Feijoada à brasileira

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Bem-vindos, caros degustadores. Geração da comidinha gourmet onde um prato de “bacalhau au grão” leva apenas uma postinha fininha do peixe com bigodes das gélidas águas da Noruega, com um grão por cima. Geração do fast-food (ou fast- nothing?) que é só chegar, tirar, aquecer e já está. Mas o que aconteceu à preparação? Ao carinho? Ao convívio com os amigos? Eu explico.

Feijão preto. Deixa de molho. Mete as cervejas a gelar e ouve um samba. Pergunta como foi o dia dela. Ou como será… põe tudo em pratos limpos. Porque depois vai haver muita pratada para limpar. Serve uns aperitivos. Vai ver como está o feijão. Corta as carnes. Dá mais uma olhadela. A salada! Não esquecer os verdes. Arroz para um batalhão. Ouve um Caetano Veloso, ou Gilberto Gil ou Noel Rosa, sei lá. Convive. Como se o carpe diem ditasse as leis do condado que é a tua casa.

O Brasileirão de 2014 pode nem sair do papel. A ementa? Descida de divisão da Portuguesa de Desportos. O caldo está entornado (não o caldo do nosso feijão, mas o da legislação). Que grande confusão. Adicione a letargia da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) com uma pitada de apatia do STJD (Supremo Tribunal Judicial do Desporto). Deixe ferver. Agora adicione uma turba de adeptos irritados e cansados. Para finalizar mexa bem com a FIFA. Está tudo dito. O imbróglio continua. E o órgão máximo do futebol mundial poderá intervir.

Fluminense e Portuguesa – lados opostos da moeda Fonte: Portalfluminense.com.br
Fluminense e Portuguesa – lados opostos da moeda
Fonte: Portalfluminense.com.br

Vou fazer uma confissão. Os poucos que ainda têm a paciência de ler as atrocidades que aqui são escritas, devem saber que também possuo cidadania brasileira. Pois bem, certa vez, em Roma, precisei de usar os serviços do consulado da minha segunda nação. Chegado ao local, na famosa Piazza Navona (muito bonita, visitem), dei de caras com dois conterrâneos que diziam:

– Isso virou confusão à italiana?

O outro retorquiu:

– Pelos vistos já virou foi confusão à brasileira.

É bom sentir-me em casa. Estava explicado o espírito da coisa.

Bom, conviveram? Comeram, empanturraram e alambazaram-se de amor e carinho entre os amigos? Então agora vão ver o feijão. Deve estar quase pronto. Quentinho e gostoso. Sirvam bem servido, que a comida é para ser toda dizimada. Dia de feijoada é assim: amor-com-todos, para dar e vender e convívio de Deuses; como se do próprio Baco, Deus do vinho, se tratasse.

Daniel Melo
Daniel Melohttp://www.bolanarede.pt
O Daniel Melo é por vezes leitor, por vezes crítico. Armado em intelectual cinéfilo com laivos artísticos. Jornalista quando quer. O desporto é mais uma das muitas escapatórias para o submundo. A sua lápide terá escrita a seguinte frase: "Aqui jaz um rapaz que tinha jeito para tudo, mas que nunca fez nada".                                                                                                                                                 O Daniel escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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