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Bairrismo Sofisticado

André Eusébio · 3 min

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Se vamos falar da Bundesliga, podemos até nem começar pelo Bayern de Munique de Pep Guardiola. Os 3,31 golos marcados por jogo permitem considerar o campeonato alemão o melhor do Mundo. A Taxa de Ocupação assusta o adepto português e os índices de competitividade não se reflectem apenas nos 17 cartões vermelhos já exibidos. Calma! Não precisam de ir para o Münster Arkaden agredir árbitros.

Para além dos estádios a rebentar pelas costuras, dos resultados imprevisíveis e dos autênticos 90 minutos de jogo jogado, existe uma orgânica em torno de um espectáculo que mantém o equílibrio já há vários anos.

O factor económico é, indubitavelmente, o motor da Bundesliga: as grandes assistências são motivadas por preços razoavelmente acessíveis, ao cidadão alemão. Ainda assim, a influência demográfica terá naturalmente algum peso nas bancadas, não apenas por haver alemães à brava: na Alemanha existem várias cidades com mais habitantes do que Lisboa e – todas elas equipadas com as melhores infra-estruturas – são terreno fértil para germinar o espírito bairrista. Sim, um bairrismo sofisticado! Não se pode ignorar a história germânica nem o impacto que teve (e que continuará a ter) no desenvolvimento natural das cidades, dos grupos sociais e de outros conceitos de Max Weber, dos quais agora não me recordo. As razões históricas sustentam a paixão pelo nosso bairro, pela cidade em que se vive e esse sentimento é fortalecido pelas longas distâncias entre cidades, uma vez que um cidadão de Dortmund está a 600 km de Munique; distância perpetuada na injecção de pertença que se dá aos recéns-nascidos de Stuttgart e o mesmo acontece em Nürnberg. Por isso, o teu nome é Schweinsteiger, nasceste na Baviera e agora defende o teu bairro.

Westfalenstadion / Fonte: http://i.dailymail.co.uk
Westfalenstadion / Fonte: http://i.dailymail.co.uk

E se este modelo de reprodução social não chega, surge uma indústria televisiva alienada às receitas de bilheteira, a venda de merchandising abraçada ao patrocínio de Multinacionais. A Bundesliga é fortemente caracterizada pela publicidade enquanto fonte de rendimento para os clubes. Deutsche Telekom, Gazprom, Volkwagen, Emirates, Mercedes são algumas das marcas que escalam montanhas de dinheiro para colocar o nome ou numa camisola ou num estádio, exceptuando casos de compra directa, como a Allianz, ou até de fundação, como a Bayer.

Relativamente ao produto propriamente dito, isto é, a qualidade futebolística, esta tem evoluído ao longo dos tempos. Muito embora elogíe a macro-ciência do campeonato, consigo inclusive identificar erros vitais na gestão desportiva de alguns clubes alemães, que cegam ao olhar de frente para um Bayern: muitas contratações falhadas, jogadores desperdiçados e salários milionários que contradizem o culto pela racionalidade germânica. Porém, este handicap tem sido trabalhado através da aposta constante nos talentos nacionais que, antes dos 20 anos, já estão a ser projectados nas equipas principais, tendo a oportunidade de ser – uma vez mais – lançados na equipa nacional, que funciona paralelamente à performance dos clubes. Aliás, a selecção alemã só beneficia os clubes, valorizando potenciais jogadores e, portanto, atraindo colossos europeus.

Algumas equipas são ainda alimentadas com muitos jogadores estrangeiros no plantel, mas verifica-se a tendência descontínua para contratar no mercado externo ou – pelo menos – jogadores já ultrapassados e que auferem salários astronómicos. É claro que a equipa de Guardiola é um caso à parte e é um assunto que costuma gerar conversa entre mim e o meu avô, mas ficará para a próxima.

André Eusébio

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