bem e não só a defender. Há variantes que permitem dizer que o futebol evoluiu. Temos de estar atentos a estes fenómenos que se passam no nosso país, mas também lá fora. Hoje em dia há mais facilidades, com plataformas e televisões que transmitem jogos de outros países e campeonatos. Não me desliguei completamente do futebol, apesar de dedicar mais tempo à família. Estive sempre atento e em contacto com o mundo do futebol. Ouvir e ver às vezes é o melhor remédio. Fazer uma pausa, ouvir outras pessoas e conhecer outras formas de ver o jogo é o melhor fator para perceber a evolução do futebol.

«Só quem vive aquela experiência do dia-a-dia com o povo africano, com os adeptos e com o estádio cheio é que entende».

António Conceição
António Conceição
Fonte: Federação Camaronesa de Futebol

Bola na Rede: Recuava até ao trabalho ao leme da seleção de Camarões. Como viveu esse trajeto num continente como o africano?

António Conceição: Foi um prazer enorme e um crescimento enorme enquanto profissional de futebol ter vivido esta experiência numa das maiores seleções do continente africano. Esta experiência foi maravilhosa e sinto um bocadinho de saudades. Acompanhei agora o CAN em Marrocos e deu-me um bocadinho de nostalgia e de recordações do CAN [2021] que fizemos nos Camarões. A experiência vivida diariamente com o povo africano. Os jogadores vêm da Europa para o continente africano e são diferentes de como os vemos. Para eles, é um ponto de referência chegar à seleção e um orgulho e patriotismo enormes. Representar as suas seleções no CAN ou numa fase de apuramento para o Mundial é a exaltação de todo o seu poder competitivo, do seu querer, da sua força física. Nos três anos nos Camarões fizemos a qualificação para o CAN, apesar de sermos o país organizador e de já estarmos apurados, fizemos a qualificação para o Mundial e vencemos o grupo de qualificação. Foi uma experiência muito rica em termos profissionais. A ligação que conseguimos ter com os jogadores da nossa seleção foi muito gratificante. Em termos de resultados as coisas correram muito bem. Conseguimos uma medalha de bronze, fomos até à meia-final contra o Egito de Carlos Queiróz. A nossa vontade e ambição era chegar à final, mas não fomos felizes nem competentes na marcação das grandes penalidades. Fomos eliminados nesse pormenor, mas tivemos uma participação e uma qualidade de jogo que foi exaltada por muita gente. Um pormenor decidiu quem poderia chegar à final e o Egito foi mais feliz e competente. Foi uma experiência muito enriquecedora e não me importava nada de um dia a repetir. Poderá voltar a acontecer, mais dia menos dia. Só quem vive aquela experiência do dia-a-dia com o povo africano, com os adeptos e com o estádio cheio é que entende. Nós tivemos o CAN no nosso país. É imaginar mais de 20 milhões de pessoas numa pressão diária sobre o grupo de trabalho. É fantástico e temos de ser fortes para podermos reagir aos momentos adversos. Fizemos um excelente trabalho ali e a equipa estava em ascensão. De 58.º lugar no Ranking FIFA conseguimos chegar ao 33.º lugar. Foi um salto substancial que demonstra a evolução da seleção desde que lá tivemos. Depois houve uma mudança na direção, ao nível do presidente, e as coisas tomaram outro rumo. Já são outras coisas.

Bola na Rede: É o envolvimento dos adeptos e o sentimento dos jogadores que torna a competição tão especial?

António Conceição: É a paixão enorme que os africanos têm pelo futebol. Os africanos gostam mesmo de futebol e adoram futebol e as suas seleções. A maior parte dos jogadores joga noutros campeonatos, principalmente europeus e asiáticos, e são recebidos no país como autênticos ídolos. São idolatrados e sentem-no como um orgulho e uma paixão muito grande. Transmite-lhes uma energia diferente. Se não derem tudo o que têm e não tiverem resultados, o inverso também é verdade. Vivem tudo com muita paixão e a coreografia que fazem, as vestes e as pinturas que utilizam, mostram-no. É muito bonito. Não é fácil descrever tudo o que se passa à volta do CAN por palavras. Só visto e registado com os olhos. Estávamos num centro de estágio numa zona muito sossegada, no meio de um bosque, num hotel com um campo e piscina, numa ponta totalmente diferente de onde treinávamos e jogávamos. Tínhamos de atravessar praticamente a cidade toda. Quando saíamos do hotel, numa zona de refúgio onde praticamente ninguém tinha acesso, e nos preparávamos para ir para treino ou para o jogo, vinham os batedores a polícia para abrir o caminho, mas eram milhares de pessoas na rua. Não só nos jogos, nos treinos também. Estavam lá para saudar a equipa nacional. Contagia imenso o comportamento dos jogadores. Para alguns até pode servir como fator de inibição, pelo aparato, mas não foi o caso. Tínhamos alguns jogadores com experiência de seleção, o que ajuda os mais novos a integrarem-se. Foram momentos inesquecíveis os que vivemos nos Camarões. Gostámos muito. Foi pena não chegarmos à final do CAN, mas conseguimos o marco do apuramento para o Mundial, que foi importante para a Federação. É sempre importante que estas seleções marquem presença no Campeonato do Mundo para solidificar o seu futebol e abrir outras portas para a evolução do futebol no país.

Bola na Rede: Qual o grande desafio de treinar jogadores renomeados e referências nos próprios clubes em contexto de seleção?

António Conceição: Tínhamos alguns jogadores referência a jogar em Espanha, Inglaterra, Itália, Alemanha, França ou Bélgica e com carreiras preponderantes. A comunicação tem de ser com lealdade e respeito e eles têm de perceber que o treinador tem de tomar decisões e que só podem jogar 11. Os outros têm de ajudar a equipa a crescer e ser competitivos para ajudar os que jogam mais vezes a trabalhar mais. Têm de perceber que não têm um líder de tangas, mas que toma decisões coerentes e em conformidade com os interesses da equipa. Foi o que fizemos, com uma relação aberta e um espírito de seleção. Foi um dos fatores com que mais nos preocupámos mais. Nós é que chegámos ao país, éramos de cores diferentes e eles tinham de perceber que estávamos do lado deles para fazer crescer a equipa e que eles eram importantes nesse processo. Com a possibilidade de darem opiniões e de trocarmos ideias, eles sentem-se mais à vontade e tivemos uma relação muito boa. Foram três anos, não foram três meses. Fizemos uma reformulação na seleção, trouxemos miúdos que estiveram nas seleções jovens e tinham sido afastados para o espaço de seleção, trouxemos jogadores locais, o que era difícil porque vinham sempre jogadores no estrangeiro. Tínhamos isso como princípio para motivar os jogadores do campeonato interno e mostrar que o selecionador também os seguia. Tivemos sempre esse cuidado. A partir dessa relação, foi tudo muito mais fácil.

«Só conhecia o Aboubakar como jogador e ele nessa altura nem estava muito feliz no FC Porto porque não estava a jogar muito. Disse-lhe que, independentemente de jogar muito ou pouco no FC Porto, contava com ele».

António Conceição
Vincent Aboubakar Camarões
Fonte: Federação Camaronesa de Futebol

Bola na Rede: Treinou na seleção o Andre Onana, um guarda-redes que ficou muito mediático com a passagem de Ruben Amorim pelo Manchester United. Que potencial é que via nele numa altura em que ainda era um jovem?

António Conceição: Ele já era uma referência da seleção. Chegou ao Barcelona com 18 ou 19 anos e depois foi para o Ajax, onde jogava quando o chamámos. Foi dos jogadores com quem tivemos uma relação muito fácil, aberta e respeitosa. Ajudou-nos. Os treinadores arranjam estrategicamente três ou quatro jogadores para funcionar com os outros mais à vontade. Em mais de 20 jogadores, há sempre alguns com uma personalidade mais difícil e mais fechados ao diálogo. Os treinadores procuram sempre alguns jogadores de mais relevância e com esse perfil para nos aproximar de todos os jogadores, para termos um grupo coeso e com a mesma ambição. O Andre foi um dos jogadores que nos ajudou nessa integração com os colegas. Já tinha a filosofia de jogador da Europa. Fez parte da nossa estratégia de conversas individuais. Tivemos muitas conversas individuais com os jogadores, para dizermos o que queríamos, ao que vínhamos, e que precisávamos da ajuda dos jogadores com mais relevo e imagem para termos um grupo fortíssimo. Fizemos uma equipa fortíssima e o Andre Onana ajudou imenso nesse aspeto.

Bola na Rede: Olhando para a outra ponta do relvado, treinou o Vincent Aboubakar, um jogador com passagem pelo FC Porto e ligado a alguns lances geniais. Como se tira mais criatividade dos seus pés?

António Conceição: Quando assumi o cargo de selecionador dos Camarões, o primeiro jogador com quem falei foi o Aboubakar. Estava no FC Porto, liguei-lhe e fui até ao Porto para termos duas ou três reuniões. Pessoalmente não o conhecia, só como jogador e ele nessa altura nem estava muito feliz no FC Porto porque não estava a jogar muito. Disse-lhe que, independentemente de jogar muito ou pouco no FC Porto, contava com ele e ele disse-me: “Mister, quero muito jogar na seleção nacional. Se entende que posso ser útil, estou disponível a 100%”. A partir daí foi muito mais fácil com o Aboubakar. Tive algumas reuniões com ele no Porto e falei muito com ele. Quando nos concentrávamos no espaço de seleção voltava a falar com ele e foi um dos pilares do espírito de grupo. Ajudou-me na tarefa porque disse aos outros jogadores: “O treinador é este tipo de pessoa, quer isto por este caminho e quer sucesso para todos”. Ajudou-nos muito na integração e também se motivou. Sentiu que era uma pessoa importante no seio da equipa e fez um CAN fabuloso. Foi o melhor marcador do torneio e uma referência. Teve sempre comportamentos desportivos muito elevados enquanto estive na seleção e esteve sempre a fazer golos. Reconheci-lhe essa capacidade, embora não estivesse a ser muito utilizado no FC Porto. Tive a possibilidade de o conhecer no campeonato português e a partir daí foi sempre um jogador importante na nossa equipa. Tinha 27 ou 28 anos e sabia tudo do jogo. Embora corrigíssemos alguns posicionamentos ou dinâmicas de jogo com ele integrado na equipa, em finalização, controlo de bola, movimentos, dinâmicas tinha tudo bem expresso.

«Vim para Portugal passar 15 dias de férias para descansar e visitar a família. Passados uns dias, recebi um e-mail a dizer que estava dispensado e nunca mais falei com o Eto’o».

António Conceição
António Conceição Samuel Eto'o
Fonte: Federação Camaronesa de Futebol

Bola na Rede: No percurso nos Camarões convive com o Samuel Eto’o enquanto dirigente. Que peso tem um dos principais jogadores da história do futebol africano e como é feita a gestão da relação com uma figura com este impacto?

António Conceição: O Eto’o é, de facto, uma figura de peso no futebol africano e uma referência nos Camarões. É um ídolo. Quando chega aos Camarões é recebido em apoteose. Cumprimos dois anos de contrato com o anterior presidente da Federação e a pouco tempo do CAN houve eleições. O Eto’o venceu e entrámos em estágio de preparação para o CAN a 26 de dezembro. No dia 27, ele convocou uma reunião para se apresentar, dizer ao que vinha e trocarmos umas impressões. Foi extremamente simpático e correu tudo muito bem. Correu tão bem que se pode dizer: “Quando a esmola é grande até o pobre desconfia”. Fiquei desconfiado de algumas coisas porque não ando no futebol há dois dias. Estava a lidar com uma grande referência do futebol camaronês e com uma pessoa com um grande ego, portanto algumas coisas serviram de alerta, mas a relação foi sempre positiva. Nunca houve qualquer conflito. Terminámos o CAN com o jogo de 3.º/4.º lugar no sábado e tive uma reunião com ele na segunda-feira para preparar o estágio seguinte. Correu muito bem, batemos umas ideias e deixámos muitas coisas já definidas. Vim para Portugal passar 15 dias de férias para descansar e visitar a família. Passados uns dias, recebi um e-mail a dizer que estava dispensado e nunca mais falei com o Eto’o. Nunca houve conflito nem atrito de circunstância. Houve uma decisão do Eto’o, que entendeu que era o momento, numa paragem de três meses, para meter um treinador da sua confiança. Assim aconteceu. Nunca houve atrito. Até hoje estou para perceber qual o motivo da sua decisão, porque tinha tido uma reunião com ele e outra com o Ministro do Desporto que me transmitiu que o Presidente da República e os camaroneses estavam felizes com o comportamento da seleção, que tinha feito bons jogos e só foi eliminada pelo pormenor dos penáltis. Disse-me para descansar para voltar fresco da cabeça para preparar os jogos seguintes. Passados três ou quatro dias, recebi um e-mail da parte do Eto’o a dizer que estava despedido em contraciclo com a decisão do ministro. Eu fui contratado pelo Ministro do Desporto e não pela Federação, embora a Federação tenha sido veiculada. Em África acontece isto. Os Ministros do Desporto têm muita influência nas decisões da Federação porque é o Governo quem mete dinheiro. Assim, o Governo entende que tem de interferir em algumas decisões para que as coisas sejam mais transparentes e funcionais. Na altura fui contactado pelo ministro e pelo Presidente da Federação, com quem trabalhei dois anos antes de perder as eleições para o Eto’o. O Eto’o tomou a decisão contra a vontade do Ministro do Desporto, que até me ligou para dizer que não percebia bem a sua decisão e que ele queria trabalhar com gente da confiança dele e com um treinador africano. Foi o Rigobert Song que me substituiu. Foi uma coisa unilateral. Não houve acordo porque eu nem fui sequer convidado para uma reunião para debater a decisão. Ainda tinha dois anos de contrato. Obviamente que respeitei, cada um toma as decisões que entende, mas não concordei porque não havia motivos para isso. Foi a decisão do presidente e a partir daí o processo desenvolveu-se. Ao fim de três anos, a decisão foi tomada a nosso favor.

Bola na Rede: Quais os principais desafios e dificuldades em trabalhar num contexto em que o meio político e o meio desportivo estão tão interligados?

António Conceição: Para os selecionadores não é fácil. Às vezes não estão assim tão interligados e, no caso dos Camarões, a partir do momento em que o Eto’o entrou que tem havido muitas divergências, quer com o Ministro do Desporto, quer com o selecionador que este escolheu a seguir ao Rigobert Song. Depois de um ano e pouco foi despedido e o Ministério assumiu a decisão de contratar um treinador [Marc Brys] contra a vontade do Eto’o. Há sempre conflito e nunca há consenso nas decisões, o que não é fácil nas decisões. Revejo-me agora no que se passou com o Marc Brys, que teve momentos difíceis. Um treinador tem de ser inteligente e arranjar forma de se manobrar nos conflitos ou de evitar meter-se nos conflitos.

«Não jogar o Mundial é a minha maior mágoa, nem é ter saído».

António Conceição
António Conceição
Fonte: Federação Camaronesa de Futebol

Bola na Rede: Fica alguma mágoa por não ter tido a possibilidade de disputar um Mundial?

António Conceição: Muita mágoa. Essa é a minha maior mágoa, nem é ter saído. Trabalhámos muito nos anos que lá estivemos porque sabíamos do CAN e da fase de qualificação para o Mundial. Trabalhámos muito para garantir a qualificação para o Mundial do Catar e para chegar à final do CAN. Conseguimos um objetivo e o outro ficou perto de ser atingido. Foi a maior frustração para além de não termos chegado à final do CAN pelos pormenores dos penáltis. São pormenores em que o treinador não tem assim tanta influência. Posso dizer que treinávamos todos os dias porque sabíamos que estávamos numa fase final e que poderia haver penáltis. Em todas as sessões de treino treinávamos penáltis com todos os jogadores, os mais aptos e os menos habituados. Não foi falta de treino ou de concentração, são os pormenores, a ansiedade, o momento em si. Estava o estádio cheio e isso pode ser um fator que inibe os jogadores. A grande desilusão que tenho, porque trabalhámos muito para isso, foi não termos estado na fase final do Campeonato do Mundo. Tínhamos esse mérito de lá ter estado, mas as coisas não se concretizaram por aí. O meu azedume não é relativamente à decisão do Eto’o, mas mais ao Mundial.

Bola na Rede: Ainda tem o sonho de disputar a fase final de um Mundial na carreira?

António Conceição: Não é questão de sonho. Eu gostaria e se tiver essa possibilidade de regressar a África para treinar uma seleção, com o alargar da qualificação e com todos os primeiros classificados diretamente classificados, há mais possibilidades. No meu tempo só se apuravam alguns primeiros depois do playoff. O segundo ficava logo afastado, como era o caso da Costa do Marfim, que ficou atrás de nós e não foi ao Campeonato do Mundo. Há essa possibilidade mais alargada de equipas africanas poderem ir às fases finais. Se tiver a oportunidade de voltar ao continente africano para treinar uma seleção, gostaria que isso acontecesse e lutarei por isso. Depende de muitos fatores e da seleção que fôssemos treinar. Estou sempre disponível para grandes desafios, uns consegui e outros não.

«Estou convicto que Marrocos, Portugal e Espanha vão organizar um Mundial a roçar a perfeição».  

António Conceição
António Conceição
Fonte: Federação Camaronesa de Futebol

António Conceição: Já confessou que acompanhou esta última edição da CAN. Que seleções aponta como as principais no contexto africano atual?

António Conceição: Nos comentários que fiz quando fui à televisão comentar alguns jogos, e não vou ser incoerente porque não ganharam o CAN, disse que era Marrocos. Considero a seleção mais perto de um perfil de equipa europeia. Já tem princípios de jogo coletivo muito próximos das equipas europeias e estão a começar a emergir jogadores de grande qualidade. Marrocos foi à meia-final no último Campeonato do Mundo e teve um comportamento fantástico, Portugal que o diga. No CAN, estranhamente para mim, estiveram aquém do que poderiam fazer na final. Muito mérito ao Senegal, mas houve um complexo de inibição de alguns jogadores de Marrocos e estrategicamente também jogaram de forma diferente. Era uma equipa que pressionava logo à saída da área adversária e não o fez com Senegal. Jogaram num bloco mais médio-baixo. Não sei se transmitiu aos jogadores algum medo ou receio. Independentemente da final, ao longo do torneio foi uma das equipas que melhor jogou. Estava a jogar no seu país e estavam fortemente motivados pelos seus adeptos, mas é de qualquer forma uma das boas seleções africanas. Há outras jovens e a crescer, como o Senegal. Já ganhou um estatuto a nível africano, mas também de fora. A Costa do Marfim também por exemplo. As seleções médias estão a emergir e a trabalhar melhor, a fazer um melhor aproveitamento dos jogadores com dupla nacionalidade, como Cabo Verde, Moçambique ou Angola. O CAN tem um mediatismo maior que há dez anos e isso motiva os países a planear de outra maneira, a construir melhores plantéis e a dotar os treinadores de outros recursos. Tudo isso ajuda no crescimento. Reconheço muita capacidade aos atletas africanos, falta algo mais para poderem ser mais fortes. Fisicamente são extraordinários. No espaço de seleção, às vezes perdem o critério e o rigor de serem equipas compactas e coesas, mas já se está a diluir no tempo. As equipas estão mais focadas na estratégia do treinador, o que ajuda ao desenvolvimento.

Bola na Rede: E se tivesse de escolher destaques individuais do torneio?

António Conceição: Isso é difícil. Vi quase os jogos todos e é difícil lembrar-me assim de repente. Recordo-me do Amad Diallo, da Costa do Marfim que joga no Manchester United. É um jogador fantástico. O Kofane dos Camarões [e RB Leipzig] também tem 19 anos e vai fazer uma carreira extraordinária. Há mais nomes, mas tinha de recorrer à minha cábula. Há jogadores a emergir nas suas seleções e que serão falados em pouco tempo.

Bola na Rede: De que forma é que o caos e as polémicas na final da CAN podem afetar a visão sobre o futebol africano e a CAN?

António Conceição: De facto, o que se viu não é bonito. Uma seleção querer abandonar o terreno de jogo por um erro do árbitro não foi bonito. Ainda bem que pairou o bom senso num jogador que tem um comportamento e civismo acima da média, como é o caso do Sadio Mané. Fez com que os jogadores e responsáveis do corpo técnico e diretivo refletissem e ainda bem que os conseguiu demover para acabar o jogo. Não foi uma boa imagem para o futebol de África, mas isso não é a realidade do futebol africano. Foi um caso que aconteceu e não deveria ter acontecido, mas segundo sei vão ser altamente penalizados com suspensões e multas elevadas. Não é um caso rotineiro no futebol africano. Nesse aspeto, acho que as organizações de jogos e as arbitragens têm dado passos de melhoria, embora lentos. Há boas equipas e bons jogadores. A organização às vezes falha um bocadinho, mas está a melhorar bastante, as arbitragens falhavam um bocadinho, mas estão mais capacitadas. É sinónimo de que o futebol africano quer dar um passo gigante. Os responsáveis pelos vários departamentos da CAF e FIFA têm de ter isso em conta e fazer operações de sensibilização junto das pessoas para que esse seja o caminho e não o da final em Marrocos.

Bola na Rede: Falou em organizações mais capazes. Pensando que em 2030 vai haver um Mundial conjunto entre Portugal, Espanha e Marrocos, considera haver as capacidades organizativas para o torneio, numa data simbólica, marcar a história dos Mundiais?

António Conceição: Penso que sim. Acompanhei de perto o CAN em Marrocos e inclusive estive perto de me deslocar lá, mas foi numa época difícil por causa do Natal e da Passagem de Ano. Gostamos de estar com os familiares e foi complicado, porque já basta não podermos estar com os familiares nessas alturas. Fiz algumas leituras e todos focavam a organização do torneio, as boas condições dos treinos e dos estádios, as boas estradas para as equipas se deslocarem, aeroportos onde os passageiros fluíam bem. Se Marrocos atingiu este nível na prova africana, ainda têm tempo até 2030 para melhorar coisas que, no entender deles, não correram tão bem. Estou convicto que Marrocos, Portugal e Espanha vão organizar um Mundial a roçar a perfeição.

«Na Arábia Saudita senti uma diferença muito grande entre os meus pensamentos como profissional de futebol e o dos jogadores ricos, que já tinham bastante dinheiro e levavam aquilo como um hobby».

António Conceição
António Conceição
Fonte: Arquivo Pessoal António Conceição

Bola na Rede: Voltando a olhar para a sua carreira e para as passagens lá fora, teve uma aventura no Chipre [2016/17]. É um país que tem atraído alguns portugueses nos últimos anos. Que memórias guarda desse tempo?

António Conceição: Já foi há uns anos. Vou explicar porque é que aceitei esse convite. Foi pelo mês de março, com as épocas a chegar ao fim, que tive a abordagem de um dirigente do Nea Salamis. Estava em Portugal para ver um jogador ou outro e para tentar contratar um treinador português. Ligaram-me e fizeram-me chegar a essa pessoa. Aceitei tomar um café sem qualquer tipo de compromisso e falar com o diretor desportivo desse clube. Sinceramente, não estava muito disponível para ir para esse projeto, mas falei com os meus colegas e ficámos com curiosidade para conhecer esse campeonato. Fomos tentar ajudar a equipa, que estava com problemas e risco de descida, e ao mesmo tempo conhecer essa realidade. Na altura estava na moda e iam muitos jogadores e treinadores, principalmente espanhóis e alemães, para o Chipre. Disse: “Vamos aproveitar, também são só três meses e vamos viver uma experiência nova. Se gostarmos ficamos, se não vamos à nossa vida”. Fizemos o nosso trabalho, correu tudo bem, mas no final da época viemos embora. Decidimos que não íamos ficar. Por razões que não vou especificar, mas não me agradaram. Como sou um profissional sério e honesto, houve coisas de que não gostei e por isso decidimos ir embora. Posso dizer que há coisa de dois anos me sondaram para ir para o Chipre e não aceitei.

Bola na Rede: Quais as principais características do futebol cipriota?

António Conceição: Eles fazem investimentos grandes para trazer jogadores e treinadores de outros campeonatos e outros países. É um país agradável e com boas condições para se viver. Reporto-me à altura em que lá estive em que, tirando uma ou outra equipa, ainda se trabalhava de forma pouco profissional. Isso não me agradou e decidi não ir. Tive colegas meus que trabalharam noutros clubes e não dizem o mesmo. Lá está, cada um tem uma realidade diferente e a minha era aquela. Tive conhecimento por outros colegas que lá estavam que também havia clubes com uma realidade próxima à que experienciei. Não valia a pena continuar, seguimos a nossa vida e regressámos a Portugal.

Bola na Rede: Passou pela Arábia Saudita antes dos milhões [2014/15]. Como era a realidade do futebol saudita na altura?

António Conceição: Um bocadinho como é agora. Havia três ou quatro equipas boas das principais cidades, com investimento em bons jogadores. Na altura só se podiam meter três estrangeiros e um asiático e essas equipas iam buscar os melhores. Eu trabalhei num clube médio [Al Faisaly] que ainda por cima ficava longe do centro. Convidaram-me para projetar a equipa para a época seguinte, porque o campeonato estava feito e não desciam de divisão. A ideia era planear a equipa para o ano seguinte. Eu fui e não me adaptei nem gostei. Senti uma diferença muito grande entre os meus pensamentos como profissional de futebol e o dos jogadores ricos, que já tinham bastante dinheiro e levavam aquilo como um hobby. Para eles era como quando nós vamos ali segunda-feira jogar com os amigos. Não me adaptei. Fui com um contrato de três meses mais um ano e depois dos três meses pedi ao presidente para me libertar do resto do contrato e vim embora. Ficou um pouco relutante no início, mas depois compreendeu que não era bom para ele ter lá uma pessoa contrariada. Acabei por regressar a Portugal. Não gostei mesmo da experiência. Agora as coisas estão diferentes e já fui abordado por um ou dois projetos para regressar, mas recusei logo. Fiquei com uma ideia muito difícil. Até ao momento não regressei lá e não faço planos. É um país que não me seduz. Respeito todos os que querem ir e digam bem, mas a minha experiência não foi boa. Estou um bocado relutante em regressar à Arábia.

«Adivinhava-se uma carreira muito próspera e grande para o Guardiola porque via-se que estava ali um grande treinador de conhecimento tático, de treino e de liderança também».

António Conceição
António Conceição
Fonte: Arquivo Pessoal António Conceição

Bola na Rede: O futebol romeno deve estar no outro lado da balança, porque foram várias experiências diferentes em clubes diferentes. De onde vem a relação forte com o futebol romeno?

António Conceição: Vem desde 2009, quando vários jogadores começaram a ir para lá. As pessoas do Cluj vinham para Portugal estabelecer contactos com muita gente e na altura falaram comigo. Convidaram-me para ir ao centenário do clube, que até foi lá o Benfica fazer um amigável, mas eu acabei por não ir. Não tinha disponibilidade e não fui. Passado um ou dois anos, tinha saído a meio da época de um clube em Portugal [Trofense] e fui fazer um estágio no Barcelona com o Guardiola. Consegui maneira de estar duas semanas com ele e no fim, recebi novamente um telefonema a convidarem-me para ir à Roménia ver um jogo e falar com as pessoas. Já pensavam na época seguinte. Cheguei com uma mala para três dias e acabei por ficar lá três meses. Despediram o treinador e convidaram-me para ficar até ao final da época e acabei por ficar lá mais dois anos. Foi aí que se iniciou o meu trajeto com muito gosto e ainda hoje tenho lá muita gente amiga. Há sempre uma porta aberta para regressar e é um país pelo qual nutro uma grande simpatia porque fui feliz. É a diferença. Quando as coisas correm bem e nos sentimos bem, ficamos com uma ideia positiva da coisa e há sempre vontade para regressar. Conseguimos títulos, um campeonato, três taças, fomos às provas europeias e foram tempos bem conseguidos na Roménia. Gostei muito e faz parte do meu trajeto como treinador. Agradeço a quem me abriu as portas e desde lá para cá que continuaram abertas para um regresso.

Bola na Rede: Falou no estágio no Barcelona com o Pep Guardiola. Como foram as vivências com um dos principais treinadores do século?

António Conceição: Foi fantástico. Na altura, estávamos no apogeu do Guardiola. Adivinhava-se que ia ter uma carreira fantástica, como viria a ter. Tinha um grupo fantástico com o Thierry Henry, o Messi, o Eto’o, o Ibrahimovic. Era uma equipa de craques. Assistir ao trabalho diário e aos jogos, ver a dinâmica, forma de trabalhar e liderança do Guardiola… Quem percebe minimamente de futebol e das dinâmicas de balneário percebe ali nas entrelinhas as coisas. Foi um gosto e um prazer ter tido essa oportunidade. São registos que ficam. Nós não treinamos o Barcelona, trabalhamos em equipas mais pequenas, mas aprendemos muito com isso.

Bola na Rede: Pelos métodos de treino já via nele potencial para ser revolucionário no futebol?

António Conceição: Sim. Tinha uma dinâmica de treinos muito intensos. Não eram muito alongados no tempo, mas eram muito intensos. Eram treinos rápidos, intensos, com muito passe e qualidade na receção. Falamos de jogadores de alto nível. Isso reflete-se no jogo. Diz-me como treinas e digo-te como jogas. Ao vermos a equipa a treinar percebíamos porque é que faziam aquilo nos jogos. O jogo era o reflexo do que faziam no treino. Adivinhava-se uma carreira muito próspera e grande para o Guardiola porque via-se que estava ali um grande treinador de conhecimento tático, de treino e de liderança também.

«Dizemos que os clubes não se trocam e eu nunca o troquei até hoje. É sempre o Braga».

António Conceição
António Conceição
Fonte: Arquivo Pessoal António Conceição

Bola na Rede: Olhando para o seu percurso em Portugal, desafiava-o a escolher o projeto em que mais se sentiu valorizado e em que mais objetivos foram alcançados.

António Conceição: Tive bons desafios em Portugal, uns correram bem e outros não correram tão bem. Houve dois clubes históricos em que as coisas comigo e com outros treinadores que depois passaram não correram bem. Quando não há estabilidade é mais difícil, mas é pena porque são dois clubes históricos como o Vitória de Setúbal [2006/07] e o Belenenses [2009/10]. As coisas não correram tão bem como pretendíamos. Em ambos os casos entrei com a época em andamento e foi muito difícil. Com muita pena minha, porque são clubes que respeito imenso, mas já se adivinhava que as dificuldades seriam muitas se não houvesse uma mudança de rumo. Acabou por acontecer e os dois clubes desceram quase ao inferno. Do ponto de vista do sucesso, tive dois clubes onde tive muito gosto e onde me senti com uma grande quota de responsabilidade no que aconteceu. Os presidentes acreditaram muito nas nossas competências e deram-nos grande liberdade para agir. Falo do Estrela da Amadora [2004-06] e do Trofense [2007/08]. Fui para o Estrela no ano em que desceram à Segunda Liga. O presidente convidou-me e disse que só havia um caminho, o da subida de divisão, porque estavam a chegar ao inferno e precisavam de receitas. Acabámos por atingir o objetivo da subida com muita dificuldade. Foram épocas difíceis ao nível financeiro e do cumprimento de salários, mas quando temos um grupo de trabalho unido, coeso e que percebe a razão das coisas, conseguimos ultrapassar as dificuldades. Tive quatro ou cinco jogadores que me ajudaram a agarrar no grupo de trabalho para ultrapassar as dificuldades financeiras e os salários em atraso. Na primeira época subimos à Primeira Liga e no segundo ano fizemos um trabalho fantástico e ficámos em nono lugar. Foi um campeonato tranquilíssimo, apesar dos problemas financeiros e dos salários em atraso. O presidente tentou sempre ajudar, o grupo era fantástico e foram dois anos que me marcaram não só pelos objetivos desportivos e resultados, mas pelo próprio grupo. A situação do Trofense era diferente. No ano anterior esteve perto de descer à 3.ª Divisão, tinha um projeto de três anos para subir à Primeira Liga, mas disse-lhe que não ia. Ao fim de um ano, se as coisas não acontecessem, não seria mais o treinador do Trofense. Não há esse tempo para os treinadores, não há três anos. Ou me dava as condições para subir ou não ia. Andámos assim durante um mês até as coisas se concretizarem. Fui para a Trofa, o presidente deu-me as condições e liberdade para escolher jogadores e subimos de divisão como campeões. Correu tudo bem num clube fantástico. Foram clubes que me marcaram pelos resultados positivos, mas sobretudo pelos grupos que trabalhámos, que souberam sofrer e saber ganhar. Temos uma relação que perdura no tempo com os jogadores. Para lá das conquistas, há uma relação de amizade que se prolonga no tempo se a relação for forte. Além dessas duas subidas, tivemos uma terceira com o Moreirense [2013/14], mas essa foi diferente, porque já entrei nos últimos 10 jogos do campeonato. Acabámos também por ser campeões nacionais, numa altura em que estava a ser difícil ganhar jogos em casa e com os adversários a aproximar-se, mas foi diferente. Não foi um trabalho alicerçado no início da época, os outros sim.

Bola na Rede: Misturando a carreira como treinador e futebolista, qual o espaço que o Braga ocupa no seu coração?

António Conceição: [risos] O João Pinto dizia que o coração era azul e branco, não era? O meu posso dizer que é vermelho porque as cores do Braga são vermelhas. Tem uma representação muito grande na minha vida, não só como homem, mas como profissional. Foi aí que iniciei a minha carreira como jogador com 13 anos, que se prolongou para o futebol profissional. Tive depois a oportunidade de ir para um clube grande, o FC Porto. Depois, foi o Braga que me abriu portas para começar a minha carreira como treinador da formação. Estive cerca de 12 anos na formação, acumulando funções com adjunto da equipa principal de treinadores como o Manuel Cajuda, o Carlos Santos, o Vítor Oliveira ou o Jesualdo Ferreira. Cresci como pessoa ou homem. Em termos da essência do desporto, o Braga preenche muito do meu sentimento. Dizemos que os clubes não se trocam e eu nunca o troquei até hoje. É sempre o Braga, toda a gente o sabe. Vale o que vale em termos profissionais, mas em sentimentos é outra coisa.

Bola na Rede: Pensando ainda em termos profissionais, garantiu recentemente que preferia treinar o Braga do que um dos três grandes. Ainda tem esse sonho e sente que é possível?

António Conceição: Não. Na atual conjuntura é muito difícil. Não quero entrar em pormenores porque não quero dizer coisas que não são eticamente corretas. Que é um desejo e um sentimento, é inegável. Acho que esse timing já passou e na minha cabeça já não existe esse pensamento. Vou ao estádio como adepto e sócio, vejo muitos jogos e às vezes até jogos fora, mas só como adepto.

«O FC Porto não tem a academia que o Braga tem neste momento».

António Conceição
António Conceição
Fonte: Arquivo Pessoal António Conceição

Bola na Rede: Apelando a esse lado emocional, como tem visto o caminho de crescimento do Braga?

António Conceição: A distância está mais relacionada com o historial e o número de adeptos. Temos de ser honestos e de reconhecer que o Braga não tem o historial de Benfica, Sporting e FC Porto. Os títulos estão distribuídos entre esses três clubes e em termos de adeptos superam largamente o número do Braga. Ainda assim, o Braga deu um salto quantitativo relativamente ao nível de adeptos e qualitativo ao nível de estruturas. Aí o Braga está num patamar muito próximo aos três grandes. Diria que em condições supera um ou outro adversário. O FC Porto não tem a academia que o Braga tem neste momento, com todas as condições. O Braga, sob a gestão do atual presidente, deu um salto. Há 15 ou 20 anos, poucas pessoas imaginariam que lá pudesse chegar. Para acompanhar isto, falta a essência que os clubes procuram: a conquista de títulos. Faltam campeonatos, mais presenças na Liga dos Campeões e chegar a fases mais adiantadas da Liga Europa. Tudo isso da parte desportiva marca também o crescimento de um clube. É verdade e inquestionável que o Braga deu um salto qualitativo em relação a muitos outros clubes. Aproximou-se dos três grandes e distanciou-se dos restantes. Vamos ver qual o próximo passo do clube em relação ao projeto desportivo porque o resto está à vista de toda a gente. Em termos de dimensão estrutural e de formação há um grande crescimento. O Braga tem mais jogadores nas seleções jovens e vende miúdos com 17 e 18 anos. Há que perceber qual a melhor política para o Braga e se estamos num bom caminho ou não.

Bola na Rede: Destacou a importância das boas campanhas na Europa. Esta temporada o Braga termina a Europa League no top-8 e já está apurado para os oitavos de final. Como vê a jornada europeia nesta época?

António Conceição: Uma campanha de sucesso. Temos de ser rigorosos e justos. Nestas competições europeias, com muita surpresa minha, há equipas com segundas linhas e sem cinco ou seis titulares. Com certeza estão mais virados para os campeonatos internos. Obviamente que isso muda um bocadinho a realidade e o nível competitivo, mas não tira o brilho ao FC Porto e ao Braga que fizeram o seu trabalho e fizeram-no bem. A afirmação nas competições europeias é um sinal de evolução e sustentabilidade económica. Andar neste tipo de competições dá receitas e isso faz crescer os clubes e dá-lhes outra dimensão para pensar de outra maneira.

Bola na Rede: Já falámos do impacto do Pep Guardiola noutros treinadores e o treinador do Braga, o Carlos Vicens, é um discípulo do catalão. Como vê o impacto do treinador da equipa e a forma de jogar do Braga?

António Conceição: Tem uma matriz clara e assente num dos pontos de jogo do Guardiola: controlar o adversário em posse. O Braga controla grande parte dos adversários pela posse de bola em Portugal e nas competições europeias também. Depois, temos de nos questionar se é uma posse de bola com objetividade ou só para controlar o espaço e a bola. Objetividade é fazer o golo e ganhar. É isso que às vezes temos de questionar se é ou não conseguido. O Braga tem uma ideia de jogo que o treinador apresentou desde que chegou. O treinador vendeu a ideia de jogo aos jogadores, houve uma fase em que custou assimilar, mas a equipa assimilou a ideia de jogo que o treinador quis apresentar. Vê-se que o Braga controla os espaços, controla a bola, mas falta mais pragmatismo. É o que vejo como Homem do futebol. Não é uma crítica, com certeza mais colegas meus o analisam. É uma ideia do treinador e ele não abdica dela. Acredita nela e que é com ela que vai trazer resultados para a equipa e há que respeitar.

Bola na Rede: Se tivesse de escolher o seu jogador favorito do Braga, quem seria?

António Conceição: É difícil. O Braga tem jogadores preponderantes. Começando por trás, o guarda-redes [Lukas Hornicek]. Contra o Tondela, sete minutos para o jogo acabar, agarrou o penálti aos 90 minutos e o Braga a seguir ganha o jogo. Contra o Nottingham Forest, 0-0, agarra um penálti e na jogada seguinte o Braga faz golo. Preponderante. É um dos jogadores com mais valor no plantel do Braga. O Zalazar, o Ricardo Horta, sempre importante, o Moutinho pelo equilíbrio que dá à equipa e porque não sabe jogar mal. É muito inteligente a jogar e é um jogador que qualquer treinador gosta de ter para dar equilíbrio à equipa. Há vários jogadores com preponderância no Braga e que são determinantes. Se recuarmos no tempo, houve uma fase em que o Horta esteve afastado da equipa e o Braga teve dificuldade em ganhar os jogos. Pelo tipo de jogo do Braga, jogar entrelinhas e em espaços curtos, é preponderante.

«Não consegui o objetivo de ter tido mais utilização e sido referência no FC Porto e tive de acabar a carreira».

António Conceição
Vizela António Conceição
Fonte: Arquivo Pessoal António Conceição

Bola na Rede: Para concluir e, recuando um pouco mais no tempo, a sua carreira de futebolista é influenciada por lesões quando chega ao FC Porto. Qual o impacto destas na sua carreira?

António Conceição: Quando cheguei ao FC Porto tinha 26 anos. Já tinha jogado por empréstimo no Vizela, que foi um clube que também me marcou muito e a quem tenho de prestar uma homenagem. Também tenho duas subidas de divisão com o Vizela e é um clube que me marcou muito. Acabei por regressar novamente a Braga e depois fui para o FC Porto. Foi o impacto mais negativo que tive na minha carreira. Quando assinei pelo FC Porto, nunca tinha tido qualquer lesão, e fiz logo uma rotura de ligamentos no joelho. Tive oito ou nove meses para recuperar, mas depois acabei por fraturar o perónio. Passei muito tempo na enfermaria e depois disso ainda tive uma fratura da tíbia. Tive das piores lesões que podia ter e impediu que tivesse outro tipo de utilização no FC Porto. É a minha grande mágoa. Fez com que acabasse a carreira muito cedo, aos 29 anos. Ainda podia ter jogado mais cinco ou seis anos. Tomei a decisão porque fiquei saturado das lesões e das operações. Decidi terminar a carreira como jogador e comecei logo a carreira de treinador aos 30 anos no Braga. Não consegui o objetivo de ter tido mais utilização e sido referência no FC Porto e tive de acabar a carreira e de repensar no que fazer a seguir. Já tinha dois cursos de treinador, que tinha tirado antecipadamente, e comecei essa carreira na formação do Braga.

Bola na Rede: Qual o balanço da carreira como futebolista?

António Conceição: É positivo, mas podia ter sido melhor. Acabei por ser campeão nacional da 3.ª Divisão, vice-campeão da 2.ª e campeão nacional da 1.ª pelo FC Porto. Podia ter sido melhor, mas não sou pessoa de me agarrar às fatalidades. Gostaria que tivesse sido melhor até para ter um currículo como jogador mais fortalecido para chegar a treinador com outro impacto, mas as lesões impediram que isso acontecesse. Cheguei ao FC Porto e à seleção nacional, foram momentos importantes e de grande felicidade. Podia ter sido melhor, mas a fatalidade das lesões impediu-o de acontecer.

Bola na Rede: O que trouxe da carreira de futebolista para a carreira de treinador?

António Conceição: Sobretudo a aprendizagem enquanto jogador com os treinadores que tive na carreira. Fizeram-me pensar e algumas atitudes deles foram exemplo para atitudes que tomei no futuro. Ajudou-me a crescer e cheguei a treinador com vivências que depois se repetiram. Obrigou-me a tomar decisões mais acertadas porque a vivência que temos como jogadores de futebol com vários treinadores, dá um know-how que falta a alguns treinadores que vieram das universidades. Falta-lhes a vivência de balneário e enquanto jogadores de futebol. Não quer dizer que sejam maus treinadores, mas essa vivência é muito útil.

Bola na Rede: Como treinador, gostava de treinar um jogador como foi enquanto futebolista?

António Conceição: Mal de mim se não tivesse treinado melhores. Estava lixado que não tinha atingido alguns objetivos [risos]. Já treinei jogadores com outros perfis, até melhores que o meu. Como jogador, via-me como um profissional sério, que dá tudo no jogo e no treino. Era respeitador e entendia as mensagens do treinador. Não falo das capacidades técnico-táticas, mas do modelo de jogo importante para o treinador. Sempre gostei destes jogadores profissionais, leais e que dão tudo em campo. A entidade profissional paga-lhes exatamente para serem profissionais na sua ascensão da palavra.

Diogo Ribeiro
Diogo Ribeirohttp://www.bolanarede.pt
O Diogo tem formação em Ciências da Comunicação, Jornalismo e 4-4-2 losango. Acredita que nem tudo gira à volta do futebol, mas que o mundo fica muito mais bonito quando a bola começa a girar.

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