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Bruno “Bammer” Brito é um dos nomes mais conhecidos do circuito de Wrestling em Portugal. Em entrevista ao Bola na Rede, falou-se da sua carreira, das suas referências, o desenvolvimento Wrestling Portugal, da WWE e até da questão Chris Benoit e Hall of Fame.
Bola na RedeComo nasceu a tua paixão pelo wrestling?
Bammer: A maior parte do pessoal lembra-se sempre do dia e do combate. No meu caso, não me lembro ao certo de qual era o combate. Estávamos em 1992 ou 1993, estava a ver a RTP ou a Sky, vi uns gajos a bater uns nos outros e pareceu ser diferente do boxe. Não me fascinou desde o início mas achei diferente do que conhecia e comecei a investigar. Fiquei intrigado mas não me lembro realmente do combate. No entanto, pela apresentação, pelo ringue ser diferente, pelos comentadores, senti que aquilo era uma coisa diferente do boxe.
BnR: Treinaste na Academia do Lance Storn, no Canadá, um país com grande tradição no Wrestling. Isso influenciou o teu estilo de Wrestling?
B: Sim, eu sempre cresci a gostar de lutadores do Canadá. Primeiro do Bret Hart e do Owen Hart, depois do Jericho e do Benoit. Reparei que os canadianos eram poucos mas eram realmente bons. Curiosamente, havia uma escola de Wrestling canadiana, a Hart Dugeon, onde eu queria treinar quando acabasse o curso. Cheguei a trocar emails com alguns lutadores da escola para saber mais, mas durante a minha licenciatura a escola fechou. Felizmente, abriu outra escola, do Lance Storm, lutador da WWE e da WCW, e fui para lá.

Fonte: Facebook Oficial de Bruno “Bammer” Brito
BnR: Tens algum wrestler que te tivesse influenciado na tua entrada para o mundo do Wrestling?
B: Sim, o Chris Benoit. Sei que ele é daqueles nomes que não pode ser mencionado, mas é a descrição de ídolo para mim, que me fez ir ao ginásio, ficar em forma. Dentro do ringue, ele era tudo o que eu queria ser e sei que se não fosse ele eu não teria ido para o Canadá.
BnR: É o melhor wrestler tecnicista que já houve na WWE?
B: Na minha opinião, sim. O melhor trabalho dele foi até na WCW e no Japão, mas pela consistência eu diria que sim. Não é um lutador tão versátil como alguns que tens agora como o AJ Styles, que não tem um mau combate com ninguém. O Benoit era menos flexível, mas tudo o que fazia era credível e isso é muito importante para mim. Quando estou a estudar Wrestling, quero que tudo pareça credível e ele nesse aspecto era o maior.
BnR: Tal como referiste, o nome do Benoit é um nome polémico na WWE e fala-se muito da questão do Hall of Fame. Há quem diga que ele deve entrar, pelo que deu ao Wrestling, outros não concordam, pelo que aconteceu fora da companhia (homicídio da família e suicídio). Qual é a tua opinião?
B: Por muito fã que eu seja do Benoit, eu acho que não deve entrar. O que ele fez fora do ringue, infelizmente elimina o que ele fez dentro. As pessoas vão pesquisar sobre o Benoit para saberem mais sobre ele e vão encontrar aquela informação. Não é uma pessoa com problemas com álcool ou com drogas como muitos wrestlers, mas tirou a sua vida e a vida de duas pessoas e isso é mais dramático. Por muito que ele tenha feito no Wrestling, ficará sempre associado a isso. Infelizmente é um dos nomes mais populares do Wrestling mas não pelas melhores razões. Teve 20 anos de alto nível mas não é reconhecido por isso.
BnR: Na altura, falou-se das lesões que sofreu na cabeça e da influência que isso teve nos seus actos. Achas que este acontecimento mudou a forma como a WWE passou a ver as lesões e as marcas que estas deixam nos lutadores?
B: Sim, até já há quem estude os traumatismos cranianos e as suas consequências, como o Chris Amann. Quem conhecia o Benoit, dizia que ele estava a começar a ter demência, estava a ficar paranóico, sentia-se perseguido e isso são tudo sintomas desse tipo de lesões. O problema do Wrestling é não teres uma off-season, um período de descanso. Se quiseres recuperar de lesões, podes fazê-lo, mas podes perder o teu push, a tua relevância, o público esquecer-se de ti e muitos lutadores, se tiverem uma lesão pequena, vão decidir continuar até não conseguir mais. A WWE tem uma Welness Policy que faz os lutadores serem constantemente avaliados pelos médicos, mas pelo que sei, é uma política algo leve e que está feita para que voltem ao activo o mais depressa possível. É qualquer coisa, mas a melhor forma de fazeres isto é teres dois planteis e teres alguma rotatividade.
BnR: Voltando à tua carreira, que desafios tiveste de enfrentar ao começares a praticar Wrestling?
B: A nível de técnica não tive grandes dificuldades. Aprender as manobras, na minha opinião, não é difícil. Senti-me sempre com uma aptidão para as coisas. O mais difícil foi fora do ringue. Em primeiro lugar, toda a questão sobre os preconceitos do Wrestling e levar com a família a dizer que isto não fazia sentido. É sempre difícil e causa algum desgaste. A alimentação também foi outra dificuldade. Quando comecei, com 18 anos, tinha 75 quilos, comia pouco e comia mal e ter essa disciplina foi complicado.
BnR: Falaste dos preconceitos sobre o Wrestling. Ainda existem pessoas a dizer que Wrestling é falso, que é tudo combinado e que os golpes são a fingir. Como respondes a essas opiniões?
B: Em Portugal há mais isso, na América já não há tanto porque a América está muito mais exposta ao Wrestling. Há dois caminhos para responder a isso. Pode ser pelo caminho da arte e pelo caminho do cinema. O caminho do cinema é tu saberes que o que vês não é 100% real mas tu quereres acreditar que é e deixas-te levar. Se a historia e os actores forem bons, tu vais acabar por te envolver e nem vais pensar que o que estás a ver não é real. O Wrestling também consegue ser assim, se os lutadores derem um bom combate, se a história for interessante, nem te lembras que estás a ver duas pessoas que se for preciso vão jantar fora depois do combate. Depois temos a questão da arte que para mim é mais importante. Quando estou a ver Wrestling, principalmente o Wrestling japonês, vejo duas pessoas que estão a tentar ganhar o combate e que usam os golpes como palavras para contar uma história e é assim que tento fazer nos meus combates. Eu gosto de contar uma história única em cada combate, e isso para mim é um processo criativo e artístico, daí também ser arte.
BnR: Foi fácil conciliar o Wrestling e a tua vida profissional?
B: Sim, foi, porque o Wrestling nacional não tinha evoluído muito. Na altura, ia treinar à escola do Tarzan Taborda, aos fins-de-semana, e durante a semana fazia musculação. Era fácil porque o Wrestling era ao fim de semana, nunca falhava treinos, tinha notas decentes, senti sempre uma facilidade no que toca a ligar o meu curso, marketing, ao Wrestling. Acho que o Wrestling é uma grande escola de marketing.

Fonte: Facebook Oficial de Bruno “Bammer” Brito
BnR: A WWE era o teu sonho? Chegaste a achar que era possível chegar lá?
B: Sim, antes de ir para o Canadá era esse o meu objectivo. Queria ser campeão Intercontinental. Sabia que ia ser difícil ser campeão Mundial, pois não tinha o carisma, não tinha o look, mas sentia que podia chegar ao título Intercontinental, pois esse título era associado ao lutador mais técnico. Pelo caminho é que percebi que aquilo era um bocado aborrecido, pois ou estava todo o dia na estrada ou estava a fazer tempo para o combate, que eram 5 ou 10 minutos. Todos os dias serem passados assim passou a ser difícil. Mesmo quando estava no treino estava aborrecido e o treino era de três horas. Pensava que se me aborrecia assim, sendo o treino de três horas, como seria num dia de combate, em que lutava 10 minutos e no resto do dia não acontecia nada. Também tem que ver com a idade, fui para lá com 23 anos, estava à espera de muita coisa. Olhando para trás percebo que ia ser mais do que suportável, arranjava um hobbie ou algo para matar tempo.
BnR: Os wrestlers passam muito tempo juntos, mesmo fora do ringue. Isso é benéfico ou conviver sempre com as mesmas pessoas a certa altura pode desgastar as relações e o desempenho dentro do ringue?
B: Os lutadores passam mais tempo com eles do que a família. Acabam por criar os seus grupos, viajam em conjunto. Mas isto é mais no circuito americano, onde tens cidades com seis horas de distância. Em Portugal é diferente. Podes ter uma data no Algarve, outra no Alentejo, mas andas no máximo três horas de carro. E em Portugal acabas por conhecer toda a gente do meio. Depois fazes o mesmo que fazes nas empresas. Tens um plantel de 12 ou 15 pessoas e a malta que se conhece melhor acaba por fazer um grupo, cada grupo almoça num sítio, uns vão num carro, outros noutro. Mas não existem grandes picardias nem grande competição, porque não há muito dinheiro em jogo.
BnR: Foste campeão durante seis anos. Sentes que és uma referência no Wrestling em Portugal?
B: Depende do que entendermos como referência. Referência é a minha alcunha no Wrestling português, é um facto, mas essa alcunha foi me dada por eu ser o que se deve esperar de um wrestler dentro do ringue. Tecnicamente, sou superior aos outros wrestlers, a nível de visual, tenho mais 20 quilos do que os restantes. Mas se isso se reflecte em notoriedade, eu diria que não. Tens o Luís Salvador, que também já deu muito ao Wrestling nacional, através do Wrestling.pt, uma marca que é bastante popular.
BnR: Como nasceu a ideia de criar uma Academia de Wrestling em Portugal?
B: Nós treinávamos no ginásio do Tarzan Taborda e na altura em que fui para o Canadá, existia uma pessoa disposta a comprar um ringue na América e trazê-lo para Portugal. Quando vim do Canadá, percebi que não queria seguir a carreira de Wrestling profissionalmente, mas percebi que gostava de ensinar os meus amigos para que eles pudessem ensinar outras pessoas. O ringue foi para o Centro Shotokai de Queluz, que nos deu as boas-vindas e ofereceu-nos tudo e o Wrestling seria uma modalidade do Centro. Comecei o projecto com mais duas pessoas. O site da Academia já existia, eu tinha comprado um domínio para colocar notícias de Wrestling mas quando começou a haver treinos comecei a anunciá-los no site. Começou comigo a passar o conhecimento aos meus amigos mais próximos, alguns deles depois passaram a ser professores e com muita aprendizagem começamos a criar os cursos e as aulas. Ao início éramos apenas amigos que gostavam de Wrestling e não sabíamos como o fazer, mas agora já temos um programa para os alunos, prever o que podem ser daqui a seis meses, também já passaram tantos alunos que acaba por ser mais fácil perceber a margem de progressão.
BnR: O Wrestling Portugal, ou Academia, nasceu em 2007, numa altura em que se dava o boom do Wrestling em Portugal. Isso ajudou ao crescimento do Wrestling Portugal?
B: Sim, sem dúvida. Ao início tivemos aulas com 12 ou 15 pessoas, motivadas pelos shows na Sic Radical, pelos shows no MEO Arena e a linguagem do Wrestling era mais popular. Já tivemos alturas com quatro ou cinco alunos, tempos mais difíceis, e neste momento estamos numa boa fase, mas eu diria que era muito mais fácil em 2007.
BnR: Quais são as características que levam a que se escolha um lutador para ser campeão do Wrestling Portugal?
B: São necessários vários requisitos tanto dentro como fora do ringue. No ringue tens de ter um bom combate, tens de ser versátil e contar uma história, tens de ser corajoso, ter uma boa condição física. Fora do ringue, tens de ser respeitado no balneário, as pessoas à volta têm de aceitar trabalhar para o campeão no espectáculo, tens de ser um exemplo para o restante plantel. Depois há também a questão de aceitação do público. Podes ser um grande lutador e seres respeitado no balneário mas se o público não quer saber de ti, não é possível ser o cabeça de cartaz. Não podemos ter um lutador a fechar os espectáculos que as pessoas não queiram saber dele. É uma mistura disto tudo que faz um campeão.
BnR: Que evolução teve a Academia durante estes 10 anos?
B: Foi complicado, foi um caminho atribulado. Na altura em que eu fui para a Suíça, tínhamos poucos alunos, cerca de quatro ou cinco. Nesse período em que estive fora, cheguei a ouvir falar de treinos com dois ou três. Na altura já não éramos uma modalidade, pagávamos para estar no espaço, já não dava lucro e sentimos que era a altura de fechar e seguir com a nossa vida. Na altura em que voltei para Portugal, reparei que havia pessoas a regressar e começamos a fazer shows com mais regularidade para perceber se isso trazia mais público. Neste momento estamos numa boa fase, houve fases em que as coisas não estavam a correr bem, chegamos a perder o nosso ringue, tivemos de adquirir outro mas demorou um ano a chegar e durante esse período treinávamos em colchões e a dizer aos alunos que o ringue estava a chegar. Isso foi uma boa prova de fé deles. Houve dificuldades mas estamos numa boa fase. No último treino tivemos 15 alunos, não são todos os treinos assim mas temos sempre 10 a 12 pessoas, desde o inicio de 2017. Vamos tentar continuar assim, mas da mesma forma que agora digo que está tudo bem, daqui a um ano podemos fechar. Pode parecer uma surpresa, mas não conseguimos controlar tudo.
BnR: Em Maio, Carlito e Chris Masters vêm a Portugal num show que junta wrestlers portugueses com estrangeiros. A TNA também já participou num show em conjunto com o Wrestling Portugal. Sentes que o futuro passa por protocolos com associações de Wrestling estrangeiras para dar mais visibilidade ao que se faz em Portugal?
B: Sim. Infelizmente há muito pouco hábito de misturar as entidades. Quando a TNA veio cá, com o Impacto Total, os portugueses lutaram à parte do roster da TNA. Em relação a esse evento em Maio, haverá colegas portugueses a lutar com estrangeiros mas não é algo frequente. Tem de estar muito bem treinado para tal e neste momento há mais pessoas capazes disso do que há 10 anos atrás. Tinhas alguns lutadores que passaram pelo estrangeiro, mas não tinhas lutadores que pudessem lutar com um americano e dessem garantias de um bom combate e agora já tens. Vamos ter mais misturas no futuro mas se isso significa maior crescimento não sei. Vai mostrar que somos mais profissionais no ringue mas não sei se trará mais pessoas para a bancada. Se eu lutasse com o Carlito não sei se isso ia trazer mais pessoas. Acho que preferiam ver o Carlito contra o Chris Masters. Temos sempre de medir bem as coisas. Haverá sempre um headliner contra outro headliner que têm de ser americanos e pelo meio teremos americanos contra portugueses, o que é positivo.
BnR: Referiste que haverá combates entre portugueses e estrangeiros. Como é que se prepara um combate entre dois lutadores cuja língua é diferente e que não treinam todos os dias em conjunto?
B: Não é muito diferente. Já lutei com estrangeiros antes, como o Neville da WWE, que fala inglês mas com um sotaque muito acentuado, já lutei com irlandeses, escoceses e até com um chinês que falava italiano. Se houver a barreira linguística, fala-se por gestos no balneário e tenta-se não inventar no ringue, fazendo um combate básico e quanto mais juntos estivermos no ringue, no sentido de proximidade física, melhor as coisas correm. O problema surge quanto te afastas, quando há um Irish Whip à corda ou uma corrida para o canto e se ninguém souber o que vai acontecer, estamos tramados. Mas assumindo que tratas dessa parte no balneário, seja com gestos ou com vídeos, os lutadores sabem o que fazer e tudo vai correr bem. Se a pessoa falar inglês, é quase como trabalhares com alguém que já conheces. A única diferença é que a pessoa pode ser mais bruta ou menos bruta no contacto, mas adaptas-te.
BnR: Como avalias esta nova geração de wrestlers em Portugal?
B: Eu costumo falar de um movimento que é o WP Clássico. É uma geração de lutadores que eu treinei desde 2007 até 2010. Alguns ainda estão no activo, chegamos a percorrer o país de Norte a Sul e era muito fácil porque eram muito profissionais, sabiam ter um bom combate com toda a gente, sabiam fechar um show e eram muito versáteis sabiam fazer de tudo no ringue. Depois tivemos um período mais morto, pois não tinhas tanta gente a puxar pelos alunos. Quando és só tu e outra pessoa a explicarem como se faz e eles não têm mais exemplos, torna-se complicado. Esta nova vaga que apareceu no último ano e meio tem bastante potencial, ainda não são como a geração de ouro do WP Clássico mas estão a caminhar para lá e dentro de um ano ou dois vão chegar a esse nível.
BnR: Que melhorias ainda podem ser feitas no Wrestling português e na sua organização?
B: O investimento é um ponto importante. As pessoas vão dizer que não há dinheiro e é verdade. O único dinheiro que fiz no Wrestling foi a comentar na Sporttv. Não se consegue fazer dinheiro dos espectáculos para depois ter um part-time, até porque as datas são poucas, se fizeres 20 num ano já foi muito bom. Melhorar o próprio espectáculo também, pois o Português é muito desconfiado e está sempre de pé atrás a ver um show e temos de colocar o espectáculo ao jeito dessa pessoa. Falo de cortinas de fumo, espectáculos de pirotecnia, pessoas que tenham um look de lutador. As pessoas têm de sentir que estão a ver uma coisa diferente, tens de dar a entender que és uma personagem e isso vem com algum trabalho de produção, como por exemplo, ter uma música de entrada e boas roupas. Já há malta que começa a comprar a sua roupa, a pensar na personagem mas ainda falta essa parte. Pelo menos na nossa Academia ainda falta apostar mais na parte do espectáculo.
BnR: Já tivemos a portuguesa Shanna na WWE a acompanhar Adam Rose. Achas que um dia poderemos ter um wrestler português na WWE a full-time?
B: Sim, não vai ser fácil porque é necessário um conjunto de factores. Há que ser muito teimoso e não desistir por nada, ter o look e Portugal não é um local onde as pessoas são geneticamente altas ou musculadas. Tens de trabalhar para isso, participar em shows europeus até que seres observado pela WWE. Há um conjunto de lutadores portugueses que estão a trabalhar para isso e já passaram para o circuito inglês para serem reconhecidas. Têm de trabalhar mas sinto que é uma questão de perseverança. Vai haver alturas em que vão querer mudar de emprego, casar, ter filhos e vão ter de ser muito resilientes se quiserem ir para a WWE. A palavra é resiliência. Mas tens três ou quatro pessoas que estão num bom caminho para um dia serem observadas pela WWE.
BnR: Nós tivemos o boom do Wrestling em Portugal há 10 anos mas com o passar dos anos o interesse foi diminuindo. No entanto parece que o pessoal está a voltar a ter interesse em ver Wrestling. Concordas?
B: Eu não tenho tanto essa sensibilidade, mas também estou cada vez mais na minha bolha, no sentido em que já conheço muito pessoal fã de Wrestling há muito tempo. Na minha página de lutador tenho cerca de dois mil likes e quando tenho algum like novo é por causa dos shows que faço. Ter o Wrestling na Sic Radical é importante para criar interesse, mas não sinto uma maior comunicação das pessoas em relação ao Wrestling. Não vejo muitos brinquedos de Wrestling. Acho que o jogo para as consolas é o que chama ainda mais gente, há quem jogue primeiro e depois é que conhece o produto. Essas coisas são importantes e ganhamos fãs com quem não contávamos.
BnR: Como analisas o público português?
B: É um público mais calado, mais observador, que não tem por hábito envolver-se tanto, mas isso não é culpa do português. Nós não temos muitos espectáculos de Wrestling e quando vais ao cinema ou ao teatro estás habituado a cruzar os braços e a não interagir. Quando tens um lutador a insultar-te, podes achar engraçado mas o teu instinto não é levantares-te e responderes ao lutador, portanto os lutadores têm um trabalho mais difícil, pois têm de puxar pelo público. As pessoas ficam a estudar sempre o combate ao início, mas isso é normal. É importante haver aqueles 10 ou 20 fãs que fazem sempre muito barulho e que as outras pessoas percebam que eles estão a fazer aquilo e não estão a estragar o show. Ao início podem ficar chocadas e pensar que os lutadores ficam ofendidos, mas na realidade os lutadores vão aproveitar essa energia e as pessoas vão perceber que aquilo é normal.
BnR: Como se prepara um show do Wrestling Portugal, decidindo que ganha e quem perde?
B: Temos um booker, alguém responsável pelas histórias e por quem ganha e perde. É um processo que leva tempo. Por exemplo, temos uma ideia de onde queremos estar daqui a seis meses ou um ano e temos um número de shows para chegar lá e vemos o que temos de fazer até chegar ao grande final. Chegando ao espectáculo, tem de se fazer um show para toda a gente. Há quem goste mais de violência, há quem goste mais de comédia, há quem goste de combates mais técnicos. Há que ter de tudo em cada show. Depois há que perceber que os main-eventers têm de ser lutadores que chamem gente, temos de perceber quem vai abrir o show, pois a abertura também é muito importante. São muitas peças para gerir e é um trabalho complicado. Depois há o facto de nem sempre os lutadores não gostarem do que vão fazer. Há lutadores que querem lutar 20 minutos e vão lutar cinco, que queriam fazer um combate violento e vão fazer um de comédia. Não se pode agradar a toda a gente e há que saber gerir os recursos humanos. Não é um processo chato, é um processo de diálogo mas acaba por render.
BnR: Tocaste no ponto das expectativas dos lutadores. É fácil gerir os egos, tendo em conta que haverá sempre um vencedor e um perdedor?
B: Na nossa Academia é fácil, porque lutamos em todos os treinos e há sempre quem ganha e quem perde e no final do dia isso não importa. Eu também sou uma pessoa suspeita porque tive 6 anos sem perder um combate que envolvesse o titulo, mas quando me disseram que ia perder não me fez confusão. Mas acredito que em alta competição isso seja um processo delicado pois há muito dinheiro em jogo. Depois também depende das pessoas. Se tiveres o Miz e a Maryse contra o Cena e a Nikki na Wrestlemania, o Miz estará num combate que envolve muito mais dinheiro do que se tivesse num combate por um titulo e que até podia ganhar, mas mais vale perder para o Cena na quarta hora do show em vez de estar na primeira hora. Mas há pessoas a quem a derrota afecta e pensam que podem começar a cair a partir daí. Em Portugal nunca teremos isso, pois não há muito dinheiro em jogo. Mas lá fora percebo que haja algumas birras. Dou o exemplo da Streak. Tirar a Streak ao UnderTaker pode ter ajudado o Lesnar mas não é uma figura da casa, não está sempre presente. Um lutador a tempo inteiro, como o Roman Reigns, podia beneficiar mais dessa decisão. Aqui também entram a questão das amizades, o Goldberg e o Taker têm uma boa relação e isso também influencia bastante.
BnR: Na Academia, os wrestlers têm liberdade no seu booking ou são aconselhados e só decidem o final dos combates?
B: Nós temos dois níveis de alunos. Temos os alunos que já têm experiência e consegue construir os combates e nós só pedimos para eles nos surpreenderem no ringue e que sigam o final proposto. Depois tens alunos menos experientes e temos um agente para o combate com quem decidimos o combate e ele vê os pontos fortes e fracos dos lutadores e decide o que devem mostrar dentro do ringue e como acabar o combate. Este já é um trabalho a três.
BnR: Foste campeão durante 6 anos. Que peso teve para ti e para o Wrestling Portugal no geral?
B: Por um lado foi bom, por outro foi mau. Não fiquei surpreendido quando soube que ia ser campeão, pois era o treinador principal, era visto como o lutador mais completo e sabia que era uma questão de tempo até ser campeão. O problema foi que, depois de ter ganho o título, fizemos poucos espectáculos, andamos a fazer shows com a WSW e eu também não perdia e eu fui para a Suíça. Este reinado de 6 anos começou a criar a ideia de que nunca mais ia acabar. Havia a percepção de que o ponto alto de um lutador era trabalhar até um combate contra mim, perdia e voltava para o fim da fila e depois vinha outro e era a mesma coisa. Depois havia a ideia de que eu era o John Cena português, era egoísta, não queria perder. A verdade é que tivemos a infelicidade de deixar de ter espectáculos em Queluz, tínhamos com outra entidade e isso esgotou o plantel, que não quis fazer mais shows. A juntar isto, a minha ida para a Suíça. Tudo isto deu a ideia de que ia ter o título para sempre mas nunca foi algo que eu quisesse. Agora reparo que há mais pessoal que acredita que pode chegar ao título. Se o Salvador ganhou ao Bammer, outros também podem ser campeões e começas a ter outro tipo de combates e outras situações que podem acontecer. É como teres o Lesnar campeão ou o Miz campeão. O Miz também pode ser um campeão credível mas sabes que pode perder em qualquer combate, já o Lesnar, sabes que é preciso haver interferências ou algo assim. E eu estava a ficar muito como o Lesnar, no sentido que já não ia ser só com um finisher ou dois que ia perder. Desde que perdi o título, fiquei mais humano.

Fonte: Facebook Oficial de Bruno “Bammer” Brito
BnR: Perdeste o título para o Luís Salvador, alguém que acompanhaste desde o inicio. Que significado teve para ti esse momento?
B: Eu conheci o Salvador desde o primeiro dia. É um rapaz impecável, dos meus melhores amigos, muito ambicioso e trabalhador. Quando soube que ia ser campeão ficou cheio de nervos e ficou a pensar se merecia essa honra de me suceder. E esse nervosismo passou para mim. Sou alguém que vai para os combates nervoso mas não receoso, e ele ficou tão nervoso que me transferiu esses nervos, pois eu queria que daqui a 10 anos olhasse para aquilo e sentisse imensa alegria. Eu queria que o combate fosse uma obra-prima. Fui muito mais nervoso do que vou normalmente, mas correu tudo bem, foi um grande combate e um grande momento. Ele é alguém que reúne o respeito de toda a gente no balneário, pelo que fez com o site, como já te referi. É a cara mais reconhecida do Wrestling português e fiquei satisfeito porque tudo correu bem.
BnR: Como surgiu a decisão de largares o titulo?
B: Foi o nosso booker que tomou essa decisão, apesar de eu achar que estava na hora de largar o título também. Senti que estava a começar a ficar cada vez mais longe dos restantes e estava na hora de colocar o titulo numa cara nova, de criar combates novos e imprevisíveis e nesta nova ronda de espectáculos decidimos agitar isto. Teve para acontecer mais cedo, mas deu para perceber que foi uma boa altura, as pessoas queriam um campeão novo e eu respeito isso.
BnR: No plano mundial temos lutadores como Kevin Owens, AJ Styles, Seth Rollins, Kenny Omega, Adam Cole, Rhodes. Achas que está é a melhor geração de sempre do Wrestling?
B: Sim, porque não é um negócio já tão virado para o corpo como já foi. Já não tens o típico body-builder com veias à mostra. Tens malta atlética, a nível de criatividade são muito bons, muito técnicos, mesmo lutadores que não deveriam ser técnicos pelo seu aspecto, como o Kevin Owens. Tens malta que produz qualquer tipo de combate e que não aparece tanto nos órgãos de comunicação pelas piores razões, como antes tinhas malta que era apanhada com álcool ou droga. São mais profissionais, não são lutadores que se recusam a perder, encaram isto como o trabalho deles e vestem a camisola da empresa de uma forma positiva. Isto fora do ringue. Dentro dele, há malta que é muito técnica e segura, continuam a ter lesões, mas isso é impossível não ter, mas caminha-se para uma era onde há cada vez mais pessoas muito capazes no ringue. O público também começa a aceitar os corpos menos musculados e lutadores mais pequenos. Há 20 anos era impossível teres alguém como o AJ Styles como campeão ou alguém como o Kevin Owens a aparecer na WWE e a ter o destaque que tem hoje. Já não é preciso ser um Hogan para ser main-eventer. A própria indústria foi encolhendo, passando de lutadores como o Hogan, para lutadores como o Eddie Guerrero, o Jericho e agora o Rollins ou o AJ Styles.

Fonte: Facebook Oficial de Bruno “Bammer” Brito
BnR: Já disseste que o Chris Benoit é a tua referência. E desta nova geração, qual é a tua referência?
B: Aj Styles, sem dúvida. Gosto dos combates do Cesaro, gosto do Rollins, agarro-me mais ao passado quando quero estudar Wrestling, vou aos combates do Japão, mas neste momento, é o AJ Styles a grande referência. É o lutador mais completo, produz um bom combate com qualquer pessoa, consegue espremer o adversário da melhor maneira, consegue ser face, consegue ser heel, consegue ter um combate de brawl, um combate de escada, coisas sempre diferentes e consegue ter sempre um combate de pelo menos quatro estrelas. Ele sempre esteve numa grande forma e neste momento está no auge da carreira dele.
BnR: Falaste no tipo de Wrestling que te inspira. Procuraste só o Wrestling japonês e americano ou também foste buscar algo ao Wrestling mexicano?
B: Estudei muito o Wrestling mexicano mas nunca vi algo que fosse útil para mim. Mesmo a nível de psicologia no ringue eles não têm muita. Gosto de Lucha Underground, mas é diferente, gosto da acção e da forma como produzem os shows, mas o mexicano nunca foi a minha cena. O Wrestling japonês sem dúvida que é. A New Japan Pro Wrestling nos tempos dos juniores de 1994/1995, onde tinhas lutadores como o Dean Malenko, o Benoit, o Eddie Guerrero ou o Thunder Liger, que faziam combates incríveis ou mais tarde, com o Kenta Kobashi, sempre foi uma referência. Se perguntares aos lutadores de agora quais foram as suas influências vão falar desta malta. Não é ao calhas que existem agora lutadores que conseguem fazer combates técnicos, golpes de terceira corda. Todos foram influenciados por estes lutadores mais antigos e eu também não fujo à regra.
BnR: Qual foi para ti, dentro ou fora da WWE, o melhor combate que já viste?
B: É difícil escolher um, mas acho que o combate perfeito envolve o Bret Hart e um lutador que não aprecio muito mas que sei que é muito bom, que é o Shawn Michaels. Não gosto dele enquanto fã, mas enquanto estudante, reconheço que ele é muito bom. Foi um Iron-Man Match, na Wrestlemania 12, um combate de 60 minutos. A via fácil para fazer esse combate era meter quatro ou cinco pin-falls para manter o combate entusiasmante, mas eles ficaram até ao fim dos 60 minutos empatados a 0. Depois houve o post-match que não achei perfeito, mas a nível técnico foi um combate que começa com muito pouco, começa com headlocks, vai evoluindo, nunca fica monótono. É um combate que é intemporal. Outro combate de que gosto muito é um Ladder Match entre o Jericho e o Benoit, na Royal Rumble. Enquanto gimmick match é um combate perfeito, que misturou psicologia com agressividade. É o segundo combate favorito, mas muito distante do primeiro.
BnR: Achas que a ROH, NJPW ou a Lucha Underground podem um dia rivalizar frente a frente com a WWE como fez a WCW?
B: Não. A ROH tem o seu nicho e atravessa um período complicado, pois perdeu muitas estrelas para o NXT e para o New Japan e tem de se reencontrar e criar novas estrelas e isso é um processo que leva tempo. Tem muito que pedalar até para manter o seu público satisfeito. A Lucha Underground vai agora para o NetFlix, o que é uma plataforma interessante para se dar a conhecer e eu diria que tem um produto muito único, muito bom, com lutadores diferentes, com um estilo diferente. Tem uma produção única mas não vejo a Lucha Underground a ser um produto mainstream. É um produto bom para malta do sexo masculino entre os 18 e os 30 mas não para crianças. Dificilmente vejo as crianças a gostarem do Pentagon Jr. Estão mais virados para um nicho.
BnR: A TNA já foi vista como a grande rival da WWE e hoje passa por bastantes dificuldades, achas que a empresa vai conseguir reerguer-se?
B: Não, acho que a TNA precisa de um rebranding. Esta semana perdeu três caras importantes para a empresa, os Hardys e o Drew Mcintyre. O que faltou à TNA sempre foi identidade. Os espectáculos ficaram com pior produção, o plantel até é bom, mas estão longe dos velhos tempos. Quando se via a X-Division, o Styles, o Christopher Daniels, o Samoa Joe ou o Angle e o Christian, nessa altura havia material para se fazer algo especial. E a partir do momento em que o Hogan, o Nash e o Bischoff pegaram naquilo, destruíram a companhia.
BnR: Fala-se que são os próprios fãs o maior impedimento ao sucesso de uma storyline ou de um wrestler. Concordas?
B: Eu acho que os fãs perceberam que têm uma voz demasiado importante. Tudo começou com a questão do Daniel Bryan, o YES movement e a Royal Rumble ,onde todos esperavam que o Bryan fosse o número 30 e acabou por ser o Rey Mysterio. A partir daí houve uma revolução e os fãs fizeram-se ouvir tanto que o Daniel Bryan acabou por ir ao main-event da Wrestlemania. A partir desse momento perceberam que podiam mudar o rumo das storylines e por muito que eu aplauda a WWE por essa decisão de colocar o Bryan a vencer na Wrestlemania, não deixo de ficar preocupado por ver o público a entoar cânticos que só servem para eles se divertirem. Acho que isso é mau e vai haver um processo ainda mais difícil da parte da WWE para filtrar o que quer como feedback por parte dos fãs. Se tens um cântico estabelecido como o “Lets Go Cena, Cena Sucks” e de um momento para o outro as pessoas cantam “Lets GO Cena, AJ Styles” isso mostra que tens ali alguém que as pessoas querem ver no main-event. Se tens malta que vaia o Reigns, deves aproveitar isso. Mas também tens malta a receber reacção do público mas pode ser só uma cidade. Tens o cântico “CM Punk” que ficou, mas se meteres o Punk no ringue, talvez daqui a um mês o cântico já tenha perdido força. Acho que a WWE tem de ter alguma sensibilidade em perceber o que pode aproveitar do público. Os fãs acham que podem fazer o que quiserem e isso estraga a experiência do show.
Vivemos numa altura em que os lutadores expõem-se muito nas redes sociais. Relembro o episódio do Rusev e da Lana, que anunciaram o casamento numa altura em que na storyline estavam separados e que a WWE trouxe isso para dentro do ringue a história ficou confusa. Achas que o kayfabe está morto ou a WWE deve mantê-lo vivo dentro do ringue?
B: Acho que é uma questão de bom senso. Eu não tenho problemas nenhuns em ir ao Instagram e ver o Rollins a treinar com o Samoa Joe, mesmo estando em feud. Mas acho que enquanto estamos na TV, temos de criar um ambiente onde pareça que há picardia e se conseguirem ser consistentes na mensagem dentro e fora da TV, acho que é o melhor. No caso do Rusev e da Lana, se a ideia era estarem separados na TV, então fazia sentido não meterem fotos juntos nas redes sociais. Mas da mesma forma, tens o cinema, onde o vilão e o herói promovem o filme juntos. Penso que é uma questão de bom senso. Eu preferia que evitassem aparecer juntos fora da TV enquanto estão em storyline. Mas acho que a WWE também está a educar o público no sentido de este perceber que as rivalidades ficam dentro da TV.
Artigo revisto por: Francisca Carvalho













