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«Existe é uma desconfiança generalizada em relação à capacidade intelectual das mulheres nesta área» – Entrevista Cláudia Martins

Rafael Simões · 8 min

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Licenciada em Comunicação Social pela Escola Superior de Educação da cidade dos estudantes – Coimbra –, Cláudia Martins é uma das poucas jornalistas que exercem a profissão na área de desporto. Repórter de pista da Antena 1, foi diretora de informação do ZeroZero quando começou o projeto redação, e tem travada uma intensa luta contra os preconceitos e desigualdades das mulheres no ramo do Jornalismo de Desporto. O Bola na Rede conversou conversou com Cláudia Martins para tentar descobrir várias particularidades da profissão.

Bola na RedeO Jornalismo sempre foi um objetivo desde cedo para as suas pretensões profissionais?

Cláudia Martins: O Jornalismo foi uma certeza desde sempre. Era muito nova, não mais que 11, 12 anos, e sabia que queria ser jornalista. É uma paixão, uma responsabilidade, uma missão.

BnR: Em relação ao Jornalismo de desporto, como é que apareceu na sua vida?

CM: O Jornalismo de desporto foi uma coincidência. Cerca de um ano depois de ter estagiado na redação geral da Antena 1, no Porto, fui convidada para a equipa de desporto. Hoje, creio que foi o melhor que me aconteceu mas não sei onde estaria ou o que estaria a fazer se tivesse seguido outro rumo. Na altura foi uma coincidência, já gostava de desporto mas não tinha definido ser jornalista nesta temática, estava no início da carreira, a entrar no mercado de trabalho e agarrei a oportunidade. Hoje, feliz com as minhas escolhas, creio que foi o melhor que podia ter acontecido e não me vejo, para já, a mudar de área.

BnR: Já tem dito, em outras ocasiões, que não gosta do rótulo de jornalista desportiva? Porquê?

CM: Há uma tendência na sociedade, de uma forma geral, de colocar rótulos e preconceitos, de catalogar, que me incomoda. O jornalismo de desporto acaba por, muitas vezes, ser rotulado como menos importante, menos independente, menos sério e, por consequência, também os jornalistas que trabalham nesta temática o são. É algo que me incomoda porque sou jornalista, serei sempre jornalista, trabalhe em desporto ou noutra temática qualquer. Além disso, o desporto não pode nunca, no nosso país, ser considerado um tema menor. Porque ele está relacionado com a nossa identidade enquanto povo e porque ele é das poucas coisas em que Portugal tem uma projeção mundial plena de sucesso. Não há muitas coisas em que nós tenhamos esta visibilidade externa e bem sucedida que o desporto nos dá. Como pode então ser um tema menor? Como podem os jornalistas que trabalham nesta área serem considerados menores? Mais ainda, para mim, as ferramentas, as preocupações, os procedimentos, os conceitos e cuidados éticos que são necessários ao exercício do jornalismo são aplicados em qualquer temática em que se trabalhe. Não creio, por trabalhar em desporto, que faça o meu exercício diário de forma diferente dos meus colegas que trabalham noutras secções temáticas.

BnR: Foi diretora de informação do ZeroZero, numa altura em que o projeto ainda estava numa fase inicial. Foi, na altura, um desafio ainda mais aliciante por isso?

CM: O projeto estava numa fase inicial em termos de redação, enquanto base de dados estava já bastante desenvolvida. Foi um desafio absolutamente determinante para o que sou hoje. Abraçar e criar um projeto de raiz, poder implementar o meu ideal de jornalismo, sem vícios, pressões e restrições foi muito bom. Ao mesmo tempo foi uma contínua aprendizagem, houve situações, decisões, questões que me foram colocadas pela primeira vez. Tive, em muitos casos, que ser autodidata, muitas vezes tive que recordar as aulas de ética e deontologia e tomar decisões de acordo com a minha consciência. Terei errado, certamente, mas o que fica de positivo é muito mais do que negativo, foi uma aprendizagem profunda, de mais de cinco anos.

BnR: O ZeroZero, assim como outros órgãos de comunicação social apenas do online, têm crescido muito nos últimos tempos. Acha que o futuro do Jornalismo pode passar somente pelo online, ou terá sempre o seu lado mais “tradicional”?

CM: Eu sou defensora de que nenhum modelo desaparece. Nem desaparecerá. Apenas há uma exigência grande de adaptação, de mudança, de acompanhamento das tendências. Não quero, sequer, acreditar que isso possa acontecer. Além disso, acho que no nosso país quase não há projetos com estratégias bem delineadas para o digital. O online é, na sua maioria, uma extensão de outras plataformas e não um meio em si mesmo. Enquanto essa estratégia não estiver bem desenhada, não me parece que se assuma como o futuro do Jornalismo.

BnR; A fazer desporto na rádio, segundo sei, é apenas uma de duas jornalistas. Isso traz-lhe pressão acrescida no desempenho da profissão?

CM: É verdade e enquanto repórter de pista sou a única. Não me traz qualquer pressão, sei bem o que faço, preparo-me para o fazer com total profissionalismo e domínio dos assuntos. A única coisa que sinto não é pressão, é responsabilidade por assumir o “primeiro passo”. O que gostaria é que muitas mais se seguissem. É um dos meus desejos, uma das minhas “batalhas”.

Cláudia Martins é jornalista na Antena 1
Fonte: Antena 1

BnR: Também em outras ocasiões já teve oportunidade de assumir que tem “travado” uma luta contra o preconceito da mulher no Jornalismo de desporto. Quais são, para si, as principais diferenças de tratamento entre homem e mulher que há nesta profissão?

CM: Relaciona-se um pouco com o que disse acima sobre os rótulos. Há preconceitos, estereótipos criados relativamente ao conhecimento das mulheres sobre o desporto e à sua capacidade intelectual para trabalhar em determinadas áreas temáticas. Costumo brincar e ironicamente dizer que é quase genético: todos os homens nascem a saber de desporto e a saber jogar/praticar algum tipo. As mulheres não, não percebem de desporto, não sabem falar sobre ele e raramente o sabem praticar com excelência. Respondendo especificamente à questão, não existe, ou pelo menos não o sinto muito hoje em dia, um tratamento assumidamente diferente. Existe é uma desconfiança generalizada em relação à capacidade intelectual ou ao conhecimento das mulheres nesta área. Uma espécie de desrespeito generalizado. Isto mostra o caminho que tem que ser desbravado pelas mulheres que trabalham nesta área. Não só têm que ser boas profissionais, têm que provar que o são. É, de uma forma geral, uma exigência muito maior do que a que é feita aos homens.

BnR: Quais são as principais causas para esta desigualdade? Não será um problema mais sociológico do que propriamente apenas do Jornalismo de desporto?

CM: É sociológico, claro. É a sociedade que “diz” o que é mais naturalmente masculino e o que é mais relacionado com o feminino. No que diz respeito ao desporto isso vê-se até do ponto de vista dos praticantes, as modalidades mais usuais entre os meninos e as meninas. É algo mais visível em Portugal do que noutros países. É incrível como em 2017 ainda temos que ter estas conversas. E é assim relativamente ao jornalismo de desporto mas poderíamos falar das hierarquias (praticamente em todos os setores), das engenharias, da área tecnológica, da área militar que são setores ainda marcadamente masculinos e é preciso desconstruir os estereótipos em torno deles e das pessoas que neles trabalham.

BnR: Acha que, num futuro a curto/médio prazo, é possível alterar este paradigma? Se sim, como?

CM: Não sei se isso acontecerá a curto prazo. Vou fazer dez anos na Antena 1 e neste período a evolução, pelo menos nas rádios nacionais, é inexistente. Espero que o paradigma se altere mas temo que seja um processo lento e que precisa de maior envolvimento da própria comunidade jornalística.

BnR: Qual foi a situação mais caricata que já viveu na sua carreira?

CM: Não consigo identificar uma específica. Recordo-me de há uns anos, num estádio e no meu dia de aniversário, o pivot da Antena 1 me ter dado os parabéns em direto e depois, ao intervalo, várias pessoas vieram ter comigo à tribuna de imprensa dar-me os parabéns pois estavam a ouvir a rádio. É, aliás, uma das coisas que mais gosto nesta área, o facto de as pessoas se sentirem nossas “amigas” por nos ouvirem diariamente. Já tive uma situação num estádio em que estava a ser identificada por um delegado da Liga de Clubes por causa do colete de identificação que temos que usar no relvado e quando lhe disse o meu nome ele parou de escrever, cumprimentou-me e disse que me conhece há anos. Já recebi bilhetes com números de telemóvel, piropos, elogios, “declarações de amor”… Estou só a identificar as “boas”. Há situações difíceis e más que prefiro nem lembrar, tento sempre ver o lado positivo.

BnR; Portugal é Campeão da Europa, no entanto o clima que se vive no país em termos desportivos é de constante tensão e até, por vezes, ódio ligando-se, muitas vezes, mais a polémicas do que propriamente ao jogo. Urge mudar esta mentalidade?

CM: Absolutamente. Urge. Em Portugal gosta-se mais de clubes do que do jogo. Torna-se uma questão de vida ou de morte e é preciso que esta importância seja desmistificada. É necessário respeitarmos o jogo, os seus protagonistas, percebermos que há muito mais para além daqueles minutos em que existe um desfecho, um resultado final. Percebermos que falamos de pessoas, sejam elas quais forem, jogadores, treinadores, árbitros, dirigentes, adeptos…são sempre pessoas as que estão envolvidas, não há lados certos ou errados, com ou sem razão, há um ponto comum que é a paixão pelo desporto e isso devia unir-nos, não afastar-nos. É “só” um jogo, mesmo que seja o jogo mais importante das vidas. O desporto tem um poder tremendo numa série de causas, de temas. É um ator importante na mudança social, no desenvolvimento, na inclusão, na integração, na diminuição das desigualdades, na promoção de valores, na quebra de barreiras. É uma linguagem universal. É importante pensarmos no que realmente importa quando falamos de desporto e aproveitarmos o seu melhor, potenciarmos o seu melhor. Creio que temos estado perigosamente a potenciar o seu pior e a ver, consecutivamente, o seu pior lado.

Foto de Capa: Antena 1

Rafael Simões

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