2016 – O ano da morte do tiki-taka

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“Tratam-nos como se fôssemos um grande, mas ainda não o somos”, lamentava (ainda que com algum orgulho) Quique Setién, treinador do Las Palmas, depois de perder por 1-0 frente ao Atlético de Madrid. Dito de outra forma: o Atlético deixou que o Las Palmas fizesse as suas bonitas, longas e trabalhadas trocas de bola, enquanto tratou de ganhar o jogo precisando apenas de ter o esférico durante 31% do tempo, mesmo jogando em casa.

Foram anos bonitos estes do domínio do tiki-taka, que começou a ser germinado nas conquistas europeias do Ajax de Johan Cruyff, nos anos 70. Cruyff alargou depois a sua influência enquanto treinador do Barcelona, clube onde o tiki-taka viria mais tarde a atingir o seu máximo esplendor, sob o comando técnico de Guardiola. Foram anos de domínio do Barcelona e da seleção espanhola, (acabando até por contagiar a seleção alemã), mas que acabaram agora. 2016 foi o ano da morte de Johan Cruyff e foi também o ano da morte do tiki-taka.

Aquele futebol de sonho foi vencido pela realidade do futebol pragmático. Mourinho, no Inter, foi um dos primeiros rebeldes a fazer frente ao estilo de futebol imposto a partir da Catalunha, mas acabaria esmagado pelo 5-0 da sua primeira visita ao Camp Nou com o Real Madrid, de que nunca se recompôs.  Foi preciso esperar uns anos mais para aparecer o Comandante Simeone a liderar a revolta contra o tiki-taka. Já tinha conseguido o extraordinário feito de ser campeão de Espanha com o Atlético, mas a estocada final no tiki-taka foi dada este ano, quando eliminou o Barcelona e o Bayern de Munique da Liga dos Campeões, em duas eliminatórias em que o contraste de estilos não podia ser mais evidente.

Quique Setién, treinador do Las Palmas, em conferência de imprensa Fonte: U. D. Las Palmas
Quique Setién, treinador do Las Palmas, em conferência de imprensa
Fonte: U. D. Las Palmas

Quique Setién diz que, ao conceder-lhes a posse de bola e a iniciativa do jogo, o Atlético tratou o Las Palmas como grande. É um pouco a lógica que os adeptos do Barcelona seguem quando acusam o Real Madrid de jogar como equipa pequena nos clássicos, mas todos sabemos que o fazem porque, na realidade, temem os estragos que Bale e Ronaldo são capazes de fazer com 50 metros de terreno para explorar no contra-ataque. O Las Palmas bem que preferia que o Atlético tivesse jogado mais como equipa grande, mas Simeone quer é saber de ganhar e não de preconceitos sobre como cada equipa deve jogar. Em alguns jogos, é preferível ter a bola 30% do tempo, mas com espaço para jogar, do que passar 70% do jogo a tentar furar uma defesa de 11 jogadores, todos num curto espaço de terreno. Claro que, quando se tem um Messi capaz de fintar quatro adversários dentro de uma cabine telefónica, as debilidades do moribundo tiki-taka vão sendo disfarçadas. Mas confiem em mim: o tiki-taka morreu.

Nestes novos tempos, teremos de rever o que significa jogar como um grande. É que, além do Atlético, que até acabou por não ganhar nada, vimos o Leicester e a seleção portuguesa serem grandes com estilos que Cruyff não aprovaria. Vimos o Real Madrid, com o seu gosto pelos ataques rápidos, ser campeão da Europa e do Mundo. E, para ser honesto, até o Barcelona já faz uns contra-ataques e dá uns chutos para a frente, de vez em quando. Um dia veremos Guardiola render-se ao contra-ataque. Isso se não quiser terminar como a banda do Titanic.

 Foto de capa: Club Atlético Madrid

Eduardo Botelho
Eduardo Botelhohttp://www.bolanarede.pt
Se os passes de letra existissem literalmente, o Eduardo talvez tivesse dado jogador de futebol. Assim, limita-se às reviengas literárias. A viver em Barcelona, tem vista privilegiada para a melhor liga do mundo.                                                                                                                                                 O Eduardo escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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