

Há campanhas que se avaliam por resultados. Outras mudam definitivamente a forma como um país olha para uma modalidade. A Seleção Nacional de Andebol terminou o Europeu de 2026 num histórico quinto lugar, a melhor classificação de sempre num Campeonato da Europa, mas o que realmente fica é algo maior: a certeza de que o andebol português já não vive de exceções, vive de continuidade, identidade e ambição.
Este Europeu (numa organização conjunta entre Noruega, Suécia e Dinamarca) foi palco de mais um capítulo extraordinário de uma geração que insiste em derrubar recordes como quem abre caminhos novos. Depois da melhor participação de sempre até àquele momento no Euro 2020 com um honroso sexto lugar, da inédita qualificação para os Jogos Olímpicos desse mesmo ano (jogado em 2021 devido à pandemia), e do melhor resultado num Campeonato do Mundo em 2025 com um brilhante quarto lugar, Portugal volta a superar-se. E fá-lo sem surpresa, porque este crescimento deixou de ser episódico, passou a ser estrutural. Os Heróis do Mar já não são uma metáfora romântica. São uma realidade competitiva.
O momento que ficará eternizado tem um segundo exato no relógio e um nome próprio. Martim Costa, último segundo, decisão fria, execução perfeita. Golo. O pavilhão explode. Alguns jogadores fundem-se num grande abraço com Martim, outros caem no chão, staff em lágrimas, uma pequena mas ruidosa massa adepta portuguesa transforma o pavilhão de Herning num pedaço de casa. Esse golo não garantiu apenas o quinto lugar. Selou uma afirmação histórica.
Este Europeu teve de tudo. Já “chocando” e surpreendendo toda a nação do andebol com uma épica e maravilhosa vitória por 31-29 sobre a Dinamarca (atual campeã mundial e olímpica) em jogo da fase de grupos num dos melhores momentos de sempre do desporto nacional, Portugal foi igualmente competitivo nos jogos da Main Round.
Teve exibições de enorme maturidade, jogos decididos no detalhe, resistência mental, e também um baque emocional muito forte. O jogo frente à França ficará como uma anomalia estatística difícil de explicar: 29 golos sofridos em 32 remates na primeira parte desse encontro onde Portugal foi para o intervalo a perder por 13 (!) golos de diferença, que acabou na história dos livros de andebol como o jogo com o maior número de golos em Europeus (acabou 46-38 para os franceses).
Um registo absolutamente impressionante, inédito, quase irreal. Um murro no estômago que poderia ter quebrado qualquer equipa, mas que, paradoxalmente, fortaleceu Portugal.
A resposta foi de equipa grande. Sem pânico. Sem fuga. Sem perda de identidade. Uma excelente exibição contra a Noruega, que por meros detalhes, e alguma falta de sorte (com dois remates de Kiko Costa aos ferros nos últimos cinco minutos da partida e dois livres de sete metros falhados), podiam ter aumentado a vantagem de Portugal em três golos de diferença. Acabou com um empate amargo (35-35), que hipotecou as aspirações legítimas de Portugal chegar às meias-finais da competição, uma vez que umas horas mais tarde, a Dinamarca ganharia à Alemanha.
O sonho das meias-finais terminava ali, mas havia outro objetivo na mente de todos os jogadores e respetiva equipa técnica: fazer o melhor lugar de sempre numa edição de um Campeonato da Europa.
Depois de uma grande exibição frente aos vizinhos espanhóis (35-27 com os manos Costa novamente em grande destaque), Portugal iria necessitar que os astros se alinhassem para poder marcar presença no jogo de apuramento do 5º e 6º lugar. E se havia selecção que merecia ter alguma dose de sorte e uma favorável conjugação de resultados, era a nossa.
A Alemanha ganhou à França por 38-34 eliminado assim do Europeu a campeã europeia em título, e a Dinamarca arrasou a Noruega por 38-24. Precisamente os resultados que a seleção lusa necessitava para poder lutar por mais um momento histórico.
Igualmente com esses resultados, Portugal seleccionava a qualificação para o próximo Mundial dentro de menos de um ano na Alemanha, pelo que apesar do desgaste físico, jogou extremamente motivada contra a Suécia, e conseguindo levar um grande vitória num jogo impróprio para cardíacos com o já mencionado golo de Martim Costa no último segundo de jogo.
Foi um Europeu igualmente marcado por ausências sentidas. Portugal apresentou-se neste Europeu sem os lesionados Diogo Rêma, um dos guarda-redes mais promissores da actualidade, e sem Alexandre Cavalcanti e Miguel Martins, dois dos seus melhores defensores, o que obrigou a uma utilização excessiva de Salvador Salvador e de Luís Frade no capítulo defensivo.
Os Heróis do Mar também saíram prejudicados de uma decisão bastante polémica e inusitada. O pivô Victor Iturriza não pôde defrontar a Alemanha por ter sido expulso no jogo anterior, algo que raramente sucede no andebol. Mesmo que um jogador tenha sido expulso por acumulação de lances passíveis de dois minutos de suspensão, quase nunca fica impedido de jogar o jogo seguinte.
A Federação ainda apelou da decisão, mas esse recurso foi-lhe negado, sendo que a ausência do pivô português teve um peso evidente, não apenas pelo que oferece defensivamente, e pela experiência que dá ao coletivo, assim como para que Luís Frade não seja submetido a um elevado desgaste físico, que confere estar presente na faceta defensiva e ofensiva da equipa durante mais de 40 minutos.
Ainda assim, Portugal competiu, discutiu o resultado até ao fim, e manteve-se fiel ao seu jogo, tendo perdido apenas por meros detalhes contra a seleção germânica. Houve liderança no banco e inteligência nos momentos decisivos, como ficou bem patente no desconto de tempo brilhante de Paulo Jorge Pereira nos segundos finais do jogo de atribuição do 5.º e 6.º lugares frente à Suécia. A jogada desenhada foi executada com precisão cirúrgica. O desfecho foi histórico.
No centro deste percurso esteve um nome que já dispensa apresentações, e que merece apenas reconhecimento: Kiko Costa. Aos 20 anos, terminou o Europeu no top 3 dos melhores marcadores com 61 golos, apenas atrás de dois fenómenos absolutos do andebol mundial, os dinamarqueses Simon Pytlick e Mathias Gidsel. Melhor jogador jovem do torneio, o lateral-esquerdo do Sporting já ultrapassou essa etiqueta.
É, hoje, um dos melhores jogadores do mundo. Decide, lidera, assume a responsabilidade nos momentos de maior pressão e fá-lo com uma naturalidade desconcertante. Não é de admirar que o lateral-direito do Sporting tenha sido selecionado para a All Star Team do Europeu. A sua margem de progressão é enorme. O futuro passa, inevitavelmente, pelas suas mãos.
Mas esta campanha não se explica apenas por um nome. Explica-se por um coletivo de altíssimo nível.
O pivô do Barcelona Luís Frade realizou um Europeu absolutamente sublime. Um pivô completo, dominante nos dois lados do campo, inteligente na leitura dos espaços e eficaz como poucos. Hoje, Frade é indiscutivelmente um dos melhores jogadores na sua posição. Ao seu lado, Rui Silva mostrou que o tempo não lhe retirou qualidade, antes pelo contrário. Demonstrou que continua a ser um dos melhores centrais a nível mundial, comandando o jogo com critério, visão e liderança.
Martim Costa, para lá do golo histórico, teve momentos de pura magia ao longo do torneio. O lateral-esquerdo português provou que é um jogador chamado a marcar uma era no andebol nacional e internacional, tal como o seu irmão mais novo. O talento está lá, a personalidade também.
Houve ainda exibições individuais que ficaram gravadas na memória. A atuação extraordinária de António Areia nos minutos finais frente à Dinamarca, com um dos golos mais bonitos do torneio, mostrou o impacto que pode ter quando o jogo pede coragem e uma tomada rápida de decisão. Na baliza, Diogo Valério foi absolutamente decisivo, com defesas fundamentais nos jogos frente à Noruega e à Espanha, mantendo Portugal vivo nos momentos de maior pressão.
No capítulo defensivo, destaque maior para Salvador Salvador, autor de um Europeu de enorme consistência, agressividade e inteligência tática. O seu desempenho valeu-lhe, com inteira justiça, a distinção de Melhor Defensor do torneio, e com isso, fazer parte da All Star Team, em mais um reconhecimento internacional que espelha o crescimento do andebol português.
Com mais maturidade competitiva, e caso consiga aumentar e melhorar a sua agressividade defensiva, Portugal tem todos os recursos para lutar por uma inédita medalha, e quem sabe, poder conquistar um título de renome internacional, algo impensável há uns anos atrás, apesar de termos tido grandes jogadores em gerações anteriores, como é o caso de Carlos Resende, Eduardo Filipe, Ricardo Costa, Rui Rocha, Ricardo Andorinho, David Tavares, os irmãos Morgado, Filipe Mota, Gilberto Duarte, entre outros.
Com uma geração que é uma excelente mescla de talento, juventude e experiência, esta selecção já garantiu a sua presença no próximo Mundial com este histórico quinto lugar, assim como já tinha assegurada a presença no Euro 2028, uma vez que será um dos países organizadores. Esta geração não poderá passar ao lado de uma participação olímpica, pelo que é necessário que se foque agora nessa qualificação.
Este quinto lugar não é um teto. É um novo ponto de partida. Portugal já não compete para aprender. Compete para ganhar. Compete para discutir títulos. Compete para se sentar à mesa com os melhores do mundo e as nações históricas do andebol mundial. Esta geração percebeu algo essencial: não há limites auto-impostos, não há complexos, não há medo do palco.
Porque hoje, mais do que nunca, é impossível dizer até onde podem chegar. Não há limite para os Heróis do Mar, que já percorreu mares nunca dantes navegados.
Melhor participação de sempre no Euro 2020, ida inédita aos Jogos Olímpicos em 2020, melhor participação num Mundial em 2025, e agora novamente a derrubar recordes com um brilhante quinto lugar no Euro 2026, disputado na Noruega e na Dinamarca.
Os Heróis do Mar continuam a bater registos, e provam que o céu é o limite para esta geração de ouro do andebol nacional.

