Sensacional Southampton II – O Gestor de Crises

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O conceito de “gestão de crise” tem surgido muito nos meios de comunicação social desde que “estoirou” a grande crise financeira de 2008. Segundo os livros, é algo que visa a redução de prejuízos ou situações que prejudiquem o normal processo de tomada de decisões de uma determinada organização provocado por uma circunstância anormal e inesperada no seu meio (interno ou externo). Para que a gestão de crise seja bem sucedida, dizem os mesmos livros, deve seguir-se um plano assente em cinco pontos: cálculo do risco; diagnóstico de ameaças; reinvenção dos processos; a forma de implementação dos mesmos; manutenção.

Todo este conjunto de medidas levar-nos-à, supostamente, a conseguir, no curto prazo, devolver a normalidade à vida da organização… ou da nossa. Sim, porque o conceito de gestão de crise não precisa de ser estudado por um chefe de família ou por um estudante sem dinheiro para ser posto em prática. Cada um de nós pode gerir as suas crises seguindo aquele ou outro método, e ser bem sucedido. E há exemplos em todo o mundo, desde desempregados que reinventam a sua vida com investimentos que lhe dão um futuro sustentável, passando por marcas que caem na penumbra e se levantam… a treinadores que se vêem, de repente, sem as referências com que contavam para a época e não vêem entrar substitutos à altura das perdas. Como Ronald Koeman. Mas já lá vamos.

O Southampton do ano passado foi uma das surpresas da Premier League, jogando um futebol competitivo, pressionante na primeira zona de construção contrária, exercida por avançados extremamente “chatos” (Jay Rodríguez e Lallanna eram importantes neste processo, mas Rickie Lambert era o que mais se destacava) que eram uma autêntica barreira anti-jogadas de perigo [conforme, aliás, mencionara anteriormente] e que esteve na génese da boa campanha de uma equipa que, para além dos seus avançados, contava com jogadores competentes nas suas zonas mais recuadas, como Schneiderlin e Jack Corck no meio campo e José Fonte, Lovren, Shaw e Clyne na defesa. Um conjunto liderado por um treinador idolatrado pelos adeptos, o argentino Mauricio Pochettino .

Do onze mencionado, apenas três jogadores ainda militam na equipa principal. De resto, saiu tudo por preços, claro, avolumados. Os tubarões do mercado atacaram ferozmente os Saints, que ainda viram “fugir” o seu líder, Maurício Pochettino.

A manuenteção de Morgan Schneiderlin foi fundamental para o fantástico início de época do Southampton  Fonte: BBC / Getty Images
A manuenteção de Schneiderlin foi fundamental para o fantástico início de época do Southampton
Fonte: BBC / Getty Images

Entrou Ronald Koeman, e perante a indefinição do plantel que acompanhou o defeso (e que até levou a manifestações de desagrado por parte do holandês), soube reinventar Wanyama, dando-lhe um papel de maior destaque do que aquele que tinha no ano passado, reforçou os poderes do capitão José Fonte enquanto líder do balneário e ainda convenceu Clyne e Schneiderlin a ficar no clube perante tanto assédio.

Os reforços foram chegando a conta-gotas, mas chegaram. Alderweireld e Bertrand (por empréstimo) reforçaram a defesa, e o ataque foi reinventado por Mané, Tadic e o goleador Graziano Pellè.

Seria de esperar que as ideias do holandês fossem sendo lentamente apreendidas pelos seus novos pupilos e que os resultados apresentados fossem mais “normais” que os da época anterior. Afinal, renovava-se uma zona (ataque) que havia sido fundamental para todo o processo de jogo do Southampton… mas Koeman acabou por ser paciente e avançou com as suas ideias (reinvenção de processos), mesmo tendo a noção de que seria arriscado trabalhá-las com poucos jogadores (cálculo do risco) e que teria de enfrentar a impaciência e pessimismo dos adeptos enquanto não surgissem novos jogadores e lidar com o cepticismo de uma equipa que via partir muitas das suas referências (diagnóstico de ameaças), mas foi avante com o plano inicialmente traçado, criando união entre os “resistentes”, como José Fonte ou o próprio Schneiderlin, de forma a que quem quer que entrasse tivesse a noção da importância da celeridade de assimilação de processos de jogo (forma de implementação de processos), para que fosse possível criar uma identidade (manutenção).

Koeman foi um autêntico gestor de crise. Colocou a equipa a pressionar mais atrás (até porque Pellè, por exemplo, é um jogador de referência na àrea, e não tanto um avançado móvel), “encolhendo” o 4x3x3 em 4x5x1 quando não está em posse, para que Tadic e Mané sejam um auxílio a um trio incansável composto por Steven Davis, Schneiderlin e Wanyama. Os dois, principalmente, saem a jogar com critério e qualidade sem comprometer o equilíbrio da equipa, defendendo com a mesma eficácia, o que torna mais fácil a tarefa das linhas recuada e avançada. Paradoxalmente, o recuo de linhas que Koeman trouxe ao jogo do Southampton dá menos problemas para a defesa solucionar e mais bola ao ataque.

A “reinvenção” de Victor Wanyama foi outro dos trunfos jogados por Koeman  Fonte: Daily Mail
A “reinvenção” de Victor Wanyama foi outro dos trunfos jogados por Koeman
Fonte: Daily Mail

O sucesso desta “fórmula” já tinha começado a aparecer contra o Liverpool, no primeiro jogo oficial [também mencionado anteriormente], mas ficaram ainda mais evidentes com o desenrolar do início do campeonato, e, após uma série de 5 jogos sem perder, com quatro vitórias consecutivas (entre elas um 4-0 ao Newcastle), a equipa está agora no 2.º lugar da Premier League com 13 pontos somados (em 18 possíveis), apenas atrás do todo-poderoso Chelsea e à frente de equipas como Manchester City, Manchester United, Arsenal ou Liverpool, que ou não sofreram revoluções tão violentas no aspecto desportivo… ou tiveram dinheiro para as suportar.

Caso Schneiderlin e Wanyama aguentem um campeonato inteiro com esta intensidade (algo que não seria de descurar, pois o plantel pediu para se treinar em dia de folga… e quem corre por gosto, não cansa) ou seja encontrada uma solução para um possível desgaste de ambos ou de um dos dois, temos, muito provavelmente, um candidato à Europa em perspectiva e a continuação de um filme que parecia não ter sequela (após a época fantástica da equipa).

Pedro Machado
Pedro Machado
Enquanto a França se sagrava campeã do mundo de futebol em casa, o pequeno Pedro já devorava as letras dos jornais desportivos nacionais, começando a nascer dentro dele duas paixões, o futebol e a escrita, que ainda não cessaram de crescer.                                                                                                                                                 O Pedro não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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