A orfandade do Maracanã

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Já tinha escrito nesta casa sobre o maior e mais mítico estádio do Brasil. Num tempo em que, de facto, o Maracanã era o maior orgulho do Brasil. Um templo do futebol mundial. O ex-Libris da cidade (a par do Cristo Redentor, no Corcovado, obviamente). Agora está ao abandono. Mendigos, que não têm culpa nenhuma da situação, diga-se, roubam o que acham à volta do recinto: fio de cobre, objetos variados e agora até desapareceram duas estátuas também de cobre: uma delas que representa o busto do jornalista Mário Filho, que, de resto, dá o nome oficial ao Estádio. Foram ainda roubadas televisões e mangueiras.

Na vida, tudo está interligado. O governo do PT foi substituído, mas ficou provado que a corrupção não é só do PT. Aliás, até é mais dos outros partidos que o criticavam ferozmente e, até, de maneira desleal – falando com conhecimento de causa, mais uma vez, até porque o meu voto no Brasil é obrigatório – a destituição da presidente Dilma Rousseff é das maiores vergonhas da América Latina nos últimos largos anos.

Agora, foi a diretora do SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) a mandar os formados académicos fugir do Brasil, devido à situação caótica do país. Como vêem, o Partido dos Trabalhadores saiu do poder, mas nem por isso os problemas melhoraram ou foram solucionados.

Vi esta semana uma entrevista curtinha de Pedro Cardoso – um famoso ator brasileiro, que agora vive no nosso país. Desconhecia tal facto e fiquei surpreendido comigo mesmo, porque adoro o seu trabalho. Ele falou nas diferenças entre os dois países e disse algumas verdades, apesar de ele ser um privilegiado no meio disto. Ele disse que no Brasil é o salve-se quem puder. As pessoas querem ficar ricas para fugir ao trânsito, aos assaltos, à escola pública, enfim. Em Portugal, de uma maneira geral, algumas coisas públicas ainda funcionam, como a educação e a saúde. Veremos por quanto tempo. Porque acho que até isso vai ter um fim, infelizmente.

As bancadas têm agora a companhia de um enorme matagal Fonte: esportes.terra.com.br
As bancadas têm agora a companhia de um enorme matagal
Fonte: esportes.terra.com.br

Quando falo que o futebol brasileiro tem de mudar, é nestes aspetos: é saber tratar bem do património. Da cultura. A questão é que os governos, mas não só eles, como toda a sociedade civil no Brasil, como em Portugal, quer ser sempre melhor, não pelo esforço, mas pela trapaça. E a questão social, económica, e, sobretudo, cultural do país influencia e muito o desempenho desportivo de uma nação.

O Maracanã está órfão. O futebol no Brasil também parece estar, bem como o país em si. Estou a ser pessimista, mas só sendo assim é que podemos ver as coisas como elas são.

Não basta ter os melhores jogadores do mundo – porque o Brasil tem-nos de sobra –, é preciso ter mais: respeito pelo próximo e união. E isso, o Brasil parece ter cada vez menos.

Foto de Capa: O Globo

Artigo revisto por: Francisca Carvalho

Daniel Melo
Daniel Melohttp://www.bolanarede.pt
O Daniel Melo é por vezes leitor, por vezes crítico. Armado em intelectual cinéfilo com laivos artísticos. Jornalista quando quer. O desporto é mais uma das muitas escapatórias para o submundo. A sua lápide terá escrita a seguinte frase: "Aqui jaz um rapaz que tinha jeito para tudo, mas que nunca fez nada".                                                                                                                                                 O Daniel escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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