O fim da seca de Nick Woltemade

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No Nordeste da Albion já se coçavam alguns queixos. Na comunicação social já especulava sobre as reais capacidades do gigante alemão.  Dada a natureza da estatística, não seria de espantar: Nick Woltemade, recrutado em Estugarda por 75 milhões, não fazia golos desde 20 de dezembro ou, melhor pondo, há 14 jogos.

A queda abrupta de rendimento divergia completamente da chegada triunfal do alemão ao St James Park, quando marcara cinco vezes nas primeiras seis aparições. Mas mesmo antes dessa fatídica pelada em dezembro, quando bisara ao Chelsea, já as coisas não andavam bem: Woltemade decidiu, uma semana antes, o derby de Tyne-Wear, frente ao Sunderland, com um espectacular… auto-golo, dando a vitória aos rivais Black Cats. Desde aí, só seis titularidades, que Wissa, a outra contratação para tentar colmatar a saída de Isak, voltava de lesão e permitia descanso ao alemão. Mas, como ele, a mesma inoperância como último homem. Problemas do sistema de Eddie Howe?

Antes da recente vitória frente ao Tottenham que pôs fim a série de cinco jogos sem ganhar para os Magpies, Eddie Howe admitia à BBC que o ataque ainda não tinha «funcionado em pleno», porém ressalvando: «O Nick tem feito tudo com uma grande atitude. Isso para mim é o essencial, porque significa que vai continuar a ter sucesso».

E se quisermos a perspectiva do atleta recém-chegado sobre a adaptação ao projecto, temo-la assinada por Anthony Gordon que não se coibiu de comentar o assunto. «Levei algum tempo a ajustar-me à maneira como jogamos quando cheguei, percebo perfeitamente a posição em que eles estão» referindo-se a Woltemade e Wissa, e sem descurar a qualidade dos novos colegas, já que é tudo uma questão tática. «Estou solidário, é difícil interiorizar o nosso processo, mas quanto mais jogo com eles, mais me vou habituando aos movimentos deles e tentando adaptar o meu jogo de acordo com o melhor para eles e para a equipa». [1]

Com nove golos em 37 jogos cumpridos até agora, Woltemade começava a parecer um corpo estranho na máquina de Howe. Os 198 centímetros de altura criavam a ilusão de homem-de-área, mas rapidamente perceberam que é no associativismo entre-linhas, no toque e no passe curto que o alemão mais se evidencia. O 4-3-3 cooperativista de Eddie Howe, eficazmente programado para a transição e construído tendo em conta Alexandr Isak como último homem, não estava a deixar Woltemade respirar.

Em Estugarda, Hoeness utilizava-o como ponto de ligação entre Stiller e Undav ou Demirovic, em lógica de 4-4-2, com Millot e Leweling a darem amplitude. Nas margens do rio Tyne, num Nordeste inglês muito apegado à ideia do futebol ‘eléctrico’, de pressão e intensidade máximas, Woltemade surgia muitas vezes abandonado na frente, sempre em contra-pé e desencontrado dos velocistas como Gordon e Barnes e do intransponível meio-campo de combate.

Chegado mesmo em cima da janela de transferências, o ímpeto da novidade deu-lhe balanço para entrar de rompante, com golos na jornada quatro, seis, sete e oito, mais golos na Liga dos Campeões – marcou na goleada em casa do Saint-Gilloise – e nas primeiras rondas da Carabao. Quando parou de marcar em dezembro, a fase má coincidiu com a do colectivo: na série de 14 jogos sem marcar, o Newcastle não ganhou nove.

Não havia momento ideal para regressar aos bons tempos. Quanto mais rápido, melhor. Mas e se o fim do jejum coincidisse com o 24.º aniversário do pequeno Nick, com uma categórica vitória no Villa Park para passar à próxima ronda da Taça de Inglaterra? Quantos incautos, bem preparados na pesquisa dado o histórico recente das duas equipas, viram as suas apostas ir ao ar? Howe sobrepôs-se a Emery, o Newcastle teve traquejo para ultrapassar um confiante Aston Villa e Woltemade voltou aos golos, num jogo que apareceu muito mais recuado do que habitualmente, dando uso à sua capacidade técnica. O momento eureka da época Magpie?

«Penso que ele foi muito, muito bom, com bola, sem bola, premiado com um grande golo» reagiu Howe no rescaldo. «A atitude dele perante o que nós lhe temos pedido nas últimas semanas, enquanto o estivemos a treinar numa posição diferente, foi fantástica.»

Qual é a melhor posição para ele então, senhor Eddie? «Eu sabia que a sua melhor produção era feita mais baixo no terreno, vindo em apoio para ligação. Uma das razões pela quais o quisemos contratar foi a sua habilidade técnica, além de muitas outras qualidades que ele tem. Então mesmo quando jogava como ‘9’ nós incentivávamos a descer, a vir atrás. Hoje começou mais recuado. Não há grande diferença, mas jogando e partindo dessa posição terá mais responsabilidades defensivas e é aí que eu o devo elogiar mais porque percebeu o que a equipa precisava.[2]»

E assim, uma momentânea harmonia a St James Park, dissipando-se algumas dúvidas e acalmando-se as vozes da crítica. Depois de um Janeiro complicado para jogador e clube, com algumas notícias a dar conta dum eventual interesse do Bayern e do Borussia Dortmund em fazer regressar Woltemade à terra natal – e em saldos, aproveitando mau momento… – a esperança volta para uma segunda metade de temporada mais positiva, com uma recta final de época semelhante ao seu início. No Dia de São Valentim, Woltemade soprou as velas e reconciliou-se com a estatística, fazendo a bola beijar as redes.

Próximos capítulos? O play-off com o Qarabag e uma visita ao Etihad para fechar o mês!  


[1] Citações retiradas, em tradução livre, de https://www.bbc.com/sport/football/articles/cdxg63vn67vo   https://www.bbc.com/sport/football/articles/c4gw4d871l0o

[2] https://www.newcastleworld.com/sport/football/newcastle-united/newcastle-united-news-eddie-howe-nick-woltemade-5598735

Pedro Cantoneiro
Pedro Cantoneirohttp://www.bolanarede.pt
Adepto da discussão futebolística pós-refeição e da cultura de esplanada, de opinião que o futebol é a arte suprema.

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