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Estará a evolução tática do futebol a “tapar” o aparecimento de jogadores criativos?

Jaime Silva · 2 min

Diego Maradona Futebol
Foto: SSC Napoli

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Há umas semanas, Pablo Aimar proferiu algumas palavras bastante importantes para muitos profissionais de futebol, principalmente os que trabalham com jovens, poderem refletir e repensar a forma como desenvolvem jovens talentos: “Não gosto que digam que não existem jogadores criativos, sobretudo depois de fazerem 800 treinos automatizados. É muito provável que não haja jogadores criativos se tudo for automático e se dissermos a um miúdo de 15 anos que sabe driblar para não o fazer se perder a bola duas ou três vezes. Nessa idade vão perdê-la duas, três, cinco ou dez vezes. Compreendo a preocupação com o jogo posicional, atacar os espaços. Mas acredito que os treinadores têm de ter em conta essa suposta ou real falta de criatividade. Muitas vezes as defesas são desbloqueadas por um criativo, um drible ou passe que inventa algo diferente quando tudo é monótono”. Perante esta declaração, uma questão se levanta: estará a evolução tática do futebol e o gosto pelo jogo posicional a tapar a evolução e o aparecimento de jogadores jovens criativos?

A minha resposta é sim. Penso que os treinadores, principalmente os de formação, nos últimos anos, têm restringido a criatividade de vários jogadores mais “arrogantes e irreverentes”, subjugando-os a muito trabalho “estratégico” e também defensivo, e isto tem-se revelado na falta de aparecimento de jovens jogadores criativos e na estagnação de vários belos jogadores no futebol europeu, como é o exemplo de João Félix. Logo, o problema não me parece ser só na formação, mas também no futebol sénior, em que se premeia muito mais o trabalho sem bola do que aquilo que um “mágico” jogador pode fazer com bola.

Um interessante tema que se também tem abordado muito entre os românticos do futebol é a falta de um típico “número 10”, como o próprio Pablo Aimar, Riquelme e o mítico Maradona. Além de ser um tema bastante importante, é claramente um facto inegável. O número 10 como o conhecíamos, irreverente, mágico, inteligente, que nos faz sorrir e levantar-nos do sofá ou da cadeira do estádio, que valha a pena o preço do bilhete, seja ele qual for. A realidade é que posso contar pelos dedos das mãos os jogadores que me entusiasmam realmente ver jogar e isso explica muito o estado rotineiro e aborrecido em que entrou o futebol, o que se reflete na qualidade dos jogos e dos espetáculos. Nas últimas épocas, quantos jogos podemos dizer que foram lendários? Quantos jogos nos prenderam ao ecrã durante os 90 minutos? A verdade é que, tirando os adeptos dos estádios, pouco mais resta ao espetáculo.

É importante começar a valorizar e priorizar o talento natural e a irreverência dos jogadores. Caso contrário, o futebol vai-se tornar num jogo de estratégia em que a preparação do jogo será a parte mais importante do espetáculo, o que afastará muita gente das bancadas e dos relvados, principalmente os mais jovens.

Jaime Silva

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