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Medalhas e Recordes: Quem tem lugar na história?

Pedro Pires · 4 min

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Cabeçalho modalidadesÉ uma discussão recorrente e que perdurará no tempo para os amantes de Atletismo: Poderá um atleta sem medalhas em eventos globais ser um dos melhores de sempre? Poderá um atleta sem alguma vez ter alcançado o recorde mundial ser um dos melhores de sempre? A discussão voltou à baila, com o final da carreira em pista de Mo Farah (GBR). O atleta britânico tem um palmarés absolutamente memorável: três Ouros Mundiais, dois Ouros Olímpicos e mais uma Prata Mundial, dobrando sucessivamente distâncias em eventos globais.

Ainda assim, há quem não o coloque na história, junto dos maiores de sempre, porque olhando para os tempos “a nú”, Farah é “apenas” o 31.º mais rápido a percorrer os 5.000 metros e o 16º mais rápido a percorrer os 10.000 metros. Mas será que Mohamed Farah beneficiou apenas da pouca competição em pista ou deve mesmo levar os louros de ter sabido gerir as corridas a seu prazer e ser um dos maiores estrategas de sempre em pista? Todos sabemos que o britânico é um dos atletas que, assumidamente, prefere medalhas a recordes. Nunca o escondeu e nunca sequer fez uma real tentativa de chegar perto de tempos de recorde mundial. Mas será que está certo na sua abordagem? Será que pode ser considerado um dos melhores da história?

Para podermos responder a estas questões, talvez valha a pena socorrermo-nos de alguns exemplos. E porque não começar com exemplos nacionais?

Estávamos a 2 de Julho de 1984. Em Estocolmo, na prova dos 10.000 metros estariam presentes dois enormes talentos nacionais, treinados pelo Professor Moniz Pereira: Carlos Lopes e Fernando Mamede, ambos atletas do Sporting Clube de Portugal. As condições climatéricas estavam perfeitas e o elenco reunido era o ideal para um ataque a uma marca histórica. À passagem dos 7.000 metros, Carlos Lopes dispara e foge por completo da concorrência, deixando para trás todos os seus adversários, incluindo Mamede. Mas nunca o mundo havia visto um último km tão rápido numa prova de 10.000 metros. Mamede completou os últimos 1.000 metros em 2:32.72m e alcançou o recorde mundial com um tempo de 27:13.81. Carlos Lopes, que ficou em segundo lugar, também fez uma marca que lhe daria o recorde mundial, ficando na altura com a segunda melhor marca da história. O recorde de Mamede só viria a ser batido em 1989, cinco anos depois. Um mês depois, nos Jogos Olímpicos, Fernando Mamede “bloqueia” na final e desiste, sucumbindo à pressão dos adversários que o viam, tal como o mundo inteiro, como o grande favorito.

Professor Mário Moniz Pereira e Fernando Mamede Fonte: Camarote Leonino
Professor Mário Moniz Pereira e Fernando Mamede
Fonte: Camarote Leonino

O historial de Mamede fala por si: 27 recordes nacionais em toda a sua carreira, 20 títulos nacionais, três vezes recordista europeu dos 10.000 metros, mais de dois anos sem perder uma corrida, correndo no mais alto patamar mundial a nível de meetings. E zero medalhas em Campeonatos Europeus e zero medalhas em eventos globais (Mundiais e Jogos Olímpicos), à excepção de um Bronze no Corta-Mato.

Do outro lado, Carlos Lopes. Não é que Lopes não fosse menino para fazer grandes marcas – a nível nacional, só nos 5.000 bateu por nove vezes o recorde nacional, sete nos 10.000, onde foi recordista europeu e, claro, o recorde mundial da Maratona. Mas a grande diferença entre os dois era nos dias das grandes competições. Se Mamede acusava a pressão invariavelmente em eventos globais, Lopes conquistou um Ouro Olímpico (na Maratona) e uma Prata Olímpica (nos 10.000), além do arraso no Corta-Mato, onde foi três vezes Ouro e duas vezes Prata Mundial. Terão os dois o mesmo lugar na história?

Os exemplos claro que não se esgotam nos dois portugueses. Na velocidade, temos casos como o de Asafa Powell (JAM), o atleta que mais vezes baixou dos dez segundos na história dos 100 metros e que, a nível individual, o melhor que conseguiu em eventos globais foram dois Bronzes em Mundiais. Em Jogos Olímpicos, nunca sequer subiu ao pódio individualmente. É um dos únicos cinco atletas da história que baixaram mais do que uma vez dos 9.80 (baixou oito vezes). Bateu o recorde mundial dos 100 por duas vezes, mas eclipsava-se invariavelmente na hora da verdade. Não só à sombra do compatriota Usain Bolt (esse sim, adorava grandes palcos!), mas especialmente à sombra do momento, das grandes competições. Do outro lado, temos, por exemplo, um Kim Collins (SKN) que foi campeão mundial em 2003 com uma marca (hoje modesta) de 10.07. Terão os dois um lugar na história?

Carlos Lopes após a vitória de 1984 Fonte:BigSlam
Carlos Lopes após a vitória de 1984
Fonte:BigSlam

Para nós, adeptos da modalidade, todos os atletas mencionados têm lugar na história, sentados entre os melhores. Pessoalmente, considero que alcançar uma medalha terá um significado especial que nenhum recorde poderá alcançar. Nunca ninguém poderá retirar um título mundial ou olímpico, perdurará para sempre nos livros. Já os recordes são diferentes…embora se fique sempre conhecido como “ex-detentor de recorde mundial”, a verdade é que todos os recordes são para ser batidos. Mas dará com certeza um gosto especial saber que, em determinado momento da história, fomos os mais rápidos de sempre a percorrer determinada distância. No que ficamos? Apreciar o desporto e ter a certeza que nos livros constará o nome de Mo Farah. Mas também o de Mamede!

Foto de Capa: lanouvellerepublique

Artigo revisto por: Francisca Carvalho

Pedro Pires

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