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O dia 15 de Julho de 1985 foi mais um em San Cesario di Lecce, Itália. Uma segunda-feira normal, como todas as outras, de regresso ao trabalho dos poucos milhares de pessoas que lá habitavam na altura. O nascimento de mais um menino para a pequena localidade de 7 quilómetros quadrados era saudado, claro, mas a frieza dos números apontava para “apenas” mais um na contagem da população total. Graziano Pellè era apenas mais um.

Ao longo da sua infância foi alimentando o sonho. O sonho de ser responsável pela febre que invadiu Itália em 1990, quando lá foi organizado o Mundial de futebol. O sonho de marcar um penalty decisivo e dar à sua pátria a legitimidade de se entitular a melhor do mundo a jogar futebol. O sonho de ser Roberto Baggio (e converter aquele penalty falhado na final contra o Brasil), Gianfranco Zola, ou mais tarde, Del Piero, Enrico Chiesa ou Christian Vieri. Mas esse sonho era um sonho comum a todos os meninos que transpiravam o calcio jogado por milhões de ruas espalhadas por toda a Itália. O de Graziano era apenas mais um.

Graziano não era de estar quieto, e fez-se ao sonho. Ingressou nas equipas jovens do Lecce e deu logo nas vistas pela sua altura e pela facilidade com que visava as redes contrárias. Chegado à idade de júnior, e com a ajuda de excelentes e promissores executantes à sua volta, fez história no Lecce, oferecendo ao clube os seus dois únicos Campionato Primavera (campeonato nacional de juniores) do seu historial. A isto seguiram-se chamadas à principal equipa do sul de Itália, e, mais importante, chamadas aos sub-20 e sub-21 da squadra azurra, que tornavam o sonho mais próximo da realidade… mas, como em vários países acontece, nem sempre a estrutura das selecções e do futebol de um país favorece o crescimento de um atleta, e Graziano, entre empréstimos pontuais a equipas como Catania, Crotone e Cesena, tornou-se vulgar e distante da capacidade que ele próprio gostaria de ter quando sonhava. Muitos apontaram-lhe falta de preparação para jogar a um nível alto, e assim foi caíndo no esquecimento do futebol do seu país. Graziano era apenas mais um, entre muitos.

No Lecce, sonhava ser o jogador que se tornou uma década depois  Fonte: Four Four Two
No Lecce, sonhava ser o jogador que se tornou uma década depois
Fonte: Four Four Two

Emigrou para a Holanda, deu-se bem, e voltou ao seu país, ao Parma, mas não se tornou nada daquilo que ambiocionara um dia ser. Voltou a ser emprestado, primeiro à Sampdoria e depois ao Feyenoord. Antes de partir para Roterdão, parecia conformado com o destino de vir a ser mais um jogador vulgar que muito prometeu e pouco deu a não ser no seu início. Afinal de contas, já tinha 27 anos e mais de metade da sua carreira (começada em 2004) já tinha sido percorrida.

Deixou de sonhar, foi mais prático, e concentrou-se apenas nos poucos momentos que cada jogo lhe trouxesse (ou assim lhe terá ensinado Ronald Koeman). Focou-se no “agora” e o resultado foi 11 golos em 10 jogos. Um autêntico boost de confiança que o catapultou para uma época inesquecível, onde apontou 27 golos em 29 jogos no campeonato holandês, que fez com que o Feyenoord quisesse voltar a contar com ele para a época seguinte. Assim foi. E, mais uma vez com Ronald Koeman a orientá-lo, Pellè teve outra época extremamente produtiva, marcando 23 golos em 28 jogos. Terminou assim os dois anos de Feyenoord ao peito, com 50 tentos apontados em menos de 60 encontros, e ambicionava, perante tamanha regularidade e faro de golo, ser chamado à squadra azurra. Tinha, agora, mais legitimidade do que nunca para sonhar com um lugar nos eleitos para o Mundial… mas não aconteceu – Immobile, Cassano e Ballotelli reuniram a preferência do seleccionador. E Graziano voltou a sentir-se mais um, entre muitos.

Os dois anos passados em Roterdão deram uma "nova vida" a Pellè  Fonte: dailyecho.co.uk
Os dois anos passados em Roterdão sob a orientação de Koeman deram uma “nova vida” a Pellè
Fonte: dailyecho.co.uk

Aos 29 anos parecia ter o seu destino traçado e pareceu conformar-se com ele. Porém, tudo mudou, e mais uma vez houve um holandês muito especial a fazer com que a vida de Graziano fosse melhor – Ronald Koeman. Voou para Inglaterra, para o Southampton, e exigiu que o italiano viesse com ele. Assim foi. E os resultados estão à vista: Graziano Pellè não sentiu o impacto da mudança do futebol holandês para o inglês e provou que os 50 golos apontados ao serviço do Feyenoord não foram obra do acaso, adaptando o seu jogo àquilo que ele lhe pedia, focando-se em elevar os saints à equipa sensação que é, neste momento, na Premier League. Os resultados, mais uma vez, estão à vista – 8 jogos na Premier League, 6 golos, 1 prémio de melhor jogador do mês (Setembro). Graziano encontrou, finalmente, a sua graça. Brilhou ao mais alto nível e pôde finalmente representar o seu país ao mais alto nível…

… e não foi apenas mais um! Foi “o” tal. Aquele que qualquer miúdo de San Cesario de Lecce (ou de outra qualquer localidade italiana) com calcio no sangue quer ser – o jogador que decide um jogo a favor da sua pátria. Marcou à selecção da Malta, na sua estreia, o único golo do encontro e provou ao mundo, mas, mais importante, a si mesmo, que vale a pena sonhar, seja com que idade for, porque, por mais que demore, todos nós encontraremos a nossa graça.

Pedro Machado
Pedro Machado
Enquanto a França se sagrava campeã do mundo de futebol em casa, o pequeno Pedro já devorava as letras dos jornais desportivos nacionais, começando a nascer dentro dele duas paixões, o futebol e a escrita, que ainda não cessaram de crescer.                                                                                                                                                 O Pedro não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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