A transformação de uma equipa verde no Verdão

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Era um cenário antecipado e previsível. Os adeptos pareciam estar mentalizados para que viesse a acontecer o pior. E aconteceu. Mas doeu da mesma forma. O choro e a frustração tomou conta de cada adepto do Palmeiras, consumada que estava a descida de divisão do Verdão após o empate a um golo, consentido no fim por um jogador formado no clube (Vagner Love), no Rio de Janeiro, diante do Flamengo. A equipa, que em Julho de 2012 erguera a Copa do Brasil, era, quatro meses depois, “arrumada” para a Serie B, escrevendo-se uma das páginas mais negras do clube.

Outra coisa não seria de esperar para além do imediato regresso à Serie A, e assim aconteceu. Em 2014, após dominar a Serie B, conforme se esperaria, o Palmeiras voltou ao lugar que lhe pertence – à elite do futebol brasileiro. As coisas começaram bem, com um vitória em Criciúma conseguida entre os 83 e os 87 minutos, mas com o desenrolar do campeonato foi-se percebendo que este Palmeiras ainda não tinha a regularidade e a competitividade que fizeram deste um dos maiores clubes da América do Sul. A equipa “arrastou-se” e a época de regresso ao Brasileirão ficou marcada pela ausência de um fio de jogo, que se traduziu num “futebol ruim”, séries enormes de jogos sem vencer (chegaram a ser 10 os jogos sem triunfos, e nas últimas 6 partidas perdeu 5 e empatou 1) e uma goleada ante o Goiás (6-0) que feriu o orgulho da torcida Paulista. Tudo junto, um penoso 16º lugar que colocou a equipa à beira do precipício… outra vez.

O defeso foi, por isso, importante para se reflectir naquilo que se deveria fazer no clube, de forma a mudar-se a mentalidade dentro do balneário e estrutura, direccionando-os para um futuro baseado nos êxitos de um passado cada vez mais distante. Zé Roberto, figura incontornável do clube, fez mesmo um discurso motivacional que ficou famoso nas redes sociais, lembrando o simbolismo da “camisa” do clube paulista.

O início do campeonato deixou muito a desejar. É certo que se venceu o rival Corinthians no Arena Corinthians, mas, fora isso, a equipa não somou qualquer vitória nos primeiros seis jogos do campeonato, caindo para os últimos lugares da tabela, precisamente ao contrário daquilo que “torcida” e direcção desejariam. Cabeças teriam que rolar, e a primeira, como é apanágio no Brasil, é sempre a do treinador. Oswaldo Vieira foi logo afastado, e o efeito chicotada fez efeito: a equipa venceu o Flu no jogo comandado pelo interino Alberto Valentim, e para substituir o antigo técnico foi chamado Marcelo Oliveira, bicampeão pelo Cruzeiro. Isso mesmo, um treinador que aguentou estar no mesmo clube brasileiro durante duas épocas seguidas… e ter sucesso. Na estreia, não venceu o jogo, mas ganhou sinergia e união de um plantel descrente em si. A equipa superou-se e fez o Grémio, uma das equipas em melhor momento de forma no Brasileirão, suar imenso para sair da Arena Grémio com os três pontos.

A partir daqui a confiança cresceu e os resultados são muitíssimo animadores. O Verdão recebeu o rival São Paulo no seu reduto e goleou-o sem apelo nem agravo por 4-0, naquela que foi uma das maiores goleadas de sempre da história do célebre “Choque Rei” – há 16 anos que não se verificava um desnível tão grande no placard do jogo entre as duas equipas e há 23 que o Palmeiras não vencia por estes números. A euforia tomou conta dos adeptos e da equipa, que venceu e dominou os jogos seguintes: bateu o Chapecoense e o Ponte Preta (fora de portas, com a maioria dos seus adeptos na bancada) por 2-0.

Marcelo Oliveira pode ter papel preponderante na ansiada mudança do Palmeiras Fonte: Facebook do Palmeiras
Marcelo Oliveira pode ter papel preponderante na ansiada mudança do Palmeiras
Fonte: Facebook do Palmeiras

À superfície, esta mudança de resultados pode parecer fruto de um mero aspecto motivacional, mas Marcelo Oliveira não injetou só doses de confiança nas suas tropas. Alterou a forma como a equipa se desdobra no ataque, passando Rafael Marques para uma cena menos de referência, entregando esse papel a Leandro Pereira, e manteve Dudu, peça fundamental desde o início do campeonato; a nível defensivo, o duplo pivô Gabriel-Arouca é agora muito melhor auxiliado pelas descidas de Robinho (um falso “10”, que sabe defender). Isto faz toda a diferença, pois Arouca (sobretudo) também se integra muito bem no ataque, dotando a equipa não só de maior rigor posicional, como também de eficiência ofensiva.

Ainda é cedo para se tirarem conclusões sobre o maior responsável da inversão de resultados do Palmeiras – efeito chicotada psicológica por oposição ao táctico – ,mas uma coisa é certa: Marcelo Oliveira parece ser o treinador certo para o clube e… para o futebol brasileiro (que colecciona mudanças de treinadores como não se vê em mais nenhum campeonato no mundo!). Um treinador que sabe lidar com a instabilidade e, sobretudo, instalar a segurança no longo prazo.

O treinador que pode, definitivamente, tornar uma equipa verdinha no… Verdão, e mostrar ao futebol brasileiro que a chave do sucesso pode estar na estabilidade.

Foto de Capa: Facebook do Palmeiras

Pedro Machado
Pedro Machado
Enquanto a França se sagrava campeã do mundo de futebol em casa, o pequeno Pedro já devorava as letras dos jornais desportivos nacionais, começando a nascer dentro dele duas paixões, o futebol e a escrita, que ainda não cessaram de crescer.                                                                                                                                                 O Pedro não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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