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O globetrotter da tática – Entrevista a Eduardo Almeida

Patrícia Ribeiro Fernandes · 10 min

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“Em África, treinava com duas ou três bolas, num campo pelado, com paus a fazer de baliza. Era complicado. Que não se compare a países onde dispomos de 40 bolas, dez balizas amovíveis e tudo e mais alguma coisa; no entanto, o produto final a alcançar é o mesmo: que a equipa jogue e ganhe!”

O mister Eduardo Almeida é um treinador com uma grande “cultura tática”. Aos 38 anos, já trabalhou com equipas de três continentes do globo e é um apaixonado por futebol. Estivemos à conversa e deu-nos a oportunidade de saber um pouco mais sobre a sua eclética carreira.

Bola na RedeComeçou por treinar os iniciados do Alenquer e Benfica, aos 20 e poucos anos. Como é que essa paixão surgiu tão cedo?

Eduardo Almeida: Sim, foi no Alenquer e Benfica que tudo começou. Na altura já gostava muito de futebol, embora não fosse propriamente muito dotado para a modalidade. O que jogava inclusive, era hóquei em patins. Mas gostava mesmo muito de futebol. Depois fui para a faculdade tirar a licenciatura em Desporto e surgiu a oportunidade de ir para o Alenquer e Benfica e para as escolinhas de formação do Benfica. A partir daí comecei a treinar e a gostar cada vez mais do treino e da modalidade.

BnR: Em seguida passou pela equipa técnica do União de Almeirim e do Atlético do Cacém, e dá-se aqui uma grande mudança. Como surge esta oportunidade de ir para Hong Kong fazer parte da equipa técnica de um clube da Primeira Liga?

EA: Fui para os seniores como adjunto do Atlético do Cacém, e depois Adjunto da Equipa A e principal da B. Fiquei mais uma época até surgir Hong Kong, é verdade. Um treinador meu conhecido, o Zé Luís, com quem já tinha trabalhado no Benfica, nas camadas jovens, estava em Hong Kong e precisava de alguém para ir treinar com ele o South China, e eu aceitei de imediato.

Fonte: Eduardo Almeida
Fonte: Eduardo Almeida

BnR: E a adaptação ao futebol asiático e aos jogadores?

EA: Nesse ano, e comparando com o nosso futebol, ainda eram um pouco amadores, na verdade. Não tinham comportamentos muito profissionais, e tratava-se de um futebol com pouca visibilidade. Recordo-me de um torneio que fizemos de Ano Novo, onde jogámos contra equipas estrangeiras, o La Galaxy, por exemplo, e como iam jogadores de fora, como Beckham, os estádios enchiam mas o futebol não era, de longe, o desporto de eleição. Lá, gostam mais de corridas de cavalos e desportos desse tipo.

BnR: Volta a Portugal, em 2008, ao Atlético do Cacém novamente, mas como treinador principal. Passa pelo Estrela da Amadora e dá-se outra mudança, African Lyon FC. Sei que gostou particularmente desta experiência na Tanzânia; pode contar-nos porquê?

EA: Na altura as redes sociais não eram tão desenvolvidas como são hoje mas vi num site que precisavam de um treinador para um clube da 1.ª Liga, na Tanzânia, que eu nem sabia bem onde ficava, sinceramente. Enviei o meu currículo por e-mail, eles gostaram, trocámos alguns mails e acabei por acertar as coisas com eles e meter-me no avião. Não conhecia lá ninguém mas superou as minhas expectativas! São completamente apaixonados por futebol e gostei logo muito da equipa, da forma como vivem o futebol. Os adeptos também vão muito aos estádios, e no que toca às equipas grandes, então, é estádio cheio garantido.

Hoje, os clubes têm mais dinheiro, mas naquela altura não era assim, então a vivência da modalidade era outra, acabando por envolver mais paixão, porque dinheiro não havia. Só dois ou três clubes eram organizados; os restantes eram muito limitados.  E depois comecei a gostar do país, fiz muitos amigos e já lá voltei novamente para fazer férias e para trabalhar também, a ajudar o presidente, que se tornou, aliás, num grande amigo. Gosto da simplicidade das pessoas e da alegria que têm, mesmo perante as dificuldades. Foi isso que me fez apaixonar-me verdadeiramente!

BnR: Foram muitos os clubes portugueses pelos quais passou mas interessa-me bastante esta sua multiculturalidade tática, digamos assim. Já falámos de Hong Kong e Tanzânia mas há mais. Fale-nos um pouco dessa sua vivência nas diferentes realidades do futebol mundial.

EA: De facto são todas realidades muito distintas: Hong Kong é uma cidade cosmopolita, onde há dinheiro mas não envolve muita paixão pela modalidade. Tínhamos excelentes condições para trabalhar, era inclusive, o melhor clube e sim, gostei de lá trabalhar e da cidade.

Depois o oposto, que é a Tanzânia, onde não haviam quase condições de trabalho, uma realidade completamente diferente! Para perceberem, chegámos a fazer viagens de 18h, com animais selvagens à frente e a ter que parar o autocarro para eles passarem. Por outro lado, havia muita paixão, mesmo com pouco dinheiro. Com eles vivi o futebol na sua fase mais pura, na sua essência.

A seguir, Malásia, que é Ásia, embora mais evoluída, mas com as suas limitações. Lá participei na abertura de uma academia, que até ali não existia e foi muito interessante. Dar a oportunidade a miúdos para praticarem e começarem com 10/11 anos e agora, alguns estão nas respetivas seleções. Ainda há pouco tempo, um deles, me enviou uma mensagem a dizer: “Mister eu vou à seleção”. Portanto, começámos um trabalho de base, juntamente com um trabalho de seniores e isso foi muito enriquecedor. Era no Norte da Malásia, onde a população é maioritariamente muçulmana e senti muitas diferenças culturais mas não houve qualquer problema. Na Tanzânia também senti mas era fifty fifty, ali era mais radical mas tenho alguma facilidade de adaptação também, e não tive, até hoje, quaisquer problemas.

E novamente, ocorre outra grande mudança de ambiente, a Hungria. Surgiu através de um amigo que me indicou e também posso dizer que gostei muito. Era um clube pequeno, em que o presidente controlava tudo e as pessoas que lá trabalhavam eram uma família, como que uma aldeia, e acarinhavam-me muito. Eles recebem as pessoas incrivelmente bem, ganhei uma mini-família com quem mantenho sempre contacto. Em termos de futebol, já é muito bom, muito perto da Europa: rígidos, influência nórdica, físico em detrimento do tático, com um treino muito especializado, um pouco mais ao nosso estilo. Consegui introduzir algumas alterações e foi muito positivo.

Em termos de experiência internacional, a última foi Laos, através de um ex-jogador que me indicou. A minha maior promoção são os jogadores que treino e chegam a outros clubes e acabam por me indicar. Apesar de já ter estado na Ásia, Laos tem uma cultura diferente, mais budista. É um país grande mas com pouca população, bastante seguro também mas pouco desenvolvido. Quanto ao futebol, o campeonato não é dos melhores, existem duas equipas boas, que era a minha, o Lane Xang Intra, e a Laotoyota, e mais uma vez, não era aquela paixão pela modalidade. Como costumo dizer, na Ásia pagam como profissionais e são amadores e noutros países, são profissionais e recebem como amadores.

A que me marcou mais de todas foi, sem dúvida e por incrível que pareça, a Tanzânia, que em termos de trabalho tinha menos condições mas que me deu muita alegria. Se algum dia tiver de morar noutro país por opção, é lá!

Fonte: Eduardo Almeida
Fonte: Eduardo Almeida

BnR:Vi uma entrevista em que disse que era conhecido por ter “experiência em equipas aflitas”. Como é que explica esse reconhecimento?

EA: Posso dizer que só comecei uma época de início quando tive no Pinhalnovense. Como principal só comecei uma época, fiz uma equipa, a do Pinhalnovense da presente época mas só realizei 5 jogos e fui demitido sem nunca perder . Todas as outras comecei sempre a meio ou já na parte final dos campeonatos e sempre com o objetivo de ajudar as equipas. Tenho aceite todas as propostas e já tenho tido sucesso em algumas equipas, noutras nem tanto mas as dificuldades também fazem parte. No entanto, tenho tido mais sucesso que o contrário. Gosto quando tudo está mal, dá-me mais força para tentar apoiar e dar tudo, é isso que me satisfaz: sairmos de situações difíceis para depois podermos festejar. Uma manutenção, em situações como tenho apanhado algumas equipas, é um título. Não estou a dizer que não gosto de começar uma época e lutar por títulos mas nunca tive essa oportunidade até hoje. Nunca fui muito de falar de mim mas já que pergunta, a verdade é que já passei por quase todas as divisões, por várias realidades e tive que superar muitas situações, em vários pontos do mundo com culturas, métodos e jogadores muito distintos. Às vezes as coisas não correm bem e nem sempre é possível ter a família connosco e isso torna-nos mais completos como profissionais e pessoas e obriga-nos a dar a volta e a lutar para virar o rumo dos acontecimentos a nosso favor.

BnR: Pegando na sua vasta experiência com as camadas mais jovens, diga-nos, que valores gosta de transmitir aos seus jogadores?

EA: Os valores que eu transmito e com os quais trabalho em equipas séniores e com qualquer jogador são a seriedade, honestidade e entrega no trabalho. Dar o que temos e o que não temos e quem não o quiser fazer, não pode trabalhar no mesmo grupo que eu. Sou muito sincero e por vezes custa mas não consigo ter um jogador no plantel que eu sei que não conto com ele mas está ali porque me custa mandá-lo embora e é bom rapaz, isso não acontece! Custa mais dizer uma vez que ele nunca irá jogar, do que estar todas as semanas a mentir. Sou frontal na vida e no futebol também o sou. Peço-lhes honestidade e trabalho no nosso caminho, independentemente do escalão, salário ou clube. Profissionalismo e rigor acima de tudo. Mas também tenho sempre a porta aberta para os jogadores e tento sempre ser amigo deles e ajudar no que for possível.

BnR: Nos últimos anos tem sido comum ver contratações de jovens jogadores do Campeonato Nacional de Séniores por parte de clubes da Primeira Liga. Há muito talento nestas divisões secundárias?

EA: Sempre tivemos muito futuro na minha opinião. De há uns anos para cá, está mais acessível porque antes os jogadores vinham dos clubes grandes para os mais pequenos mas depois era mais difícil voltar às ligas profissionais mas agora, com o scouting que há, com a quantidade de pessoas envolvidas e conhecimentos num mercado cada vez mais aberto, é mais fácil contactar qualquer pessoa e saber informações. Para o jogador, também é mais fácil regressar aos patamares profissionais e aos clubes que muitas vezes foram os que os formaram. A informação flui mais rápida e eficazmente, o que ajuda a movimentação e progressão dos jogadores. E quer se queira quer não, nestes campeonatos, a maioria dos treinadores tem uma forma de ver o futebol e uma qualidade treino já muito profissional e, consequentemente, os jogadores evoluem e vão melhor preparados para a 2ª ou 1ª liga. Os treinos nestes campeonatos são muito equivalentes aos praticados nessas ligas. Talento há e vê-se cada vez mais mas também há menos tendência dos clubes em ir buscar fora, apostando mais no mercado nacional.

BnR: Agora está no Angrense. Pretende ficar por cá ou nunca se sabe?

EA: Neste momento tenho um compromisso com a direção do Angrense, o de ficar até ao final da época e é o que vai acontecer. O clube está numa situação muito complicada e pediram-me para os retirar desta situação. Não tivemos uma primeira volta positiva mas foi muito construtiva, na medida em que investimos em perceber as mudanças necessárias e acho que agora temos condições para dar a volta a este mau momento. O objetivo é manter e acho que encontrámos o caminho, vamos ver se os resultados correspondem.

BnR: Se, eventualmente, pudesse escolher um jogador para a sua equipa de sonho. Qual seria?

EA: A minha equipa de sonho é o AC Milan e se pudesse escolher um jogador era, certamente, o Zlatan Ibraimovic.

BnR: Começou muito cedo, mas cedo também se percebeu que é bom naquilo que faz. Como é que vê o estatuto que os treinadores portugueses têm? Podemos falar em Mourinho, Jesus e agora Marco Silva, mas há muitos outros treinadores lusitanos com experiências bastante positivas em regiões diferentes do planeta, como por exemplo Paulo Duarte, Henrique Calisto ou Manuel José. O que é que o treinador português tem de especial?

EA: Em primeiro lugar, acho que somos muito adaptáveis culturalmente, temos uma grande capacidade de arranjar soluções e ficar no controle. Trabalhamos bem em todos os escalões e com o tempo vamos provando que as nossas ideias são boas e não tenho dúvidas de que somos os melhores treinadores do mundo. E depois, somos muito bons na parte do treino que tem que ser adaptado às respetivas realidades. Em África, treinava com duas ou três bolas, num campo pelado, com paus a fazer de baliza, é complicado. Não se compare a países onde dispomos de 40 bolas, 10 balizas amovíveis e tudo e mais alguma coisa mas o produto final a alcançar é o mesmo, que a equipa jogue e ganhe. Tem que se inventar muito!

Por agora está contente por estar de volta a Portugal mas o percurso do mister fala por si e demonstra bem que está sempre aberto a todas as oportunidades. É percetível no seu discurso a garra e a paixão com que vive o futebol. São exemplos como este que dão bom nome ao que é nacional por esses relvados do mundo fora e temos tudo para crer que futuro da modalidade está entregue em boas mãos.

 

Patrícia Ribeiro Fernandes

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