Portugal 0-2 Cabo Verde: Crença, dinâmica e a falta dela

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Foi à boleia do som dos batuques e dos gritos efusivos de apoio resultantes da invasão caboverdiana ao António Coimbra de Mota que a selecção africana encontrou o caminho para aquela dose extra de coragem de que precisava para se superiorizar à selecção portuguesa.

A história e os nomes nas camisolas costumam pesar, e nunca saberíamos o que se teria passado se os “tubarões azuis” não contassem com um 12.º jogador tão entregue à tarefa de destronar um adversário nunca antes batido – nos dois jogos anteriores que compunham o historial de confrontos futebolísticos entre estes dois países, havia registo para uma igualdade a zero (2010) e uma vitória lusa por 4-1 (2006), com o golo caboverdiano a ser apontado por… Fernando Meira, na própria baliza -, mas certamente que seria menos provável que o placard exibisse o mesmo 0-2 que fez o encontro desta noite.

Desde cedo se percebeu uma dose de motivação na selecção orientada por Rui Águas. Não só por enfrentar uma selecção acima dela no ranking da FIFA, e com um historial de respeito, mas também para honrar um povo que, para além de nem campeonato ter (deixando para os jogos da sua selecção toda a parte das emoções futebolísticas que necessita de viver), atravessa um período difícil pelo desastre natural provocado pela erupção de um vulcão que dizimou a sua Ilha do Fogo.

Os tubarões azuis entraram afoitos e foram conseguindo chegar ao último terço do terreno com alguma velocidade, apostando sobretudo na velocidade do seu capitão, Heldon, para explorar eventuais brechas na defesa nacional, que normalmente encontrava frente a um Cédric com algumas dificuldades em acompanhar o seu antigo companheiro de equipa no Sporting.

Porém, os golos de Cabo Verde surgiram do lado contrário. O primeiro com Odaír a beneficiar de um desvio de Antunes, que ajudou um cruzamento a ganhar uma estranha trajectória (o vento também terá tido quota-parte de responsabilidade) que só terminou no fundo das redes à guarda de Anthony Lopes, o segundo através de um livre (canto de mangas muito curtas, perto da grande área) cobrado por Heldon e que terminou com um desvio vitorioso de Gegé, fugido da marcação de André Pinto.

Portugal só aparecia em jogo fruto do entendimento da parceira Bernardo Silva/João Mário, que tentavam provocar estragos na baliza contrária, quer através de iniciativas individuais, quer através de lances à procura de outros companheiros que não entendiam a genialidade e/ou a forma de jogar de antigos companheiros nas camadas jovens.

A selecção nacional pareceu ter acordado na segunda parte e teve um quarto de hora de excelente nível, com bom envolvimento ofensivo de (mais uma vez) Bernardo Silva, Vieirinha e Ukra (substituiu João Mário) que resultou em várias oportunidades para o conjunto luso (Vieirinha e Hugo Almeida “cheiraram o golo”), porém, essa reacção foi travada pela expulsão de André Pinto, que evitou que Heldon, desperto após aproveitar um mau passe de Ukra para Paulo Oliveira para se isolar, ampliasse a vantagem caboverdiana.

Portugal desiludiu frente a Cabo Verde Fonte: FPF
Portugal desiludiu frente a Cabo Verde
Fonte: FPF

A partir daqui, Cabo Verde surpreendeu pela organização defensiva e pela forma como conseguiu ter o jogo sob controlo (chegaram a ouvir-se “olé’s”!), pese embora uma ou outra ocasião de perigo da selecção nacional (se não fosse um desvio fortuito, Éder teria emendado um remate de Paulo Oliveira com sucesso e André André cabeceou perto do poste da baliza de Cabo Verde).

Ficou evidente alguma sobranceria (estranha, pelo facto de a maior parte dos jogadores terem muito para provar, mas confirmada por Fernando Santos na zona mista) da parte dos jogadores portugueses e o resultado, apesar das melhores oportunidades não concretizadas terem pertencido a Portugal, acaba por premiar uma equipa de Cabo Verde que acreditou sempre que era possível dar uma alegria ao seu povo.

Não será justo, porém, afirmar que os jogadores nacionais que estiveram no António Coimbra da Mota não serão alternativas credíveis ao onze inicial da nossa selecção. O futebol é, entre muitas outras coisas, dinâmica, e para um jogador mostrar todas as suas potencialidades precisa de integrar um sistema com ela… hoje o desentrosamento foi evidente e não será pelo resultado de hoje que jogadores como Bernardo Silva, João Mário, Vieirinha, ou Antunes (excelente no timming de subida no terreno) serão olhados de lado por Fernando Santos em ocasiões futuras.

A Figura:

Heldon – O capitão cabo-verdiano foi o grande responsável pela crença dos seus seus companheiros, do seu povo. Sempre que pegava na bola, gerava-se uma gritaria que espelhava a esperança depositada no jogador vinculado ao Sporting. Usou a velocidade e o atrevimento como armas para destronar o lado direito da defesa portuguesa, quase sempre com sucesso.

O Fora-de-Jogo:

André Pinto – Dentro da apatia geral da Selecção Portuguesa, podiam ser apontados como “patinhos feitos” do jogo outros companheiros de equipa (ainda para mais se tivermos em conta a diferença entre o potencial e efectivo rendimento de cada jogador) do central vinculado ao Sporting de Braga, porém, deixou fugir Gegé no segundo golo de Cabo Verde e foi expulso num momento crucial – a Selecção portuguesa reagia bem à desvantagem –, acontecimentos que tornam este “prémio” inevitável.

Foto de Capa: Facebook Seleções de Portugal

Pedro Machado
Pedro Machado
Enquanto a França se sagrava campeã do mundo de futebol em casa, o pequeno Pedro já devorava as letras dos jornais desportivos nacionais, começando a nascer dentro dele duas paixões, o futebol e a escrita, que ainda não cessaram de crescer.                                                                                                                                                 O Pedro não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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