

É a prova rainha do calendário do Desporto Escolar, a festa da democracia desportiva e o primeiro palco de futuros campeões. O Corta-Mato do Desporto Escolar é muito mais do que correr na lama; é a maior iniciativa do atletismo em Portugal.
Costuma dizer-se que o atletismo é o desporto mais liberal e democrático de todos. Inicialmente não exige equipamentos caros, nem pavilhões sofisticados. Bastam uns calções, umas sapatilhas, uma t-shirt e vontade. É sair para a rua, combater o sedentarismo e começar a correr. E é exatamente nessa simplicidade que reside a magia do Corta-Mato Nacional do Desporto Escolar, uma competição que movimenta milhares de alunos do ensino básico e secundário, com idades compreendias entre os nove e os 18 anos.
Este evento, que é desenvolvido em três fases – escolar e municipal, regional (CLDEs) e nacional -, resulta de uma simbiose perfeita entre a Direção-Geral da Educação, as autarquias locais, o Desporto Escolar e a Federação Portuguesa de Atletismo. Mas o Corta-Mato é apenas a ponta do icebergue de uma visão maior: que todos os alunos do sistema educativo pratiquem regularmente atividades físicas e desportiva
A missão do Desporto Escolar é clara e ambiciosa. Estimular a prática da atividade física não apenas pelo exercício, mas como motor para o sucesso desportivo e para a criação de estilos de vida saudáveis. Ao proporcionar uma oferta desportiva variada, inclusiva e acessível, o Desporto Escolar integra o desporto no plano de atividades das escolas como um complemento curricular indispensável, com ênfase na cidadania ativa e na ética.
E é no terreno irregular do Corta-Mato, em percursos desenhados entre os 1000 e os 3500 metros, que estes desígnios teóricos ganham vida. Ali, na prática, promove-se o desenvolvimento integral do aluno. Mais do que a competição, forjam-se valores morais e competências sociais fundamentais: a responsabilidade e a disciplina no treino; o espírito de equipa e solidariedade quando as pernas falham; o respeito, a tolerância e o fair-play para com os adversários, e acima de tudo, a perseverança, a coragem, o humanismo e a verdade desportiva.
Guardo na memória, o “meu” último Corta-Mato Escolar em 2020, no Parque da Cidade do Porto. Lembro-me da dimensão humana daquilo: eu e mais de cinco mil alunos a fazer a festa. A energia dos voluntários, a voz dos speakers, o rigor dos juízes e o apoio dos professores – criava-se assim uma atmosfera vibrante de inclusão e paixão pelo desporto.
Este ano, a grande festa nacional já tem data e local marcados, será nos dias 27 e 28 de fevereiro, que a icónica Pista das Açoteias, em Albufeira, vai receber os melhores alunos-atletas do país. A escolha não poderia ser mais simbólica. Falamos de um solo sagrado para o atletismo, o mesmo local onde se realiza o histórico Cross Internacional das Amendoeiras em Flor.
Quantos atletas federados não deram as primeiras passadas nestas provas? Quantos talentos não foram descobertos nestes dias de festa? Ver alunos de escolas distintas, de norte a sul, a partilharem o mesmo espaço e a mesma paixão, derrubando barreiras e criando amizades improváveis. É testemunhar o reencontro caloroso de professores que, unidos pela mesma vocação, celebram ali o sucesso formativo dos seus educandos. Acima de qualquer pódio, o que se levanta bem alto são os calores da ética, da inclusão e do respeito mútuo. É esta dimensão humana e formadora que nos garante que o Desporto Escolar será sempre o maior clube de Portugal.

