«Saída do Benfica? Soube pela televisão. Não foi fácil» – Entrevista BnR com Quim

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– Trapattoni, Koeman e Jesus ou O Bom, O Mau e O Vilão –

“Saber pela televisão [que não contava para Jesus] não foi fácil”

BnR: Quando chegas ao Benfica, já havias dividido o balneário e a baliza da Seleção com Moreira. Como era a vossa relação?

Q: Era boa. Como disseste, já conhecia o Moreira do Euro 2004 e não tenho nada a apontar-lhe. Era um jovem com qualidade e, tal como eu, queria jogar. Continuo a dizer que fiz a carreira que fiz graças aos meus concorrentes, porque obrigaram-me a trabalhar mais e melhor.

BnR: O que aconteceu para que, após a pesada derrota no Restelo, Trapattoni te desse a titularidade?

Q: Lembro-me perfeitamente desse jogo e não deu qualquer justificação, nem ao Moreira, nem a mim; simplesmente disse-nos que ia mudar. Foi um resultado difícil [4-1] e, se calhar, foi por aí.

BnR: Como era o italiano em privado?

Q: Era uma pessoa fantástica. Não é por nada que lhe chamam “Velha Raposa”. Ele não aprendia porque, de futebol, sabia tudo, só tinha a ensinar. E apesar da idade e do estatuto, chegou ali e corria connosco; ia à frente do pelotão. Tinha grandes conversas connosco… dentro do balneário, o importante é puxar os jogadores para o lado do treinador e ele conseguiu ter o plantel todo do seu lado. O Karadas veio como avançado-centro e ele foi capaz de convencê-lo a jogar a central, algo impensável. Para um treinador isto é meio caminho para as coisas saírem bem. Foi a peça mais importante para a conquista do título.

BnR: Que momentos recordas desse campeonato?

Q: Dou-te três momentos. O último jogo no Bessa: foi um sentimento que ficará connosco. Sonhamos jogar num grande clube e ser campeão nacional e consegui. Foi um sonho concretizado. Outro foi a viagem do Bessa até Lisboa. Só do estádio até ao aeroporto Francisco Sá Carneiro demorámos não sei quantas horas; tantos benfiquistas que não nos deixavam passar, ainda para mais no Porto! E o golo do Luisão frente ao Sporting nos instantes finais.

Fonte: UEFA

BnR: Com Koeman, após a chegada de Moretto, perdes o lugar de titular até ao final da época. Foi-te dada alguma explicação?

Q: Essa fase da minha carreira não foi fácil, porque eu estava a jogar e tive a infelicidade de, num jogo da Liga dos Campeões, em Villarreal, contrair uma hérnia inguinal. Fui operado na Alemanha e, pouco tempo depois, apesar de dizer claramente que ainda não estava em condições, fiz um forcing para jogar, apesar das dores: o mister Ronald Koeman insistiu, porque a equipa precisava de mim – o Moreira estava lesionado e só tínhamos o Rui Nereu – e ainda que não pudesse bater os pontapés de baliza, lá consegui. Durante duas ou três semanas, estive a jogar limitado, prejudicando a minha saúde, a pedido do treinador. Foi para mim um espanto quando, em dezembro, contrataram o Moretto numa quarta-feira e no sábado estava a jogar. Sem explicações. O futebol tem injustiças que não conseguimos explicar.

BnR: O que é que mudou com a chegada de Jorge Jesus à Luz?

Q: O Jorge Jesus tem uma maneira de ser especial. Como treinador, ajudou muito a equipa. O que ele trouxe, a nível defensivo (…) não é fácil fazer o que Jesus fez nesse ano. Conseguiu pôr a defesa tão organizada que parecia que estavam sempre em linha. A exigência dele no treino era tão grande que a equipa chegava aos jogos e fazia igual. Ele tinha uma expressão “Bola coberta” e “Bola descoberta”… só mesmo ele. Defensivamente essa equipa era fantástica. Para a frente, a qualidade de jogadores que tínhamos nesse ano era imensa; era fácil.

BnR: Essa exigência é um pau de dois bicos?

Q: Como treinador, é dos melhores com quem trabalhei. Vai ao pormenor, mas muitas vezes torna-se cansativo. Um ano inteiro a trabalhar com ele não é fácil, mas para as coisas saírem perfeitas tem de ser mesmo assim.

BnR: Convidado do programa “Trio D’Ataque”, o agora treinador do Flamengo disse “O Benfica vai contratar um guarda-redes e ficar com três. O Quim sabe, perfeitamente, qual é a minha ideia”. Sabias realmente qual era a ideia de Jorge Jesus?

Q: Não sabia. Foi uma das coisas que não percebi no futebol. Não é fácil fazer 30 jogos e sair. Não digo que fui dispensado, porque terminava o contrato, mas o Moreira também acabava – não fez jogo nenhum para o campeonato – e continuou; o próprio Júlio César ficou. O guarda-redes que fez 30 jogos no campeonato não foi sequer consultado para saber se queria continuar. Para mim foi complicado e, o que soube, foi pela televisão. Mas sabia perfeitamente que, se houvesse vontade do treinador em que eu continuasse, ter-me-iam dito mais cedo; tinha esta consciência, mas saber pela televisão não foi fácil.

BnR: Terias aceitado ficar no Benfica sabendo que não serias a primeira opção?

Q: Não vejo por que não. A minha maneira de pensar não iria ser a de segunda opção: iria trabalhar para ser a primeira. Se calhar no início (…) repara numa coisa: o Roberto, quando chegou, as coisas não lhe correram muito bem… eu ficando lá, sabia perfeitamente que podia entrar e seria tudo diferente. O futebol é mesmo assim.

Miguel Ferreira de Araújo
Miguel Ferreira de Araújohttp://www.bolanarede.pt
Um conjunto de felizes acasos, qual John Cusack, proporcionaram-lhe conciliar a Comunicação e o Jornalismo. Junte-se-lhes o Desporto e estão reunidas as condições para este licenciado em Estudos Portugueses e mestre em Ciências da Comunicação ser um profissional realizado.                                                                                                                                                 O Miguel escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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