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Qué pasa, Barça?

Pedro Machado · 3 min

Qué pasa, Barça?

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Cabeçalho Liga Espanhola

A partir do momento em que aquilo que dávamos por garantido começa a escassar, entramos numa nova realidade, quase catastrófica, de procura incessante por aquilo que julgávamos nunca vir a perder. O nosso cérebro parece dar o dobro do real valor àquilo que perdemos.

Daí a desorientação e, às vezes, por inerência, a auto-estima. Demos a rapariga perfeita por garantida, achámos que ela nos perdoaria um momento de fraqueza… mas quando ela disse que estaria lá sempre, não incluia faltas de respeito. Depois disto, de a perdermos, posando a cabeça sobre os braços cruzados nos joelhos numa escadaria qualquer, vemos tudo desabar, sentimo-nos imundos e incapazes de ser amados, requisitados outra vez.

O talento é como essa rapariga perfeita, que nos dá um propósito para viver, que nos relembra do quão bons podemos ser, ao qual podemos recorrer, sempre. Mas esse sempre, lá está, não inclui faltas de respeito. E o talento tem um jeito engraçado de se (não) expressar quando mais dele precisamos.

Que o digam os principais jogadores daquela que era, para muitos, a campeã europeia antecipada, senhores de pés mágicos, encantadores de plateias que tinham (e têm, sejamos justos) a capacidade de, individualmente, decidir um jogo. Que o digam Messi, Neymar, Suarez, Rakitic e Iniesta… que o diga o Barcelona.

A vida começou a correr demasiado bem, o talento fluia naturalmente, sem muito esforço, sem muito trabalho, e as coisas apareciam. Quase nem era preciso correr e tudo estava encaminhado para que esta fosse mais uma época só de conquistas. Afinal, às 16h00 de 20 de Março de 2016, os oitavos-de-final da Liga dos Campeões tinham sido ultrapassados com relativa facilidade, a presença na Taça do Rei estava garantida, a distância para o 2º classificado era de 12 pontos e a equipa encontrava-se a vencer, no El Madrigal, ante o Villareal, na deslocação mais difícil (em termos teóricos e olhando apenas para a classificação do campeonato) por dois golos de diferença. Tudo bem encaminhado, tudo demasiado fácil.

A equipa deixou-se ir, em motor automático. Os talentos deixaram de se preservar, dando prioridade à gestão física, e o resultado foi um aviso do desperdício de talento – 2-2 aos 63 minutos de jogo, que se viria a manter, num resultado que acabou por ser lisonjeiro para este conjunto de gente super-talentosa.

Iniesta, Arda Turan e Mascherano, incrédulos, perante a eminente eliminação da Liga dos Campeões Fonte: UEFA Champions League
Iniesta, Arda Turan e Mascherano, incrédulos, perante a eminente eliminação da Liga dos Campeões
Fonte: UEFA Champions League

Não se deu muito atenção a esse jogo, até porque houve pausa para as selecções, mas no regresso, no eterno clássico da Liga Espanhola, o Barcelona voltou a entrar com “pé mole” e, para além de não apresentar futebol suficiente e ter jogado para o empate, mesmo reduzido a 10, foi outra vez avisado pelo destino: o Real venceu por 1-2 em Camp Nou. Aí começaram a haver críticas, aí soou o alarme, mesmo havendo a atenuante da gestão física para os quartos-de-final da Champions, onde encontrou o Altético que não foi capaz de vencer em Camp Nou, como o rival, mas teve audácia suficiente para começar a vencer e sair de lá derrotado pela margem mínima, mesmo com um jogador a menos durante mais de 45 minutos, numa partida em que o Barça tentou, mas viu o talento castigar o desprezo que lhe fora dado. Amuado, voltou a não aparecer. Em San Sebástian, no Calderón e ontem, no Camp Nou, diante do Valência.

Messi e Neymar são os casos mais evidentes deste “castigo”. Messi não faz os piques que fazia antes do jogo de Villareal, encontra-se num momento irreconhecível e Neymar já não tem a mesma alegria de outrora. A equipa joga menos, muito menos sem o contributo da magia destes dois.

Compreensível a dependência do Barcelona, obviamente, mas a paga por ela é demasiado penosa. Pela auto-estima de dois dos principais fornecedores de alegrias achar-se em parte incerta. As críticas chovem, obviamente, numa amplificação tremenda que só um clube como o Barcelona pode gerar, e desta vez não parecem existir guarda-chuvas suficientes para que não entrem “pingos” no balneário, obviamente afectado, com um rendimento aquém do esperado face à posição intranquila que se vive: agora o Atlético divide a liderança com o Barcelona, depois de recuperar 12 (!!!) pontos, e o Real está a apenas um ponto de distância. Vale (vale mesmo?) aos blaugrana o consolo de saber que os rivais têm a Champions onde se focar.

Não se deve treinar aspectos tácticos, nem corrigir posições. É hora de tratar da mente. Este Barcelona precisa de um psiquiatra que lhe prescreva um remédio que combata a sobranceria.

Foto de capa: FC Barcelona

Pedro Machado

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