Faltam sensivelmente dois meses para o arranque do Mundial de 2026 e, pela primeira vez em muito tempo, a sensação não é apenas de expectativa, é de mudança.
Mudança de formato. Mudança de protagonistas. E, quem sabe, uma mudança na hierarquia do futebol mundial. Este não é apenas mais um Mundial. É o primeiro de uma nova era.
Há algo de profundamente bonito nos últimos bilhetes carimbados. O Iraque regressa a um Mundial 40 anos depois. A República Democrática do Congo volta 52 anos depois. Dois exemplos de que o futebol, mesmo num mundo cada vez mais controlado e previsível, ainda deixa espaço para o improvável.
Nos últimos apurados da zona europeia, a Bósnia do eterno Edin Dzeko, Chéquia, Suécia (com Viktor Gyokeres no papel de herói nacional) e Turquia completam o lote final, seleções que, sem fazerem parte da elite absoluta, chegam com qualidade e capacidade para complicar contas.
Mas se há histórias de regresso, há também ausências que fazem barulho. A Itália volta a falhar um Mundial. Pela terceira vez consecutiva. A tetracampeã mundial tornou-se, de forma quase inexplicável, numa ausência recorrente. Já não é acidente, é diagnóstico.
É uma “tragédia” sem precedentes num futebol que foi perdendo identidade e qualidade, apesar de paradoxalmente a Squadra Azzurra ter-se sagrado campeã europeia em 2021 (a edição Euro 2020 que se disputou no ano seguinte por causa da pandemia) em Wembley frente à Inglaterra.
Estamos perante um caso no qual toda uma geração de jogadores italianos não irá disputar um mundial, pois o hiato será no melhor dos casos, de 16 (!) anos. Algo absolutamente impensável há duas décadas atrás. O que é certo é que os transalpinos ganharam em 2006 e depois não passaram da fase de grupos nas edições de 2010 e 2014. Duas décadas penosas.
E há outras quedas que surpreendem: a Dinamarca de Froholdt e Hjulmand fica pelo caminho. Os dinamarqueses podiam claramente ter evitado ter jogado este play-off, pois estiveram a ganhar em casa por 2-0 no penúltimo jogo do seu grupo de qualificação contra uma seleção da Bielorrússia extremamente débil, deixaram-se empatar e a decisão da qualificação directa decidiu-se contra a Escócia (seu rival directo) em Glasgow, num ambiente que já se sabe que é absolutamente infernal para a equipa visitante.
A Polónia (do trio polaco portista Bednarek, Kiwior e do prodígio Oskar Pietuszewski) também não conseguiu o tão desejado apuramento, e consequentemente terá sido a última oportunidade do lendário Robert Lewandowski jogar um Mundial. O futebol é belo, mas é igualmente cruel e inesperado. Sempre foi.
No lote dos favoritos, partem quatro seleções como as que têm mais potencial e recursos para levantar o “caneco” a 19 de Julho no MetLife Stadium. À cabeça está a Espanha.
Campeã europeia depois de ganhar todos os jogos da competição (num brilhante percurso no qual derrotou seleções como a Alemanha, a França e a Inglaterra), que conta nas suas fileiras com um talento geracional e com um jogador que já não é promessa, é realidade: Lamine Yamal. A seleção espanhola parece ter reencontrado algo que tinha perdido: naturalidade no jogo. Dá gosto ver a seleção de “nuestros hermanos”, com uma identidade muito própria.
França e Argentina continuam onde sempre estiveram nos últimos anos, no topo. Consistentes, profundas, habituadas a estes palcos. Kylian Mbappé e os seus companheiros apresentam uma seleção com uma panóplia gigante de jogadores de imensa qualidade a nível ofensivo: Olise, Ekitike, Dembelé, Barcola, Thuram, Cherki, Doué, entre outros.
A Argentina (ainda pendente da confirmação oficial de que o mundo espera que Messi vai disputar o seu 6º Mundial) não deslumbra mas é a campeã em título, mantém um grande gene competitivo, e é uma seleção que tem jogadores de muita qualidade, como o próprio Leo Messi, assim como Julián Álvarez e Enzo Fernández.
E depois há Portugal. Uma seleção com talento para tudo. Para encantar, para desiludir… e para, finalmente, fazer história. Com Roberto Martínez, ou talvez apesar disso, Portugal chega com argumentos claros para lutar pelo título, embora persista a desconfiança de que o técnico espanhol seja a pessoa indicada para liderar um conjunto com um talento como poucas vezes se viu numa seleção nacional.
E há um elemento que transforma tudo: Cristiano Ronaldo. Se este for, como tudo indica, o seu sexto e último Mundial, então estamos perante um possível último capítulo que pode ser tudo, ou nada. E isso, só por si, já torna esta seleção impossível de ignorar. É importante frisar que esse elemento terá de ser gerido cuidadosamente, esta selecção já não é dependente do seu melhor jogador.


Não é “ódio gratuito” afirmar que Cristiano Ronaldo é o principal jogador da seleção. Tem 41 anos, e é naturalíssimo que já não tenha a influência de outrora. Jogadores como Bernardo Silva, Bruno Fernandes, Vitinha, Nuno Mendes e João Neves (entre outros) também merecem o respectivo protagonismo, e essa será a espinha dorsal de um colectivo que caso se una em torno de um objectivo, pode perfeitamente sagrar-se campeão mundial pela primeira vez na sua história.
Talvez o maior sinal de mudança deste Mundial esteja no Brasil. Pela primeira vez em décadas, a seleção canarinha não chega como favorita. Chega como outsider. Continua a ser o Brasil, mas já não impõe medo automático. Ao leme do técnico italiano Carlo Ancelotti, já não entra em campo com a aura de inevitabilidade. E isso diz muito sobre o estado atual do futebol mundial.

