El Clásico nos E.U.A: distopia ou realidade?

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No final de agosto, soube-se que La Liga estava a planear, para esta época, um jogo fora de portas. Um jogo entre duas equipas espanholas que, excecionalmente, seria disputado nos Estados Unidos. Os capitães de cada equipa da liga decidiram, unanimamente, rejeitar esta proposta. Mas será que é a última vez que vamos ouvir falar desta possibilidade? Que benefícios – e malefícios – é que isto pode trazer ao desporto rei?

Comecemos pela primeira pergunta, à qual a resposta é provavelmente não. Não será a última vez que vemos uma liga a avançar com esta proposta. Até porque esta já não foi a primeira. Há uma década, a Premier League estudara um possível 39.º jogo do campeonato (o calendário normal tem 38 partidas).

Esta sugestão, denonimada Game 39, consistia em adicionar uma jornada internacional ao campeonato, na qual as equipas jogariam em estádios neutros espalhados pelo mundo inteiro. Richard Scudamore, o então e atual chefe máximo da liga inglesa, ficou encarregado de arranjar apoio de jogadores e treinadores para levar a proposta para a frente. Falhou nessa tarefa, deparando-se com forte oposição dos atletas, dos técnicos e até do presidente da FIFA na altura, Sepp Blatter. Apesar da sua reputação como uma figura prejudicial ao desporto, cujas principais motivações estão muitas vezes relacionadas com dinheiro (nem sempre limpo), o austríaco mostrou-se, desde o início, contra esta medida.

Fonte: UEFA

Com o tempo, e com a diligência da oposição, à qual se juntou, inclusive, o lendário futebolista holandês Johann Cruyff, a ideia acabou por se esquecer. Mas não foi para o lixo. Foi posta numa gaveta. No entanto, parecia ser uma gaveta que nunca mais seria aberta quando, em 2015, Scudamore disse, em declarações à BBC Sport, que já não via razão para avançar com o Game 39. “Somos feitos em Inglaterra, jogamos em Inglaterra”, afirmou. Mas agora, três anos depois, parece ter mudado novamente de ideias. Em maio deste ano, apresentou uma versão modificada do Game 39, que apagava essa ideia do 39.º jogo. A jornada internacional faria, assim, parte do calendário regular.

E agora, com a sugestão lançada por La Liga, Scudamore aproveitou para afirmar que quer voltar a debater a proposta de internacionalizão da competição. Fê-lo sob o pretexto de que “muitos adeptos no estrangeiro sabem mais do que os adeptos ingleses sobre a Premier League”.

Quer em Espanha, quer em Inglaterra, vemos este tipo de ideias a surgir, ainda que, para já, sejam veementemente negadas. Mas em Itália isto não é novidade. Desde 1993, é normal ver a Supercoppa Italiana a ser disputada fora de portas. Ainda que por vezes se mantenha na península mediterrânea, a competição já passou pelos E.U.A, China, Líbia, Qatar e Arábia Saudita.

Apesar de ter recebido algumas críticas, desde o seu início – nomeadamente de Fabio Capello, então treinador do AC Milan, que disputou a supertaça nos EUA em 1993 -, é agora uma parte perfeitamente integrada no futebol italiano. E também parece sê-lo no futebol francês, onde, em 2009, se relocalizou a supertaça para Montréal, no Canadá. Desde então, já se disputou o Trophée des Champions em países como Tunísia, Marrocos, EUA, China e Áustria. Este ano, o jogo decisivo da Supertaça Espanhola, entre o FC Barcelona e o Sevilla FC, foi disputado em Tânger, Marrocos.

Juventus celebra a conquista da Supertaça Italiana de 2016, em Shanghai, China
Fonte: Juventus FC

Se esta política está a ser adotada em tantos países, uma coisa é certa: está a gerar lucros. E lucros geram vontade de gerar mais lucros. E é essa vontade, sejamos sinceros, que está na origem de propostas como a de La Liga e a Game 39. Scudamore não vê nos adeptos estrangeiros do futebol britânico uns conhecedores académicos da Premier League que, como tal, ganharam o direito de ver uma das melhores ligas do mundo no seu país. Como o próprio disse em 2015, as tecnologias atuais permitem a estes adeptos ver este futebol em sua casa, em televisões de alta definição. E, se querem a experiência ao vivo, têm a sua liga nacional.

Scudamore vê nestes adeptos uma oportunidade de ganhar muito dinheiro, com cada torniquete que roda. Não vê as dificuldades logísticas, a exigência física imposta aos jogadores nem a sensação de afastamento que isto provoca entre os clubes e os adeptos locais.

Para já, estas propostas são negadas. São postas novamente na gaveta. Mas será que, daqui a 10 anos – ou menos -, estaremos novamente a ter esta conversa? Será que até a própria Liga dos Campeões poderá ser alvo desta internacionalização forçada? É uma ideia viável enquanto continuar a ser sinónimo de cifrões.

 

Foto de Capa: FC Barcelona

Gonçalo Taborda
Gonçalo Tabordahttp://www.bolanarede.pt
O Gonçalo vem de Sacavém e está a tirar o curso de Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social. Afirma que tem duas paixões na vida: futebol e escrita. Mas só conseguia fazer uma delas como deve ser, por isso decidiu juntar-se ao Bola na Rede.                                                                                                                                                 O O Gonçalo escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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