Wenger: O orgulho paga-se caro

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Depois de 22 temporadas com Arsène Wenger, o Arsenal prepara-se para mudar de técnico. O anúncio recente da saída do treinador francês motivou uma onda de elogios e homenagens por parte de imprensa, treinadores e jogadores, mas a verdade é que Wenger já devia ter abandonado os Gunners há vários anos.

Depois de 10 temporadas bem-sucedidas ao serviço dos londrinos, entre 1996 e 2006, onde conquistou vários títulos, Wenger e o Arsenal entraram em declínio. Com a construção do novo estádio, o Emirates, os Gunners iniciavam uma política de contenção de gastos, e, numa altura em que a Premier League estava cada vez mais competitiva, com grandes investimentos, e novos clubes a lutarem pelo campeonato, como o Chelsea, isso fez com que o Arsenal se distanciasse do topo do futebol inglês.

No entanto, não foi imediatamente após a perda do domínio do futebol em Inglaterra que a estadia de Wenger no clube deixou de fazer sentido. Durante várias temporadas, desde a final da Liga dos Campeões perdida em 2006, e até cerca de 2013, o técnico francês teve a oportunidade de demonstrar a sua qualidade para formar e apostar em jovens jogadores. Ao contrário de outras equipas rivais, que acumularam transferências milionárias para melhorar os seus plantéis, o Arsenal preferiu ir lançando jogadores das camadas jovens na equipa principal, nunca gastando muito sempre que fazia uma contratação. Futebolistas como Ashley Cole, Fàbregas, ou Wilshere, foram todos apostas de Wenger, e, após serem lançados na equipa, acabaram por ter um impacto positivo.

Um dos grandes feitos de Wenger, neste período, foi a regularidade de resultados que obteve. Mesmo não conquistando títulos, o Arsenal continuou sempre a terminar a Premier League nos quatro primeiros, e a qualificar-se para a Liga dos Campeões. Com um plantel inexperiente, e inferior ao de outros clubes de topo ingleses, os Gunners mantiveram o crescimento sob o projeto a longo prazo do seu treinador: poupar dinheiro, e esperar alguns anos até que, com uma equipa de jovens, se tornassem fortes o suficiente para voltar a ganhar troféus.

O grande problema do Arsenal foi que isso nunca aconteceu. Para além das equipas dos Gunners nunca terem chegado a ter a consistência dos primeiros anos de Wenger, houve também alguma displicência no tratamento de jogadores-chave. Deixar sair futebolistas importantes para clubes rivais, como Sagna, Nasri, Ashley Cole, ou Van Persie, por exemplo, foi um dos maiores erros de gestão do emblema londrino.

Wilshere foi um dos jogadores das camadas jovens lançado por Wenger
Fonte: Arsenal FC

A partir de 2013, com o novo estádio já pago por completo, o Arsenal deixou de ter justificações para o seu insucesso. Havia dinheiro para contratações, existiam grandes lacunas no plantel. Wenger apercebeu-se disso, mas, pela primeira vez, mostrou alguma arrogância na sua gestão da equipa. O francês decidiu ceder em parte aos pedidos dos adeptos, e avançar para reforços sonantes, só que fê-lo à sua maneira. A contratação recorde de Mesut Ozil marca o início deste novo período do clube de Londres.

O jogador alemão é, por definição, um futebolista típico de Wenger. Se, noutras alturas, o francês encontrou um equilíbrio entre jogadores técnicos e outros mais físicos e defensivos, desta vez, quando pressionado pela massa adepta e pela imprensa, Arsène recusou-se a mudar a sua abordagem: o Arsenal continuaria a jogar um futebol ofensivo e vistoso, construído quase exclusivamente com jogadores virtuosos mas pouco disponíveis para o estilo físico e agressivo da Premier League.

Tal ideia até podia resultar, desde que o plantel dos londrinos contasse com vários futebolistas de classe mundial. No entanto, em mais uma manifestação de egocentrismo, Wenger não aderiu totalmente à política de contratar grandes nomes, e reduziu os reforços do clube a um ou dois por época. A Ozil seguiram-se Welbeck, Alexis Sánchez, Cech, e, recentemente, Lacazette, Mhkitaryan e Aubameyang, e embora a equipa tenha ficado mais forte, foi ficando cada vez mais desequilibrada.

Feito à imagem de Wenger, o Arsenal atual é um conjunto que consegue praticar um futebol brilhante, mas que está desajustado da Premier League. Quando é preciso jogar de uma forma diferente à que o francês tem posto em prática desde que chegou a Londres, o Arsenal hesita, tem dificuldades, e costuma perder pontos.

Depois de oito anos sem troféus, os Gunners conquistaram, em 2014, a FA Cup, voltando a vencê-la em 2015 e 2017, para além de três Supertaças de Inglaterra. Estes títulos foram justificando a renovação do contrato de Wenger, algo vantajoso para a direção do clube, mais interessada nas receitas do que no sucesso desportivo.

Mas a arrogância acabou por isolá-lo de todos no Emirates: os adeptos estão cansados dos resultados, os jogadores deixaram de confiar nos seus métodos, os donos do clube precisam de um bode expiatório para os maus resultados.

Arsène Wenger fica na história do Arsenal por duas razões: na primeira metade do seu trajeto, levou o clube à sua fase mais bem-sucedida de sempre, na segunda, foi progressivamente arrastando-o para baixo com a sua inflexibilidade e recusa em encontrar alternativas para obter bons resultados.

A postura do técnico, que aparentemente foi forçado a demitir-se, é a de alguém que continua a não admitir os seus erros, perdendo toda a credibilidade ao querer ficar agarrado ao poder. Arsène Wenger achou que podia ser Ferguson, abandonar como campeão e provar a tudo e todos que estava certo. Mas não conseguiu, e sai do clube com o seu estatuto de lenda dos Gunners um pouco diminuído.

Foto de Capa: Arsenal FC

Artigo revisto por: Jorge Neves

Guilherme Malheiro
Guilherme Malheiro
É na música e no futebol que encontra a sua inspiração. Quando escreve, gosta de manter escondido o lado de adepto. Também gosta de ténis, snooker e boxe.                                                                                                                                                 O Guilherme não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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