Quando o Maracanã era o ex-libris do Brasil

- Advertisement -

brasileirao

Sim, decerto que o leitor compreendeu bem o título. Não querendo que o mesmo se transforme em blasfémia, vou, por ora, explicar o porquê de tal adjetivação.

Por falar em adjetivos, importa referir o porquê de o estádio se ter assim chamado. É que naquela zona da cidade do Rio de Janeiro habitavam muitos passarinhos, que os índios, outrora, chamaram maracanãs-guaçu, devido ao intenso barulho que faziam com as asas, fazendo lembrar um constante chocalho.

A construção do recinto começou em 1948. Mas antes houve vários retrocessos no projeto. Relembre-se que o Brasil já sabia que iria organizar o primeiro Mundial do pós-guerra. Era preciso dotar a capital – Brasília ainda nem sequer era sonhada – de um grande estádio. Muitos criticaram o projeto, concebido inicialmente para albergar cerca de 150 mil almas. Os mais céticos consideravam esta uma estrutura faraónica, impossível de sair do papel, mesmo pelos arquitetos e engenheiros mais megalómanos. Mas o que é certo é que, dois anos depois, com a ajuda de apenas 1500 trabalhadores (a que se vieram juntar mais 2000 nos meses finais), o Maracanã ficou pronto. Ressalve-se que, depois disso, levou várias obras de melhoramento, mas estava pronto para receber a Copa que se avizinhava. O Maracanã era, oficialmente, o maior recinto desportivo do mundo.

Por certo, o mais atento leitor também já deve ter reparado que o Estádio do Maracanã tem o nome oficial do Jornalista Mário Filho. Nada melhor do que homenagear um dos grandes defensores do projeto de papel para a realidade e igualmente um dos melhores homens da imprensa e das letras brasileiras do século XX.

Tudo estava pronto. A inauguração aconteceu ainda em junho, dia 16, de 1950. Seleções carioca e paulista jogaram entre si, e a sorte sorriu aos visitantes: 3-1 foi o placard final. Mas o melhor (ou pior) ainda estava para vir. No Mundial, os canarinhos jogaram cinco de seis partidas naquele anfiteatro – à época, havia muito menos estádios e também menos possibilidades de viagem. O primeiro jogo deu 4-0 para o Brasil sobre o México. Mas não foi nem esse nem os outros três que ficaram mais conhecidos. Quando os brasileiros precisavam apenas de um empate para se sagrarem (pela primeira vez) campeões do mundo, eis que o Uruguai venceu 2-1. Ainda por cima a perder por 1-0 quase até ao fim. Duzentas mil pessoas – sim, leu bem – o maior público de sempre no querido Maraca, viram um desastre a que os bicampeões do mundo uruguaios chamariam Maracanazo. A lenda duraria. Mas o Brasil aprendeu a lição. Nunca mais jogou de branco e a partir daí tornou-se a seleção mais titulada em Mundiais. Superstições.

A primeira página do jornal “Mundo Esportivo”, aquando da derrota em 1950 Fonte: impedimento.org
A primeira página do jornal “Mundo Esportivo”, aquando da derrota em 1950
Fonte: impedimento.org

As décadas seguintes seriam do Botafogo de Garrincha, do Fluminense de Rivelino, e depois do Flamengo de Zico, o melhor artilheiro (ainda) daquele estádio. O Vasco da Gama também ganhou muitos triunfos com Roberto Dinamite ao comando. O estádio Jornalista Mário Filho voltou a receber o Mundial, em 2014. Agora com obras e uma redução para 78 mil lugares. Já não tem aquela magia e encanto. Com dois anéis e um peão. O célebre peão, onde as pessoas, como o nome indica, ficavam de pé. Onde se vê a alegria dos anos 70 e 80. Era menos confortável. Mas todos podiam ver o jogo. Talvez ferido no orgulho, o Maraca nem se dignou a receber o Brasil na final. Porventura já estivesse à espera de outro Maracanazo. Aconteceu algo bem pior em terras mineiras. Mas é melhor nem lembrar. Para o ano, o Maracanã será o palco principal do futebol nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Será agora que a seleção do Brasil quebrará o enguiço de não vencer uma medalha de ouro nas Olimpíadas? O Maracanã lá estará para responder, sempre alegre e sorridente, pensando: “tens uma dívida para me saldar. Já lá vão mais de 60 anos. E que tal se for agora?”.

Foto de Capa: culturaeviagem.wordpress.com

Daniel Melo
Daniel Melohttp://www.bolanarede.pt
O Daniel Melo é por vezes leitor, por vezes crítico. Armado em intelectual cinéfilo com laivos artísticos. Jornalista quando quer. O desporto é mais uma das muitas escapatórias para o submundo. A sua lápide terá escrita a seguinte frase: "Aqui jaz um rapaz que tinha jeito para tudo, mas que nunca fez nada".                                                                                                                                                 O Daniel escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

Subscreve!

Artigos Populares

Ewerton e o resultado histórico na Luz: «Sabíamos que ia ser difícil, mas feliz também pela minha partida»

Werton analisou a estreia na Primeira Liga 2026/27. Benfica e Académico de Viseu defrontaram-se à porta fechada.

Tomás Araújo deixa apelo após o empate: «Acreditem em nós, que não vamos deixar cair isto»

Tomás Araújo analisou a estreia na Primeira Liga 2026/27. Benfica e Académico de Viseu defrontaram-se à porta fechada.

Gil Vicente bate o Rio Ave nos minutos finais da estreia oficial de Luís Pinto

O Gil Vicente venceu o Rio Ave por 1-0, num encontro relativo à primeira jornada da Primeira Liga. Visitantes terminaram o jogo com 10 elementos.

Braga deixa vitória escapar na visita ao terreno do Moreirense

Na jornada inaugural da Primeira Liga, o Braga empatou a dois golos com o Moreirense em Moreira de Cónegos.

PUB

Mais Artigos Populares

Sem adeptos nas bancadas, sem resultado em campo: Benfica empata com o regressado Académico de Viseu e arranca Primeira Liga com empate

Benfica e Académico de Viseu defrontaram-se na 1.ª jornada. Sem adeptos no estádio, águias tropeçaram e acabaram por empatar.

Bola parada volta a resolver e André Clóvis marca e empata o Benfica x Académico de Viseu

Novo golo dos viseenses, nova bola parada, desta vez com conclusão de André Clóvis. Benfica e Académico de Viseu defrontam-se na 1.ª jornada.

Gianluca Prestianni marca golaço e devolve vantagem ao Benfica menos de 3 minutos depois do empate do Académico de Viseu

Esteve pouco tempo empatado o jogo graças a Gianluca Prestianni. Benfica e Académico de Viseu defrontam-se na 1.ª jornada.