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Um campeão europeu não tem objetivos mínimos

Rui Pedro Cipriano · 4 min

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O título diz tudo sobre o que vou falar neste artigo. Estou e estarei eternamente agradecido ao mister Fernando Santos. Por finalmente ter levado a nossa nação futebolística a atingir o céu que tanto andava a tentar desde 2000. Fui um defensor da sua contratação, após o despedimento de Paulo Bento, porque gostei do seu trabalho no mesmo posto da seleção nacional da Grécia. Achei, naquela altura, que Fernando Santos trazia exatamente o modelo de jogo que Portugal precisava para ser feliz, um jogo frio e cruel para os adversários. Dadas as características do nosso plantel, que cada vez mais era Ronaldo dependente, achei também que o estilo de jogo de Fernando Santos se encaixaria que nem uma luva, para reforçar o coletivo. Não estava enganado, a verdade é que foi com Fernando Santos que conquistamos o nosso primeiro título internacional e o mister merece muito do crédito por esse feito.

As coisas mudam, no entanto, a partir daí e o nosso mister, infelizmente, parece não ter mudado muito. Fomos campeões europeus, a responsabilidade de Portugal muda totalmente, não somos mais os underdogs. Não quero soar como um mal-agradecido, quero antes que quem estiver a ler entenda que sou apenas uma pessoa ambiciosa. E é essa mesma ambição que me leva agora a dizer que Fernando Santos já não é o homem indicado para liderar os destinos da nossa seleção nacional.

Ora vejamos, se no Euro 2016 concordei e defendi totalmente o modelo de jogo usado por Fernando Santos, pois era um modelo que se encaixava bem às características que tinha no seu plantel, acho que esse mesmo modelo, atualmente, já não tem a mesma utilidade e necessidade visto que uma nova geração está a entrar. Fernando Santos parece, no entanto, estar agarrado a esse modelo que lhe trouxe o sucesso e não consegue entender que jogadores como Bernardo Silva, Gonçalo Guedes, Gelson Martins etc… Não se adequam a um modelo de jogo tão defensivo e com pouca velocidade. Um treinador tem que adequar o seu jogo conforme os jogadores que tem, isto é ainda mais fundamental quando falamos de um selecionador nacional que não pode simplesmente ir ao mercado e comprar os jogadores que mais se adequem ao seu modelo de jogo. Fernando Santos tinha que entender que uma grande geração, vice-campeã europeia sub-21, muito bem trabalhada por Rui Jorge, estava ali no seu plantel e o treinador português tinha que obrigatoriamente tirar o melhor de cada jogador, e não foi isso que eu vi.

Fernando Santos precisa de repensar as suas opções
Fonte: FPF

A segunda-parte que Bernardo Silva fez contra o Uruguai é um excelente indicativo de como as coisas poderiam ter sido diferentes, se Fernando Santos não se tivesse agarrado tanto ao seu modelo de jogo e tivesse posto, como fez então, Bernardo Silva no meio. Este é só um pequeno exemplo, de um erro que Fernando Santos ainda corrigiu, mas tarde demais.

Depois, ao contrário do que aconteceu no Euro 2016, também não gostei do discurso do treinador português neste Mundial 2018. Principalmente depois da derrota frente ao Uruguai. Fernando Santos falou em “objetivo mínimo cumprido”, quem é que no seu perfeito juízo acha que é aceitável que um campeão europeu tenha como objetivo mínimo passar a fase de grupos do Mundial? O objetivo mínimo de um campeão europeu devia ser o seu objetivo máximo, ser campeão do mundo. Não me consigo rever, minimamente, no facto de os objetivos mínimos terem sido “cumpridos”. Não é vergonha nenhuma perder com o Uruguai, até porque os Uruguaios têm uma excelente equipa e um excelente treinador, mas custa ver tantos erros a serem cometidos e pensar que as coisas poderiam ter sido diferentes se os erros não tivessem sido cometidos.

Bernardo Silva fez um Mundial muito apagado, mas jogou constantemente num lugar onde não se sente confortável
Fonte: FPF

De todos os erros que eu já enunciei, falta ainda falar da convocatória de Fernando Santos, que, na minha opinião, teve também lacunas graves. Não percebo como se deixa Rúben Neves de fora, quando Danilo está indisponível e William Carvalho vinha com uma condição física deficitária. Também não entendo como é que num leque de quatro defesas/laterais direitos: João Cancelo, Nélson Semedo, Ricardo Pereira e Cédric Soares, opta-se por levar os dois últimos. Consigo entender que João Cancelo e Nélson Semedo não corresponderam da melhor maneira nos jogos que fizeram, até agora, pela seleção nacional, mas pelo menos um deles tinha que ser convocado, nem que fosse para ser uma alternativa, pois estamos a falar de dois jogadores que estão em dois grandes clubes por comparação com Ricardo Pereira, que acabou de ir para o Leicester, e Cédric Soares, que joga no Southampton , que quase desceu de divisão.

Posto isto, o balanço que eu faço deste Mundial 2018 para a nossa seleção nacional é francamente negativo. Fizemos quatros jogos, jogamos bem contra a Espanha, jogamos mal contra Marrocos e Irão e fizemos uma boa segunda parte contra o Uruguai. É minha opinião que o tempo de Fernando Santos deveria chegar ao fim, porque precisamos de sangue novo a liderar uma nova geração talentosa e de uma nova mentalidade.

Conhecendo como conheço o corpo diretivo português, sei perfeitamente que Fernando Santos se irá manter até, pelo menos, 2020. Resta-me por isso desejar que o míster aproveite este tempo para pensar muito bem nos erros que cometeu ao longo do Mundial 2018 e tentar quem sabe alterar.

Foto de Capa: FPF

Rui Pedro Cipriano

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