A ascensão meteórica do Bodo/Glimt na Europa

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Há histórias no futebol que parecem escritas com recurso à imaginação. A do Bodo/Glimt, porém, é bem real, e talvez por isso ainda mais extraordinária. Falamos de um clube sediado numa cidade com pouco mais de 50 mil habitantes, acima do Círculo Polar Ártico, onde o inverno domina grande parte do calendário e onde o Aspmyra Stadion, a sua casa, acolhe menos de 10 mil espectadores. Um cenário improvável para o nascimento de um fenómeno europeu.

E, no entanto, foi precisamente dali que emergiu uma das mais belas narrativas recentes do futebol continental.

O Bodo/Glimt tornou-se a primeira equipa da Noruega a atingir as meias-finais de uma competição europeia, na Liga Europa da época transacta. A caminhada terminou apenas diante do Tottenham, que viria a conquistar o troféu, mas não sem antes os noruegueses deixarem a sua marca de forma indelével.

Pelo caminho ficaram adversários com tradição, orçamento e experiência muito superiores. O Olympiacos foi eliminado com autoridade. A Lazio caiu numa eliminatória dramática, resolvida apenas na marcação das grandes penalidades, um duelo que simbolizou na perfeição a resiliência competitiva desta equipa improvável.

Um crescimento sustentado de uma equipa que primeiro começou por acabar com o domínio avassalador do Rosenborg na liga doméstica, e que agora começa a conquistar a Europa.

O mais fascinante desta campanha na Champions League é que esta esteve perto de nem sequer acontecer. À sexta jornada da fase de grupos, o Bodo/Glimt somava apenas três pontos e nenhuma vitória. A inexperiência e o peso da primeira participação na prova milionária, parecia cobrar o seu preço, e a eliminação era um cenário praticamente inevitável.

Mas o futebol, por vezes, reserva espaço para o improvável. Os noruegueses precisavam de algo próximo de um milagre: vencer o Manchester City em casa e, depois, pontuar em Madrid frente ao Atlético. Contra todas as previsões, conseguiram-no. 

A vitória sobre os ingleses reacendeu a esperança e devolveu crença a uma equipa que nunca deixou de jogar com identidade. Em ambos os encontros, Kasper Høgh e Jens Petter Hauge assumiram protagonismo, assinando golos decisivos que alimentaram a reviravolta europeia.

Nada disto acontece por acaso. Desde 2018, o Bodo/Glimt tem sido moldado por Kjetil Knutsen, o arquiteto silencioso de uma das revoluções mais consistentes do futebol escandinavo.

Foi sob o seu comando que o clube conquistou, em 2020, o primeiro campeonato norueguês da sua história, quebrando décadas de hegemonias tradicionais. Desde então, somou quatro títulos nacionais, todos com Knutsen ao leme, e esteve muito perto de alcançar um novo título na época passada, perdido por apenas um ponto para o Viking.

Mais do que resultados, o treinador implementou uma cultura: futebol ofensivo, intensidade sem bola, coragem tática e uma capacidade notável de potenciar jogadores fora do radar dos grandes mercados. Um plantel maioritariamente constituído por jogadores noruegueses, que têm crescido muito competitivamente.

O contraste entre meios e rendimento impressiona. O plantel do Bodo/Glimt está avaliado em pouco mais de 57 milhões de euros, um valor modesto no contexto europeu e irrisório quando comparado com muitos dos seus adversários.

Não são favoritos no play-off de apuramento para os oitavos de final contra o Inter de Milão, uma equipa que tem tido grandes prestações nesta prova, tendo sido finalistas na última edição, embora tenham sido literalmente “esmagados” pelos franceses do PSG, sofrendo uma derrota muito pesada e de contornos históricos por 5-0. 

Os noruegueses sabem que são outsiders nesta eliminatória, mas também sabem que não têm nada a perder e tudo a ganhar. Estão nesta fase da prova numa altura em que muitos (e se calhar os próprios jogadores) já não acreditavam ser possível, e a histórica noite de quarta-feira ainda trouxe mais magia à caminhada do Bodo/Glimt.

A equipa norueguesa compete com uma clareza de processos que muitos clubes mais ricos invejariam. A organização coletiva supera o talento individual, a dinâmica suplanta o estatuto, e o contexto adverso transforma-se numa vantagem emocional: quem joga em Bodo sabe que vão jogar num relvado sintético e que acima de tudo, ali o futebol é vivido como resistência cultural tanto quanto como competição.

Num futebol cada vez mais dominado por orçamentos gigantescos, multipropriedades e previsibilidade competitiva, o Bodo/Glimt surge como uma lufada de ar fresco. Não é apenas uma “história bonita”; é um lembrete de que o jogo continua a permitir rupturas.

A equipa do Ártico provou que identidade, continuidade técnica e coragem estratégica podem reduzir distâncias aparentemente intransponíveis. Que um estádio modesto pode receber noites europeias memoráveis. E que uma cidade pequena pode fazer ecoar o seu nome por todo o continente.

O Bodo/Glimt não venceu nenhuma competição europeia. Mas conquistou algo talvez mais raro: respeito universal e um lugar no imaginário do futebol moderno, aquele onde ainda sobrevivem os milagres.

Tiago Campos
Tiago Campos
O Tiago Campos tem um mestrado em Comunicação Estratégica mas sempre foi um grande apaixonado pelo jornalismo desportivo, estando a perseguir agora esse sonho. Fã acérrimo do "Joga Bonito".

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