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A desilusão é um lugar comum ao ser humano. É quase inevitável lidarmos com ela ao longo da vida, especialmente se fomos criados com a segurança de que o mundo estaria desinfectado de ganância e egoísmo. Elas existem porque o ser humano existe, e, por muito que se confie numa pessoa, ela quererá, muitas das vezes, aquilo que melhor serve os seus interesses e não os de quem lhe é próximo ou os da instituição que representa.

Porque a competitividade é algo que também assiste à natureza humana. É por isso que encaramos actos de bondade com desconfiança e vemos como “pretextos” grande parte dos elogios que nos fazem. Tem de haver um interesse por trás, porque é assim que o mundo funciona, cada vez se quer saber menos dos outros e mais de si.

Isso vem à tona quando “se perde a cabeça”, quando se deixa cair a carapaça social que reveste o animal de índole egoísta que habita dentro de nós. Aí passam a conhecer-se as intenções, a índole e a vontade de cada um de nós. É raro deixarmo-nos desproteger dessa maneira porque fomos educados no sentido de travar instintos animalescos, mas às vezes deixamo-nos ficar mal e cometemos erros que mancham a nossa reputação e podem mesmo ferir a das entidades que representamos.

Assim aconteceu com Steven Gerrard e o seu Liverpool no último jogo dos reds. O eterno capitão do eterno emblema da cidade dos Beatles entrou ao intervalo do jogo contra o rival Manchester United para substituir Adam Lallana e depois de ter dado o pontapé de saída e conseguir mostrar, nos primeiros seis toques que deu na bola, que vinha emprestar uma dinâmica diferente ao jogo, entrou de forma descabida sobre Juan Mata e, instantes depois, pisou, sem dó nem piedade, o tornozelo de Ander Herrera numa reacção intempestiva a um carrinho do adversário.

O resultado não podia ser outro: cartão vermelho. 48 segundos depois de ter entrado em campo, com a equipa a perder por 1-0 e com 45 minutos pela frente, o capitão, o líder incontestável do balneário do Liverpool, o jogador em quem os adeptos mais confiam, a reputação de figura respeitável que se estende muito além do clube, do país e do continente onde joga cometera um erro infantil, digno de uma pessoa guiada por instintos e sem racionalidade.

Os seus companheiros de equipa deram uma excelente resposta, conseguindo disputar a segunda parte do encontro com um dos maiores rivais de sempre de “igual para igual”. É certo que ficaram meio abalados com a expulsão do capitão e líder da equipa e consentiram o 2-0 passados seis minutos de ficarem em desvantagem numérica. Mas a equipa partiu para cima do rival em busca de, pelo menos, um ponto e ainda conseguiu reduzir e obrigar os red devils a suar para garantirem mais uma vitória…

Quão relevantes teriam sido os golos de Juan Mata, ontem, caso Gerrard não tivesse sido expulso? Fonte: Facebook do Manchester United
Quão relevantes teriam sido os golos de Juan Mata, ontem, caso Gerrard não tivesse sido expulso?
Fonte: Facebook do Manchester United

… que é bem mais que isso. É o cavar de um fosso pontual para a concorrência, liderada, precisamente, pelo Liverpool na luta por um lugar na Champions do próximo ano. Agora os reds estão a cinco pontos do rival, a seis do acesso directo à liga milionária e a 10 do líder Chelsea (que tem um jogo a menos).

O Liverpool vinha a evidenciar sinais de retoma de um início de temporada difícil até este encontro, tendo, inclusivamente, batido o campeão Manchester City em Anfield Road e o Southampton no dificílimo Saint Mary’s. Curiosamente, durante o período em que superou estes duros obstáculos, Steven Gerrard não esteve presente, por lesão.

O capitão voltou a ter disponibilidade, mas Joe Allen, o seu subtituto, tem vindo a exibir-se de forma irrepreensível na sua substituição, destacando-se sobretudo no capítulo do passe na primeira fase de construção dos reds, altura do jogo em que o Liverpool tem sentido muitos problemas esta época, e o lugar cativo de Gerrard no onze parece estar a expirar 14 anos depois.

Deve ser frustante sentir a força do tempo a abater-se sobre as capacidades de um jogador (e ele tê-las-à sentido, de outra forma não teria assinado contrato com os LA Galaxy, em vigor a partir do Verão, rumando a uma liga menos competitiva que a inglesa), ainda para mais num tão influente como Gerrard. Mas isso não devia fazer dele o jogador intempestivo que nunca foi e que em 497 jogos apenas foi expulso por 6 vezes.

A carapaça social e profissional caiu, e o jogador respeitável foi, por 2 segundos, um humano guiado por um ego ferido e sem controlo das emoções. Deixou os adeptos, que tantas vezes alegrara e que tanta esperança nele ainda depositam, desiludidos por, momentaneamente, não terem no seu capitão a tal figura imperturbável que sempre os representara. Afinal, Gerrard é também humano.

Foto de Capa: Facebook do Liverpool

Pedro Machado
Pedro Machado
Enquanto a França se sagrava campeã do mundo de futebol em casa, o pequeno Pedro já devorava as letras dos jornais desportivos nacionais, começando a nascer dentro dele duas paixões, o futebol e a escrita, que ainda não cessaram de crescer.                                                                                                                                                 O Pedro não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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