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“Os detentores do poder ficam tão ansiosos por estabelecer o mito da sua infalibilidade que se esforçam ao máximo para ignorar a verdade.” – Boris Pasternak (Poeta e romancista russo vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1958)
O tema das naturalizações no futebol russo não é algo novo e já vem de longe, mas a chamada do guarda-redes brasileiro do FC Lokomotiv Moscovo à selecção russa veio novamente reacender um assunto que está longe de ser pacifico e consensual.
Há 16 anos atrás, o jovem defesa camaronês Jerry-Christian Tchuissé recebeu, para surpresa de muitos, um passaporte russo e tornou-se elegível para representar a Sbornaya (selecção russa de futebol), mas tal nunca chegou a acontecer apesar de o jogador, que por essa altura representava o FC Spartak Moscovo, ter participado num estágio da equipa nacional russa. Um ano mais tarde, Tchuissé decidiu envergar as cores do país onde nasceu e representou a selecção dos camarões em duas ocasiões.
Em 2011, Welliton de Morais, avançado que representou entre outros o FC Spartak Moscovo e Goiás Esporte Clube, esteve muito perto de se tornar no primeiro jogador brasileiro a naturalizar-se russo, depois de ele próprio ter manifestado interesse em representar a Sbornaya. Contudo, apesar de existir um aparente interesse de ambas as partes, o processo arrastou-se lentamente pela burocracia do futebol russo e acabou por cair no esquecimento.
Depois de algum tempo em que a temática das naturalizações foi deixada propositadamente, ou não, na gaveta, no final do ano passado, o presidente da RFU (federação de futebol russa) e homem dos sete ofícios, Vitaly Mutko, voltou a trazer à baila um tema que já há muito havia esmorecido. De uma assentada só, foram colocados em cima da mesa vários nomes de futebolistas, que, estando ou não a jogar na liga russa, poderiam vir a receber um passaporte daquele país e mais tarde vir a representar a Sbornaya. Guilherme, guarda-redes do FC Lokomotiv Moscovo, Ari, avançado do FC Krasnodar, Mário Fernandes, defesa direito do PFC CSKA Moscovo, todos eles de nacionalidade brasileira, e Roman Neustädter, médio defensivo do FC Schalke 04, nascido em Dnipropetrovsk em 1988, ainda durante a era soviética, foram os nomes colocados em cima da mesa e é seguro dizer-se que pelo menos um deles fará parte da selecção russa no Campeonato Europeu de Futebol de 2016, que terá início no próximo dia 10 de Junho.

Fonte: bolshoisport.ru
Guilherme, o guarda-redes de 30 anos que representa o FC Lokomotiv Moscovo desde 2007, recebeu o passaporte russo em Novembro do ano passado e, depois de algumas polémicas e discussões acesas nos meios de comunicação russos, foi o primeiro a receber o voto de confiança de Leonid Slutsky e irá fazer parte da comitiva russa para os jogos particulares a realizar na próxima semana com a Lituânia e com a França.
O experiente guarda-redes do FC Lokomotiv Moscovo é tido por muitos como um dos melhores da sua posição a actuar no futebol russo e é, ao mesmo tempo, visto como uma alternativa segura a Igor Akinfeev, guardião do PFC CSKA Moscovo, que está longe de estar a viver os melhores anos da sua carreira. Guilherme, por sua parte, está também longe de ser um guarda-redes capaz de reunir consensos e algumas das suas exibições mais recentes têm deixado muito a desejar. Há um par de semanas atrás, aquando da visita da sua equipa ao terreno FC Terek, Guilherme contribuiu, e de que forma, para a vitória do emblema tchetcheno com uma abordagem extremamente infeliz ao lance que deu origem ao segundo golo da equipa caseira apontado pelo versátil médio polaco Maciej Rybus.
A chamada de Guilherme torna-se um pouco mais questionável se considerarmos a quantidade de guarda-redes russos de qualidade que estão ou estariam à disposição de Leonid Slutsky, caso este assim o entendesse. Para além de Yuri Lodigin, do FC Zenit, e de Stanislav Kritsyuk, do FC Krasnodar, que também integram o lote de escolhidos para os jogos de preparação da próxima semana, Slutsky tem ainda à disposição guarda-redes como Artem Rebrov, capitão e titular indiscutível do FC Spartak Moscovo, Aleksandr Selikhov, titular do FC Amkar e presença habitual na selecção de Sub-21, Soslan Dzhanaev, dono da baliza do FC Rostov e também ele antigo internacional russo noutros escalões (é o guarda-redes menos batido da liga russa, com apenas 16 golos sofridos em 21 jogos), e até mesmo Anton Mitryushkin, titular indiscutível em todos os escalões de formação russos nos últimos anos, que, apesar de não ter minutos esta temporada, mudou-se recentemente para o FC Sion em busca de relançar a sua carreira longe do seu país natal.
A temática das naturalizações não deixa indiferentes os jogadores da selecção russa e mesmo entre eles as opiniões estão claramente divididas. O gigante do FC Zenit Artem Dzyuba e o poderoso médio defensivo do FC Lokomotiv Moscovo Dmitriy Tarasov são totalmente contra a entrada de jogadores estrangeiros na Sbornaya, enquanto Alan Dzagoev e Aleksandr Kokorin olham com bons olhos para essa possibilidade.

Fonte: alchetron.com
Independentemente da qualidade daqueles que já chegaram e de outros que irão eventualmente chegar em breve, há no caso particular da selecção russa um ou outro aspecto a reter. A Federação Russa em toda a sua imensidão conta com umas boas dezenas de academias de futebol de elevada qualidade, com clubes de dimensão mundial que já conquistaram e/ou atingiram finais ou fases avançadas de competições internacionais e, acima de tudo, conta com um número de praticantes da modalidade bastante elevado, o que logo à partida proporciona uma renovação permanente da estrutura, não só da selecção principal como de todas as selecções jovens. O problema russo é, no entanto, estrutural, e, à semelhança daquilo que acontece noutros países europeus, muitos desses jovens nunca atingem o seu pleno potencial porque não lhes são dadas as oportunidades necessárias nas primeiras equipas dos seus respectivos clubes, acabando os mesmos muitas das vezes emprestados a emblemas de escalões secundários, onde acabam por ter uma margem de evolução muito baixa.
O futebol russo carece de uma estrutura capaz e de uma liderança coerente, algo que não acontece desde que Vitaly Mutko assumiu o poder. Uma que não procure esconder os embaraços de uma gestão, que chega a ser ruinosa, com faits divers como este da naturalização de jogadores (que pouco ou nada contribui ou contribuirá para o engrandecimento da selecção nacional e do futebol do país), passando para o exterior uma imagem de harmonia, organização e planificação para o futuro que na verdade não existe.
Foto de Capa: varvara.wordpress.com













