Super ‘Palancas Negras’ na CAN’2023 | A melhor prestação angolana de sempre

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Criada em 1979, a Seleção Angolana de Futebol teve a sua estreia no Campeonato Africano das Nações (CAN) em 1996. O empate (3-3) contra Camarões e as derrotas face a África do Sul (0-1) e Egito (1-2) marcaram a primeira participação de sempre de Angola na mais importante prova de seleções do continente africano. Quase 28 anos depois, a história a contar é, desta vez, bastante diferente.

Isto, apesar de o futebol angolano não viver propriamente a sua melhor fase. O peso dos clubes no contexto internacional (provas continentais) é muito baixo e poucos têm sido os jogadores a construir uma carreira interessante fora de portas. Gelson Dala, provavelmente o maior talento do país nos últimos largos anos, foi pouco aproveitado no Sporting, destacou-se no Rio Ave e é, hoje em dia, um dos maiores nomes do futebol… no Catar. Ao serviço do Al-Wakrah, atual segundo classificado do campeonato, Dala soma 39 golos e seis assistências em 58 jogos, distribuídos por duas temporadas e meia. Números interessantes, mas que trazem à tona um sabor agridoce. Futebol é futebol, mas em circunstâncias normais o Catar seria sempre curto para as qualidades do avançado formado no 1.º de Agosto.

Para além disso, em setembro do último ano, despontou um escândalo no seio do futebol angolano. O Petro de Luanda, bicampeão nacional e vencedor da Supertaça, foi suspenso por dois anos pela Federação Angolana de Futebol (FAF), estando em causa o envolvimento do clube em alegados esquemas de corrupção. Em causa estão mensagens de áudio, divulgadas ao longo dos últimos meses e que apontam para a ocorrência de um pagamento, feito pelo Petro à Académica do Lobito como incentivo para vencer o 1.º de Agosto na Taça de Angola da época passada (que o Petro viria a vencer). Para além disso, e porque os castigos não ficaram por aqui, o treinador Agostinho Tramagal foi castigado com quatro anos de suspensão, o 1.º de Agosto foi multado em 2.000 kwanzas e o Kabuscorp do Palanca foi condenado à descida de divisão.

O cenário era desastroso, mas a seleção angolana fez das tripas coração, transformou as fraquezas em forças e brilhou no maior palco do futebol africano. Contudo, o sonho do povo angolano terminou hoje aos pés da poderosa Nigéria. Num duelo entre treinadores portugueses, pautado pelo equilíbrio, a qualidade e experiência das armas à disposição de José Peseiro marcaram a diferença. O golo de Ademola Lookman, ainda na primeira parte, foi suficiente para garantir a vitória das Águias Verdes.

A CAMINHADA ANGOLANA

Gilberto Gelson Dala e Show ao serviço da seleção angolana
Fonte: CAF

A campanha de Angola nesta CAN foi fantástica e marcada por um empate, três vitórias e uma derrota (quando, até então, o registo era de quatro vitórias no total das outras oito participações), mas a caminhada começa muito antes.

Num grupo de qualificação com Gana, República Centro-Africana e Madagáscar, a seleção angolana orientada pelo português Pedro Gonçalves garantiu o segundo lugar, atrás do Gana. Graças a um muito meritório registo de duas vitórias, três empates e outras duas derrotas, Angola contabilizou nove pontos, garantindo, assim, a sua nona presença na fase final do Campeonato Africano das Nações.

Olhar para esta Angola é olhar para uma equipa, acima de tudo, bem trabalhada. Processos simples, sem grande elaboração nas jogadas e bem ciente das suas limitações, Pedro Gonçalves transformou a habitual anarquia numa organização (quase) de excelência. Do ponto de vista defensivo, e apesar de algumas falhas individuais, o teste foi passado com distinção. As limitações dos Palancas Negras notaram-se, sobretudo, no processo ofensivo. Sem espaço para aproveitar a velocidade de Gilberto e Dala nos contra-ataques, faltou criatividade e maior fluidez de jogo ao ataque angolano. Surpreendeu a pouca utilização do jovem Zito Luvumbo, figura do Cagliari.

Ainda assim, para a eternidade fica a melhor prestação angolana de sempre na prova, até hoje. Pela terceira vez, os quartos de final foram alcançados, mas o histórico registo de vitórias torna o desempenho deste ano ainda mais especial.

O percurso começou com um empate perante a forte seleção da Argélia, uma das desilusões da competição. Seguiram-se duas vitórias importantes na fase de grupos (Mauritânia e Burkina Faso) e, com isso, a passagem com distinção (1.º lugar) aos oitavos de final. Na fase a eliminar, perante a Namíbia, ficou registada a maior vitória de sempre de Angola no Campeonato Africano das Nações. Um 3-0 que não deixou margem para dúvidas quanto à melhor formação em campo.

Gelson Dala, Fredy e Mabululu foram as três grandes figuras da equipa angolana. O ex-Sporting foi o melhor marcador da sua seleção e aproveitou o torneio para se valorizar. Fredy, capitão e peça fundamental no meio-campo a três dos Palancas Negras, assumiu-se como o maestro da equipa. Mabululu, que não marcava pela seleção desde 2019, acabou a CAN com três golos apontados e logo abaixo a Gelson Dala na tabela dos melhores marcadores.

Contudo, a figura maior foi mesmo o treinador. Ricardo Gonçalves, que em 2021 ameaçou bater com a porta devido a sete meses de salários em atraso, conseguiu superar todas as expetativas colocadas sobre a sua equipa (ainda que não fossem muito altas). Certamente, a prestação coletiva de Angola valorizou o técnico português.

O encontro com a Nigéria não trouxe motivos para sorrir aos angolanos, mas ninguém poderá apagar a imagem muito positiva deixada por uma seleção que, como deu a entender Pedro Gonçalves, sofreu bastante para chegar à Costa do Marfim. Do torneio, fica também a certeza de que há margem para melhorar.

Resta agora Cabo Verde, que vai medir forças com a também surpreendente África do Sul, como representante dos PALOP nesta CAN.

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