Liverpool 0-2 Chelsea: O triunfo da (in)justiça

- Advertisement -

O futebol está longe de ser uma ciência exata ou de premiar quem melhor joga. Hoje, em Anfield, ganhou quem foi mais inteligente. Ganhou quem foi mais experiente. Ganhou quem foi mais matreiro. José Mourinho é o melhor treinador do mundo a ler os jogos. Hoje, mesmo tendo recorrido a uma equipa de segundas linhas, conseguiu vencer e deixar em sofrimento uma equipa histórica que não vence o campeonato há 24 anos e que pode muito bem ter complicado as suas contas na luta pelo título. Se antes do encontro o Liverpool estava a um pequeno passo de ser campeão, agora, à entrada para as últimas duas jornadas da Premier League, tudo se tornou muito mais difícil.

Na abordagem ao encontro, como já tinha sido referido, o Chelsea entrou em campo com uma verdadeira revolução no seu onze. José Mourinho mudou 7 jogadores do onze que empatou frente ao Atlético de Madrid e apostou em Schwarzer na baliza,  Azpilicueta e Ashley Cole nas laterais, Ivanovic e o jovem estreante Kalas no centro, num meio-campo com Mikel, Matic e Lampard e Salah e em Schürrle no apoio ao ponta-de-lança Demba Ba. De notar ausências como David Luiz, Oscar, Hazard ou Eto’o. Já o Liverpool apresentou-se praticamente na máxima força, destacando-se apenas a titularidade de Lucas em detrimento de Sturridge, que ainda apresentava alguns problemas físicos. Assim sendo, o Liverpool alinhou com Mignolet na baliza; um quarteto defensivo composto por Glen Johnson, Skrtel, Sakho e Flanagan; Gerrard, Joe Allen e Lucas no meio e os criativos Coutinho, Sterling e Suárez na frente.

Nos primeiros minutos do encontro a equipa do Chelsea até entrou surpreendentemente a pressionar a campo inteiro, com Lampard muito encostado a Demba Ba nas zonas de pressão ofensiva. No entanto, a equipa de Brendan Rodgers rapidamente assentou o seu jogo e a partir dos 20 minutos acabou por tomar conta da partida e tentou ir em busca do primeiro golo. À meia hora de jogo, o Liverpool tinha 75% de posse de bola e era sempre a equipa que procurava adiantar-se no marcador. Apesar de hoje não ter estado tão forte a nível das transições ofensivas, os reds até criaram duas boas ocasiões para marcar, primeiro por Coutinho e depois por Sakho, após uma bola parada.

A chegar ao intervalo, quando já todos pensávamos que o marcador da partida não iria sofrer alterações, eis que o impensável acontece: Steven Gerrard, o filho pródigo e menino bonito de Anfield, comete um erro colossal e perde uma bola a meio-campo, quando era o último homem, permitindo que Demba Ba galgasse terreno até à baliza de Mignolet e batesse o guardião belga, fazendo assim o primeiro golo da partida. O capitão do Liverpool, que tinha apenas 10 anos de idade quando o Liverpool foi campeão pela última vez, era quem menos merecia um lance destes. Já o Chelsea, sem atacar e com os seus jogadores a perderem constantemente tempo em campo, adiantava-se no marcador, contra a corrente de jogo.

Até Mourinho perdeu tempo de jogo em Anfield Fonte: Getty Images
Até Mourinho perdeu tempo de jogo em Anfield
Fonte: Getty Images

Ao intervalo, já se percebia que a tarefa do Liverpool iria ser muito complicada. Goste-se ou não, Mourinho é um génio e os seus jogadores sabem exatamente aquilo que têm de fazer em campo. A nível defensivo, a equipa do Chelsea estava a ser absolutamente irrepreensível e era difícil que tal situação se alterasse até ao final do jogo. Assim sendo, e pela cabeça de Rodgers, só havia uma soluação em vista: colocar Sturridge rapidamente em campo e tirar o apagadíssimo Lucas Leiva – quem o viu no passado e quem o vê agora; um jogador banalíssimo, com pouquíssima qualidade e com uma fraca intensidade de jogo. O Liverpool acabou por entrar com o mesmo onze para o intervalo e Rodgers só decidiu ouvir-me aos 57´, colocando, lá está, Sturridge e retirando Lucas. Coutinho deslocou-se para o meio e o ataque do Liverpool estava então entregue aos seus 4 magníficos: Sterling, Coutinho, Sturridge e Suárez, que têm 72 golos nesta temporada (mais do que a equipa inteira do Chelsea).

Esta alteração acabou por não ter efeitos práticos porque o jogo não se alterava. O Chelsea defendia, defendia e defendia. O Liverpool atacava, atacava e atacava. No entanto, os blues faziam-no com critério e os reds não. Havia muito coração e pouca cabeça. E Gerrard, que depois do erro muito lutou e atacou, era o rosto da inconsequência e nervosismo. Com o aproximar do final do encontro, Mourinho ia reforçando (ainda mais!) a sua defesa, tendo acabado com Gary Cahill junto a Ivanovic e Kalas no centro da defesa.

Já no final do jogo, quando a equipa do Liverpool estava toda balanceada para o ataque, o recém-entrado Willian recuperou nova bola a meio-campo e acabou por seguir isolado para a baliza, com a companhia de Fernando Torres, assinando o segundo golo do encontro e acabando, definitivamente, com as dúvidas em relação ao vencedor da partida.

Um triunfo justo? Custa-me dizer que sim. Sempre fui um fã incondicional de José Mourinho,  mas este estilo de jogo deixa qualquer adepto de futebol devastado. Ver ganhar uma equipa que se limitou a defender o jogo inteiro, a perder tempo desde o início e a esperar que a sorte lhe desse uma ocasião para marcar (como, de facto, lhe deu) é frustrante. Nem o próprio técnico português saberá explicar bem como é que conseguiu vencer por 2 golos em Anfield com uma tática exclusivamente virada para a componente defensiva. Fiou-se na sorte e na expectativa de que os deuses do futebol voltassem a castigar uma azarada equipa do Liverpool. E, de facto, foi isso que aconteceu. Hoje, para Mourinho, tudo correu bem: conseguiu poupar jogadores para a Champions, venceu o jogo e ainda se manteve na corrida pelo título inglês com o City e o Liverpool.

Mário Cagica Oliveira
Mário Cagica Oliveirahttp://www.bolanarede.pt
O Mário é o fundador e diretor-geral do Bola na Rede. É também comentador de Desporto na DAZN, SIC e Rádio Observador e professor universitário.

Subscreve!

Artigos Populares

Francisco Conceição e o rótulo de espalha-brasas: «Quero ser conhecido como o Francisco Conceição»

Francisco Conceição marcou presença na sala de imprensa para fazer a antevisão do Portugal x Uzbequistão, relativo à segunda jornada do Mundial 2026.

Francisco Conceição e a influência de Cristiano Ronaldo na Seleção Nacional: «Nós não temos essa obrigação de lhe passar a bola»

Francisco Conceição marcou presença na sala de imprensa para fazer a antevisão do Portugal x Uzbequistão, relativo à segunda jornada do Mundial 2026.

Colega de Issa Doumbia no Venezia ruma à Premier League por 5 milhões de euros

O Brighton assegurou a contratação de Michael Svoboda por 5 milhões de euros. Defesa-central deixa assim o Venezia, onde jogou com Issa Doumbia.

Real Madrid: Fede Valverde fica e assume braçadeira de capitão

O Diario AS avança que, apesar de os rumores sobre uma potencial saída, Fede Valverde será o capitão do Real Madrid de José Mourinho.

PUB

Mais Artigos Populares

Imprensa espanhola rendida a alvo do FC Porto e Braga: «Racing esfrega as mãos com Gustavo Puerta»

Gustavo Puerta impressionou na sua estreia no Mundial pela Colômbia aos 22 anos. FC Porto e Braga foram associados ao médio do Racing Santander.

Sérgio Fonseca muito próximo de assumir o comando técnico do AVS SAD

Sérgio Fonseca chegou acordo com o AVS SAD e está muito próximo de assumir o comando técnico do clube da Vila das Aves.

André Villas-Boas: «Deixou de existir agentes preferenciais no FC Porto»

André Villas-Boas analisou o atual panorama dos agentes desportivos no futebol mundial e a influência destes no FC Porto.