Não se iludam

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cab premier league liga inglesaOs sorrisos voltaram definitivamente a Old Trafford. O Teatro dos Sonhos voltou a tê-los. A ambição dos adeptos voltou a estar-lhes espelhada nas expressões e na forma como vivem o jogo. Voltou a garra dos adeptos dos red devils, o entusiasmo e a preocupação com cada lance albarruou a apatia e o encolher de ombros que ameaçava tornar-se característica das bancadas do estádio do Manchester United depois da desilusão da época passada (zero títulos e um vergonhoso 8.º lugar na Liga) e do mau início de época que se seguiu.

Para animar as hostes, portanto, não era preciso muito, e depois de conseguidas seis vitórias consecutivas há agora motivos para os supporters voltarem a acreditar no seu United. Vale a pena gritar para os jogadores, porque agora eles parecem ouvir. Correm até à linha de fundo mesmo perante uma bola perdida, reagem de forma aguerrida quando perdem a posse, compactam-se de forma eficiente quando têm de defender…

Resumidamente, esta equipa do United tem um coração enorme e uma solidariedade notável. Louis Van Gaal parece ter conseguido unir o balneário rumo ao propósito de lutar pelo título (que ele, de forma irresponsável, tanto gosta de afastar quando vem a público falar)… enquanto não tem uma equipa.

É certo que o United, agora, é terceiro classificado da Premier League, apresenta uma série de resultados impressionante, tendo conseguido estabelecer resultados importantes diante de adversários dificílimos, como as vitórias nos terrenos do Arsenal e do Southampton e a goleada por 3-0 ao Liverpool…

… mas está ainda muito longe de ter definidos os processos de jogo e, consequentemente, a identidade da equipa.

Analisando cada uma das seis vitórias seguidas obtidas pelo United, não encontramos propriamente um padrão. A começar nos esquemas tácticos utilizados: 4x1x4x1 contra o Palace, 3x4x1x2 ante o Arsenal, 4x3x3 na recepção ao Hull, 4x4x2 losango diante do Stoke, 3x1x4x2 na deslocação ao terreno do Southampton e o regresso ao 3x4x1x2 no jogo com o Liverpool em Old Trafford. Seis jogos, cinco modelos diferentes. Jogadores que repetiram a titularidade em todos os encontros? Cinco. David de Gea, Antonio Valencia, Michael Carrick, Marouane Fellaini e Robin Van Persie.

É, portanto, normal, que as exibições do Manchester United não deslumbrem e cheguem mesmo a desiludir ao olho do adepto de futebol. A equipa parece muitas vezes “engasgada” no seu processo de construção ofensiva, pela falta de rotinas. Partindo desde trás, a equipa está dependente das arrancadas de Valencia ou Ashley Young e, embora Van Gaal esteja sempre a mudar o esquema táctico, perante um adversário mais avisado isto pode tornar o United numa equipa demasiado previsível. Valem, por enquanto, a inspiração de De Gea – num momento de forma extraordinário -, a omnipresença de Michael Carrick no meio-campo e o faro de golo de Van Persie. Sem qualquer um destes três elementos, muito dificilmente o United teria sido feliz em qualquer dos seis triunfos consecutivos logrados…

De Gea tem sido a "estrelinha" de Van Gaal Fonte: Facebook do United
De Gea tem sido a “estrelinha” de Van Gaal
Fonte: Facebook do United

… sobretudo no último, diante do Liverpool. O 3-0 obtido é um resultado extremamente enganador. São números que não mostram os três golos certos que De Gea negou aos reds na segunda parte e muito menos a cadência ofensiva do Liverpool. A equipa beneficiou, para além da inspiração do guardião espanhol, do desequilíbrio emocional do seu adversário (que não se deveu ao sufoco do United, pois é algo comum a outros encontros disputados anteriormente fora de portas – as deslocações dos reds aos terrenos de Crystal Palace e West Ham são exemplos ilustrativos) após o primeiro golo consentido.

O United acabou por ser um justo vencedor, é certo, mas há muitas questões por resolver dentro da equipa. Muitos nomes para definir no onze-base (que fará menos de 30 jogos até ao final da época, ao contrário dos adversários envolvidos em competições europeias) de Louis Van Gaal, uma identidade para ser criada. Para já, o holandês vai mostrando toda a sua habilidade táctica e agilidade mental na abordagem a cada encontro. Mas é preciso ter em conta que tem ao dispôr um plantel de classe mundial (200 milhões de euros investidos) e que, passados quatro meses da única competição em que está inserido (exclui-se a FA Cup da equação, pois ainda não entrou em cena), ainda não conseguiu criar uma equipa.

É certo que o técnico parece ter do seu lado uma espécie de estrelinha que o ajuda a superar os obstáculos que ele próprio cria no início das temporadas, com vitórias tangenciais ou pontos obtidos com uma dose generosa de sorte (como já aconteceu este ano, por exemplo, contra o Chelsea e o Arsenal) na fase de criação de identidade das suas equipas (foi assim ao serviço do Bayern, tendo começado a época com muita gente a pedir a sua demissão e terminando-a com a Bundesliga conquistada e uma final da Champions. e também do Barcelona, na época 1997/1998)… mas a sorte é um factor aleatório.

E se o United quer (como deve!) lutar pelo título (mesmo que Van Gaal fuja com o “rabo à seringa” quando se aborda o tema), não pode depender de nenhum tipo de estrelinha, porque todas as épocas são únicas e todos os campeonatos têm as suas particularidades. A euforia de Old Trafford é uma coisa bonita de se contemplar, mas ainda não tem uma base consistente. A ilusão de lutar pelo título não passa disso mesmo.

Foto de Capa: Facebook do United

Pedro Machado
Pedro Machado
Enquanto a França se sagrava campeã do mundo de futebol em casa, o pequeno Pedro já devorava as letras dos jornais desportivos nacionais, começando a nascer dentro dele duas paixões, o futebol e a escrita, que ainda não cessaram de crescer.                                                                                                                                                 O Pedro não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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