Última horaEm Portugal, as listas são horizontais, em Espanha, são verticais: o Real Bétis também é uma escola de extremos (e Souleymane Faye passou por lá)
Publicidade

Quando o Maracanã era o ex-libris do Brasil

Daniel Melo · 3 min

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

brasileirao

Sim, decerto que o leitor compreendeu bem o título. Não querendo que o mesmo se transforme em blasfémia, vou, por ora, explicar o porquê de tal adjetivação.

Por falar em adjetivos, importa referir o porquê de o estádio se ter assim chamado. É que naquela zona da cidade do Rio de Janeiro habitavam muitos passarinhos, que os índios, outrora, chamaram maracanãs-guaçu, devido ao intenso barulho que faziam com as asas, fazendo lembrar um constante chocalho.

A construção do recinto começou em 1948. Mas antes houve vários retrocessos no projeto. Relembre-se que o Brasil já sabia que iria organizar o primeiro Mundial do pós-guerra. Era preciso dotar a capital – Brasília ainda nem sequer era sonhada – de um grande estádio. Muitos criticaram o projeto, concebido inicialmente para albergar cerca de 150 mil almas. Os mais céticos consideravam esta uma estrutura faraónica, impossível de sair do papel, mesmo pelos arquitetos e engenheiros mais megalómanos. Mas o que é certo é que, dois anos depois, com a ajuda de apenas 1500 trabalhadores (a que se vieram juntar mais 2000 nos meses finais), o Maracanã ficou pronto. Ressalve-se que, depois disso, levou várias obras de melhoramento, mas estava pronto para receber a Copa que se avizinhava. O Maracanã era, oficialmente, o maior recinto desportivo do mundo.

Por certo, o mais atento leitor também já deve ter reparado que o Estádio do Maracanã tem o nome oficial do Jornalista Mário Filho. Nada melhor do que homenagear um dos grandes defensores do projeto de papel para a realidade e igualmente um dos melhores homens da imprensa e das letras brasileiras do século XX.

Tudo estava pronto. A inauguração aconteceu ainda em junho, dia 16, de 1950. Seleções carioca e paulista jogaram entre si, e a sorte sorriu aos visitantes: 3-1 foi o placard final. Mas o melhor (ou pior) ainda estava para vir. No Mundial, os canarinhos jogaram cinco de seis partidas naquele anfiteatro – à época, havia muito menos estádios e também menos possibilidades de viagem. O primeiro jogo deu 4-0 para o Brasil sobre o México. Mas não foi nem esse nem os outros três que ficaram mais conhecidos. Quando os brasileiros precisavam apenas de um empate para se sagrarem (pela primeira vez) campeões do mundo, eis que o Uruguai venceu 2-1. Ainda por cima a perder por 1-0 quase até ao fim. Duzentas mil pessoas – sim, leu bem – o maior público de sempre no querido Maraca, viram um desastre a que os bicampeões do mundo uruguaios chamariam Maracanazo. A lenda duraria. Mas o Brasil aprendeu a lição. Nunca mais jogou de branco e a partir daí tornou-se a seleção mais titulada em Mundiais. Superstições.

A primeira página do jornal “Mundo Esportivo”, aquando da derrota em 1950 Fonte: impedimento.org
A primeira página do jornal “Mundo Esportivo”, aquando da derrota em 1950
Fonte: impedimento.org

As décadas seguintes seriam do Botafogo de Garrincha, do Fluminense de Rivelino, e depois do Flamengo de Zico, o melhor artilheiro (ainda) daquele estádio. O Vasco da Gama também ganhou muitos triunfos com Roberto Dinamite ao comando. O estádio Jornalista Mário Filho voltou a receber o Mundial, em 2014. Agora com obras e uma redução para 78 mil lugares. Já não tem aquela magia e encanto. Com dois anéis e um peão. O célebre peão, onde as pessoas, como o nome indica, ficavam de pé. Onde se vê a alegria dos anos 70 e 80. Era menos confortável. Mas todos podiam ver o jogo. Talvez ferido no orgulho, o Maraca nem se dignou a receber o Brasil na final. Porventura já estivesse à espera de outro Maracanazo. Aconteceu algo bem pior em terras mineiras. Mas é melhor nem lembrar. Para o ano, o Maracanã será o palco principal do futebol nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Será agora que a seleção do Brasil quebrará o enguiço de não vencer uma medalha de ouro nas Olimpíadas? O Maracanã lá estará para responder, sempre alegre e sorridente, pensando: “tens uma dívida para me saldar. Já lá vão mais de 60 anos. E que tal se for agora?”.

Foto de Capa: culturaeviagem.wordpress.com

Daniel Melo

Redação Bola na Rede · ver artigos

Continua a ler

as mais recentes
Opinião

Em Portugal, as listas são horizontais, em Espanha, são verticais: o Real Bétis também é uma escola de extremos (e Souleymane Faye passou por lá)

SEVILHA, ESPANHA- Ao pensarmos em escolas de formação, com a sua especialidade em extremos, o nosso cérebro vai pensar automaticamente no Sporting. Cristiano Ronaldo, Nani, Simão Sabrosa e Ricardo Quaresma são o expoente máximo de craques saídos da cantera do emblema do José de Alvalade, capazes de fazer magia a partir da linha, procurando espaços interiores ou dando profundidade nas zonas exteriores, aliando-se ao lateral. Nos últimos anos, Espanha assumiu-se como o país protagonista no futebol, não apenas nos seniores, mas também na formação. As academias ganharam um papel importante no desenvolvimento do desporto rei desde a viragem do século, com vários emblemas a apostarem na manutenção e criação de infraestruturas para que os atletas possam atingir os níveis máximos. As conquistas do Euro 2024 e do Mundial 2026 provam este ponto. São a cereja no topo do bolo de um processo que obviamente não se construiu de um dia para o outro.

Ricardo João Lopes · 7 min de leitura
Ler a crónica
Opinião

Denílson no Real Bétis: o brasileiro que encantou Manuel Lopera e que chegou a deter o título de jogador mais caro da história

SEVILHA, ESPANHA- Em 1997, o mundo preparava-se já para a viragem do século, com todos os países do mundo ocidental a procurarem a modernização e o protagonismo global. No futebol, não era distinto. Vivíamos os primeiros anos da Premier League, que procurava destronar a Serie A como o campeonato mais poderoso do mundo. Os ingleses tinham dinheiro e queriam a maior audiência possível, proporcionando assim ao espetador os melhores encontros possíveis. Era uma batalha entre poderosos, que hoje em dia é quase inimaginável. Em Espanha, a La Liga tinha uma boa cotação, mas ainda não estava no mesmo patamar que as suas congéneres. No entanto, o caminho traçado era claro. Ainda em 1990, o governo espanhol, farto de ver os clubes a gerarem prejuízos dantescos, criou a Ley del Deporte, que levava a que os clubes profissionais criassem uma Sociedade Anónima Desportiva. A partir desse momento, as instituições também passavam a ser empresas. Os únicos que escaparam a isto (por terem fechado as contas no positivo)? Barcelona, Real Madrid, Athletic e Osasuna. Presentemente, estes quatro emblemas continuam a pertencer aos sócios.

Ricardo João Lopes · 7 min de leitura
Ler a crónica

Newsletter Bola na Rede

Estamos a preparar a newsletter do Bola na Rede. Deixa o teu email e és dos primeiros a recebê-la. Sem spam.

Feito. Ficas na lista e avisamos-te quando arrancar.