Há jogos que se decidem no ataque. Outros na defesa. E depois há aqueles, como este, que se decidem na baliza. No Dragão Arena, o FC Porto construiu uma vitória frente ao rival Benfica que vale mais do que três pontos. E construiu-a com um nome que explica quase tudo: Sebastian Abrahamsson. O guarda-redes sueco assinou uma exibição portentosa, terminando o jogo com 16 (!) defesas.
Se houve um momento em que o Benfica ainda podia voltar ao jogo, foi travado por um homem inspirado. Intervenções em momentos-chave. Presença constante. Não foi apenas um guarda-redes. Foi o fator que matou qualquer esperança encarnada.
O jogo começou como tantos clássicos de andebol: ritmo alto, golos em catadupa, ataques a superiorizarem-se às defesas. 4-4 aos quatro minutos e a sensação de que ninguém queria esperar.
O FC Porto encontrou cedo a primeira vantagem relevante, aproveitando uma exclusão de Alexis Borges e chegando aos 14-10. Rui Silva e Antonio Martínez davam sinais claros de que os dragões estavam confortáveis no jogo.
Mas o Benfica tinha outra ideia. Mesmo desfalcado ( sem Cavalcanti, Ander Izquierdo e El Korchi), conseguiu reagir. E reagiu bem. Muito por culpa de Gustavo Capdeville, com oito defesas na primeira parte.
A entrada do guarda-redes internacional português mudou o ritmo da primeira parte. Defesas importantes, confiança crescente, e um Benfica que foi encurtando distâncias até fazer o que parecia improvável minutos antes: virar o jogo. 19-17 a favor dos encarnados ao intervalo.
Uma vantagem que, mais do que sólida, parecia sinal de controlo, ainda para mais começando a etapa suplementar em superioridade numérica, devido à exclusão do lateral-esquerdo islandês Thorsteinn Gunnarsson. Mas foi, no fundo, uma ilusão.
A segunda parte trouxe um FC Porto diferente. Mais agressivo. Mais intenso. Mais decidido. E, sobretudo, mais eficaz.
Na etapa suplementar, os portistas empataram rapidamente (19-19) a contenda, e deram o primeiro sinal de que o jogo estava longe de estar decidido.
E foi aqui que apareceu outro nome decisivo: Vasco Costa. Explosivo, irreverente, imparável durante largos minutos. Dois golos de rajada, presença constante, e a capacidade de desestabilizar por completo a defesa encarnada. A partir daí, o jogo começou a fugir ao Benfica.
A verdade é simples, e dura. O Benfica foi competitivo enquanto teve frescura e soluções. Quando precisou de mais… não teve.
Sem algumas das suas principais unidades, as segundas linhas não conseguiram acompanhar o ritmo imposto pelo FC Porto. A equipa perdeu agressividade, perdeu critério e, acima de tudo, perdeu capacidade de resposta.
O resultado foi um desmoronar progressivo. 25-22. 28-22. 31-24. Tudo isto num espaço de apenas dez minutos. E o jogo deixou de ser equilibrado para passar a ser um monólogo. É verdade que o homem do jogo foi Abrahamsson, mas não é menos verdade que sem o contributo decisivo de jogadores como Vasco Costa, Antonio Martínez e Pedro Oliveira, os dragões não teriam conseguido esta vitória tão expressiva.
Com a baliza fechada e o ataque a funcionar, o FC Porto fez aquilo que as grandes equipas fazem nestes momentos: carregou. A vantagem foi crescendo, a confiança também, e o Benfica nunca mais encontrou forma de parar o ímpeto portista.
Gilberto Duarte deu critério, foi determinante defensivamente, e marcou igualmente alguns golos que fizeram recordar os tempos áureos de um dos melhores jogadores portugueses de todos os tempos. Antonio Martínez voltou a ser decisivo (sete golos, 100% de eficácia aos sete metros). E o coletivo respondeu com autoridade.
Do outro lado, sobraram poucas notas. Gustavo Capdeville na primeira parte. E pouco mais. O resultado final (42-32) diz tudo.Mas o significado vai além disso.
Para o FC Porto, é uma vitória moralizadora. Uma afirmação de força. E, acima de tudo, um sinal de que ainda há uma ténue esperança na luta pelo topo e na tentativa de impedir o tricampeonato do Sporting, algo que será realmente difícil, mas pelo qual os comandados de Magnus Andersson vão lutar até ao fim.
Para o Benfica, é um aviso. Não basta competir durante quinze minutos da primeira parte. Não basta ter primeiras linhas fortes. Porque no andebol, como no desporto, ganha quem consegue sustentar o jogo até ao fim. No fim, decide-se sempre ali.
Na intensidade. Na profundidade. E, às vezes, na baliza. Hoje decidiu-se aí. E Abrahamsson fez questão de não deixar dúvidas.
O Bola Rede esteve presente no Dragão Arena e teve a oportunidade de colocar uma questão a ambos treinadores.
Bola na Rede: Ficou a ideia de que a sua equipa se deixou ir na segunda parte, à medida que o resultado se ia avolumando. Foi mais uma questão física ou mental?
Jota González: Eu creio que não foi um tema de frescura física. Ressentimo-nos da ausência de jogadores importantes, o que nos obrigou a fazer várias alterações na defesa e no ataque. Este ano, sempre que ficamos numa clara desvantagem no marcador, a equipa não consegue reagir devidamente, e hoje isso voltou a passar. Várias perdas de bola, momentos de desconcentração que se pagam caro em jogos deste calibre. Demasiado individualismo contra um FC Porto muito forte colectivamente e organizado defensivamente na segunda parte. Este ano, não temos sido capazes de fazer um jogo completo, e temos gerido mal os jogos.
Bola na Rede: Na segunda parte, Vasco Costa foi decisivo ofensivamente, e Gilberto Duarte teve uma grande importância na agressividade da sua linha defensiva. Para além do excelente rendimento desses dois jogadores, qual foi o fator-chave para que o FC Porto realizasse uma segunda parte tão forte e conseguisse obter esta vitória tão expressiva?
Magnus Andersson: Nós estávamos realmente desapontados e frustrados ao intervalo. Os últimos minutos da primeira parte foram horríveis defensivamente por parte da nossa equipa. Deixamos o Benfica jogador, fomos pouco intensos e permitimos que fosse o Benfica a impor o ritmo do jogo. Na segunda parte, foi tudo diferente. Fomos mais agressivos, e controlamos mais o jogo. Benfica tem excelentes jogadores e se lhes dás tempo para jogar e saber o que fazer, ficas em problemas. Ajustamos alguns detalhes ao intervalo, e a entrada da nossa equipa na segunda parte, foi fortíssima. À excepção de alguns minutos da primeira parte, foi um excelente jogo da nossa equipa, e apesar da grande exibição do nosso guarda-redes (Sebastian Abrahamsson), quando ganhas um jogo por dez golos de diferença, tiveste de fazer muitas coisas bem e encontrar as melhores soluções a nível ofensivo, com rendimentos individuais altíssimos. De uma maneira geral, estou satisfeito com a exibição da minha equipa.

