In Memoriam Regis

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A língua portuguesa tem esta riqueza. Apesar de, por vezes, não se conseguir entender o significado de palavras ou expressões idiomáticas próprias, permite-nos compreender vocábulos e representações de outras línguas. Neste caso é a nossa língua mãe: o latim. Ela já morreu, mas deixou-nos um grande legado. E não é difícil entender o que esta frase significa: “em Memória do Rei”.

Foi na pequena cidade piscatória de Santos, estado de São Paulo, que se fundou, em 1912, um clube de gente humilde. Uma equipe que dominou o futebol do Brasil e do mundo. Alguns anos mais tarde, na cidade mineira de Três Corações, nascia um rei. “Um rei negro fora de África?” Nada mais certo. E os destinos do Santos Futebol Clube e de Edson Arantes do Nascimento cruzaram-se para a vida – e para bem do futebol.

– “Edson? Quem é este moço?” Diziam que ficou conhecido por Pelé. – “Pelé quem? O grande Pelé?” Esse mesmo. Tricampeão do mundo pela seleção brasileira entre 1958 e 1970 e hexacampeão pelo Santos na década de 60. Aquele que encantou gerações e fez sonhar a maior potência futebolística já alguma vez vista. O homem dos mil golos. O artista operário e o atleta do século XX. Falar em Santos é falar em Pelé. E vice-versa. Para além destes títulos, somam-se ainda duas Taças Libertadores da América e duas Intercontinentais no mesmo ano: 1962, contra o Rei da Europa Benfica, e 1963, com os italianos do Milan.

Pelé campeão do mundo em 1970, no México / Fonte: lendasdoesporte.blogspot.com
Pelé campeão do mundo em 1970, no México / Fonte: lendasdoesporte.blogspot.com

Costuma dizer-se que o Santos é o clube mais simpático do Brasil. Com uma massa adepta relativamente pequena para o gigantismo do clube, os seus torcedores são calmos. Ostentam na alma um semblante de vitórias e glórias. O Peixe – o animal representativo e autêntico amuleto do Santos, nada mais próprio – pode dormir descansado nas águas mansas do porto da cidade com o mesmo nome. Será difícil ser pescado. Com o novo formato do Brasileirão, que entrou em vigor a partir de 1971, o S.F.C. só foi feliz em duas ocasiões: em 2002 e 2004. É verdade que Neymar, Paulo Henrique Ganso e companhia ainda fizeram o tri-campeonato no estadual Paulista, mais uma Copa do Brasil, e ganharam a Libertadores da América em 2011. Na Vila Belmiro vimos nascer os maiores talentos do futebol mundial. De Robinho a Diego, passando por Carlos Alberto Torres e Neymar, os santistas podem ter a esperança de um futuro risonho. Se é certo que continuam a ser defensores de um ideal tão brilhante, também é certo afirmar que, com Pelé, o Peixe nunca tinha sido tão feliz.

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