

A cidade polaca de Toruń foi o palco perfeito para uma das páginas mais brilhantes da história do atletismo nacional. A comitiva portuguesa despede-se dos Campeonatos do Mundo de Pista Curta com um balanço absolutamente histórico: duas medalhas de ouro, uma de prata e uma autêntica chuva de recordes nacionais que confirmam o excelente momento da modalidade em Portugal.
O Domínio absoluto – Agate e Gerson no topo do mundo
Se houve disciplina onde Portugal ditou as regras, foi no salto em comprimento. A festa começou com Agate de Sousa, que se sagrou Campeã do Mundo e fez ecoar o hino nacional na arena polaca. Visivelmente emocionada com o feito, a atleta fez questão de sublinhar a importância de quem a rodeia: “Continuo igualmente feliz, mas agora muito mais feliz após ouvir ‘A Portuguesa’. O hino tocou-me o coração (…) Nós sabemos que o atletismo, que apesar de ser um desporto individual, o atleta não se faz sozinho. A mensagem que quero deixar é de agradecimento a todos aqueles que fizeram parte do meu percurso, direta ou indiretamente“.
A hegemonia no fosso ficou completa com Gerson Baldé. O saltador luso imitou a proeza da compatriota e também conquistou a medalha de ouro, sagrando-se Campeão do Mundo numa prova de consagração pessoal. Para Baldé, o ouro foi o culminar de uma vida dedicada à pista: “Esta medalha significa tudo para mim. É o meu percurso desde que comecei o atletismo, em juvenil de primeiro ano. Sempre sonhei em estar nestes grandes palcos.”
A prata suada e as farpas de Nader nos 1500 metros
Nas provas de pista, Isaac Nader protagonizou um dos grandes momentos da competição ao sagrar-se vice-campeão do mundo nos 1500 metros. Contudo, a medalha de prata trouxe consigo um travo amargo devido à agressividade sentida durante a corrida. O meio-fundista luso não teve papas na língua na hora de analisar a tática e os contactos físicos excessivos por parte dos adversários:
“Neste nível, alguns erros pagam-se caros no final (…) Houve muitos contactos, demasiados até. Eu não toco em ninguém, até por respeito à posição dos adversários, e se passar é porque sou melhor. Mas lá está, às vezes as pessoas não têm de ser 100 por cento justas, o desporto é assim.” Nader admitiu mesmo que a sua postura demasiado correta o pode ter prejudicado num final frenético: “Se o sueco e outros colegas gostam de lutar, não é bem a minha postura de estar. Se calhar temos que ser mauzinhos, se calhar o Isaac tem de começar a ser igual. Não foi uma corrida muito positiva.”
Velocidade ao rubro: Recordes Nacionais e antidesportivíssimo nas Estafetas
A velocidade lusa esteve em particular destaque ao longo dos dias em Toruń. Os recordes nacionais caíram em catadupa: Sofia Lavreshina fixou uma nova melhor marca nacional nos 400 metros, Tatjana Pinto igualou o recorde de Portugal nos 60 metros logo nas eliminatórias, e a estafeta feminina dos 4×400 metros também inscreveu um novo recorde do país na distância.
O momento de maior tensão de todos os Mundiais, no entanto, estaria reservado para a estafeta masculina dos 4×400 metros. O quarteto português bateu o Recorde de Portugal, mas a prova ficou manchada por atitudes que ultrapassaram os limites da lealdade competitiva. Omar Elkhatib expressou a sua profunda revolta com a postura da equipa jamaicana, revelando pormenores chocantes sobre a corrida:
“É algo que estava à espera, já sabia que eles iam entrar com este antidesportivíssimo, é a minha opinião (…) Entram à bruta, não querem saber. Como eu sou um gajo maior, até consigo entrar e defender bem a corda, mas foi um bocado difícil para o meu colega Ericsson. Acabou com uma lesão no tendão, abriram-lhe o pé com os bicos. É isto que as pessoas gostam, parece-me. Isto para mim não é desporto.”
Entre o ouro brilhante dos saltos, a prata lutada no meio-fundo e a superação nas provas de velocidade, Portugal encerra a sua participação em Toruń de cabeça erguida, com a certeza de que a nova geração do atletismo nacional tem estofo para lutar contra tudo e contra todos nos maiores palcos mundiais.

