A garra dos Bulls

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No desporto, como em tudo na vida, é preciso saber contornar todos os obstáculos que se possam atravessar no nosso caminho. E quanto mais complicadas forem as adversidades, maior será o proveito que retiraremos para o nosso futuro. Ficamos mais fortes e com uma muito maior capacidade para perceber como somos: seja para conseguir reconhecer cada ponto forte que possamos ter, como para arranjar métodos de autodefesa para os nossos pontos fracos mais expostos. E estes podem muito bem ser os ensinamentos que podemos retirar da equipa dos Chicago Bulls, desde que são treinados por Tom Thibodeau.

Desde 2010, altura em que Thibodeau substituiu Vinny Del Negro no comando técnico da equipa, os Bulls têm dado provas incríveis de sobrevivência e de uma capacidade notável para se conseguirem reinventar. Na primeira temporada do treinador de 56 anos, os Bulls apareciam como uma das grandes potências da Conferência Este: para além da evidente melhoria a nível defensivo, contavam com um Derrick Rose na plenitude das suas capacidades, que brilhava na liga norte-americana, sendo, inclusivamente, eleito o MVP mais novo de sempre de uma fase regular na NBA. Ora, foi sem surpresas que os Bulls acabaram por chegar à final da Conferência Este, perdendo apenas para os poderosos Miami Heat. No entanto, as boas indicações dadas na temporada de 2010/2011 deixavam antever uma nova época ainda mais forte e com maiores possibilidades de sucesso. E, de facto, o ano seguinte parecia estar destinado a ser coroado com sucesso para Rose e companhia, na NBA. Depois de uma fase regular quase imaculada (com um registo soberbo de 50–16), começariam os problemas que iriam devastar a equipa de Chicago. A grave lesão de Derrick Rose no joelho esquerdo deitou por terra as esperanças de uma equipa que já estava muito dependente do base norte-americano para todas as suas manobras táticas. Num ápice, tudo mudou. Completamente destroçados, os Bulls acabariam mesmo por cair na primeira eliminatória da fase decisiva da competição, frente aos banais 76ers (4-2), que tinham tido muitas dificuldades em se qualificarem.

Tom Thibodeau e Derrick Rose. Uma dupla que tarda em ser reeditada / Fonte: Thebullshow.com
Tom Thibodeau e Derrick Rose. Uma dupla que tarda em ser reeditada
Fonte: Thebullshow.com

Com o retorno de Rose incerto, Thibodeau teve de preparar uma equipa nova para atacar a temporada de 2012/2013. Assim, sem mexer muito no esquema tático alicerçado em Noah, Boozer e Deng, foi buscar o pequeno genial Nate Robinson para a posição de Base, que estava órfã de Rose e apenas tinha Kirk Hinrich. A época acabou por ser aceitável, com os Bulls a conseguirem alcançar as semi-finais da Conferência Este, novamente caindo aos pés dos Miami Heat de Lebron James. No entanto, com a eliminação vinha uma boa notícia: Derrick Rose estava recuperado e pronto a jogar. Sem restrições, completamente recuperado e pronto para fazer a pré-época. E este era o indício concreto de que esta seria a temporada derradeira para os Chicago Bulls se afirmarem de vez como um dos sérios candidatos à vitória final. Para isso, Thibodeau teve de se desfazer de Nate Robinson e apostou tudo no regresso de Derrick Rose e numa equipa coesa e pronta a jogar em função do jovem base de 25 anos. E isso só poderia deixar qualquer adepto dos Bulls entusiasmado com as possibilidades da equipa para esta temporada. Eu próprio, confesso, achei que, com Rose, estes Bulls poderiam ter chegado muito longe. O problema é que o infortúnio voltou a atravessar-se à frente da equipa de Tom Thibodeau. No dia 22 de novembro, frente aos Trail Blazers, Derrick Rose volta a lesionar-se gravemente. E, ironia das ironias, no outro joelho. Depois de recuperar do esquerdo, Rose lesiona-se no direito e despedaça os corações dos adeptos da equipa de Chicago. E é aqui que tudo se desmorona novamente. É complicado gerir um plantel com estas contantes derrocadas. E pareceu-me que, com a lesão de Rose, os Bulls, numa primeira fase, aparentaram deitar a toalha ao chão e desistir de lutar. Começaram a perder jogos atrás de jogos, e era óbvio que Thibodeau tinha de deixar de pensar no sucesso desta época e centrar atenções para o futuro. Começar a renovar a equipa, abrir algum espaço do seu salary cap para novos jogadores e limitar-se a cumprir o que faltava do campeonato com a dignidade possível. É com este propósito que, sem muito mais a ganhar, os Bulls acabaram por trocar Luol Deng para os Cavaliers. Era a resignação total. Perder Rose e depois despachar um dos poucos jogadores que conseguiam fazer a diferença era a confirmação pública de que, em Chicago, já se pensava na próxima temporada.

Mas eis que, senhoras e senhores, os Bulls surpreenderam tudo e todos e voltaram à carga. Discretamente, foram buscar o jovem D. J. Augustin, que tinha sido dispensado dos Raptors, para a posição de base, onde só estava, novamente, o veterano Kirk Hinrich, e integraram Mike Dunleavy Jr. no lugar que pertencia a Deng no cinco inicial. E os resultados estão a ser absolutamente surpreendentes: desde que Deng abandonou o plantel, os Bulls galvanizaram-se e estão com um diferenciador positivo de 8-3 e com possibilidades muito fortes de se qualificarem para os playoffs novamente. As ausências de Rose e Deng uniram ainda mais a equipa e agora estão muito mais sólidos. Permitam-me o paralelismo com os Raptors: também eles perderam a sua principal estrela recentemente (falo de Rudy Gay) e, incrivelmente, ficaram mais fortes e com melhores resultados. Um fenómeno interessante e que começa a ser recorrente na NBA.

Jimmy Butler, D.J. Augustin e Joakim Noah têm sido alguns dos destaques dos Bulls nesta temporada / Fonte: Chicagotribune.com
Jimmy Butler, D.J. Augustin e Joakim Noah têm-se destacado nesta temporada
Fonte: Chicagotribune.com

Quem anunciava a “morte” dos Bulls para esta temporada vai ter de esperar. Porque, está visto, esta é uma das equipas mais guerreiras da NBA e aquela que, por mais adversidades que se lhes atravessem, nunca vai deitar a toalha ao chão. E, agora, dá para ver bem as potencialidades que ainda há no plantel para este continuar a lutar. Mesmo com poucos argumentos, ainda há um poste incrível chamado Joakim Noah, que é o espelho da força e do espírito de equipa que os jogadores de Chicago têm. O guerreiro Noah é o protótipo ideal daquilo que é um jogador dos Bulls. E eu, sinceramente, espero que tão cedo não abandone o barco. Para além do francês, têm o já referido reforço D. J. Augustin, que entrou forte e trouxe mais qualidade e ideias ao processo ofensivo da equipa, que carecia de ideias. Depois ainda há Boozer, que é sempre um elemento com algum peso a nível defensivo, tal como o 6th man da equipa, Taj Gibson, que se encontra num momento de forma fantástico. Finalmente, convém não esquecer Mike Dunleavy Jr., que, apesar de não ser um elemento com uma capacidade defensiva aceitável, é um grande atirador e garante qualidade nos três pontos e nas movimentações ofensivas da equipa e Jimmy Butler por quem ninguém dava nada no ano de rookie e que agora é um dos elementos mais regulares da equipa.

Se estes argumentos chegam para continuar a sonhar? Não sei, é cedo para dizer. Mas este plantel tem provado a Tom Thibodeau que, pelo menos, há capacidade para lutar. O espírito de equipa está reforçadíssimo e, apesar de não haver muito talento individual, há, no plantel de Chicago, uma força de vontade enorme e um querer inacreditável que fazem qualquer adepto ficar otimista. Venham as adversidades que vierem, em Chicago, já nada pode assustar. O pior já passou. Agora, os Bulls estão prontos. E não temem ninguém.

Mário Cagica Oliveira
Mário Cagica Oliveirahttp://www.bolanarede.pt
O Mário é o fundador e diretor-geral do Bola na Rede. É também comentador de Desporto na DAZN, SIC e Rádio Observador e professor universitário.

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