Tadej Pogacar: Ciclista dominante, mas não entediante

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Tadej Pogacar é um ciclista conhecido pelas suas exibições dominantes, sendo mesmo o ciclista com mais vitórias em 2022. Aos 24 anos, conta já com duas Voltas à Lombardia, uma Liége-Bastogne-Liége e ainda com uma Strade Bianche… isto no que às corridas de um diz respeito.

Nas corridas por etapas, Pogacar começou logo por ganhar na Volta ao Algarve, uma das primeiras corridas que fez com a camisola da UAE Emirates, estrutura na qual se mantém até hoje. O esloveno começou logo a brilhar nas grandes voltas, quando em 2019 venceu duas etapas da Vuelta e acabou no terceiro lugar da geral, impressionante para um ciclista que fazia a sua primeira grande volta. A vitória no Tour surgiu em 2020 e doravante, Pogacar começou a ganhar múltiplas provas de 1 semana como o Tirrieno Adriático e a Volta aos Emirados Árabes Unidos.

As exibições nas grandes voltas não abrandaram com Pogacar a vencer de forma dominante a Volta à França de 2021, batendo Jonas Vingegaard e Richard Carapaz. A naturalidade com que o esloveno ganhou parecia assinalar um período de domínio por parte do esloveno.

Ora, isso não pode acontecer, um ciclista (ou até um atleta em geral) não pode ganhar muito dentro de uma modalidade, sem que esta fique aborrecida. É uma perspetiva muito popular mas até que ponto está correta? Atletas e equipas dominantes fazem parte de qualquer modalidade e não têm de ser aborrecidos, aliás é nesses períodos de hegemonia que se vê a criação de recordes que perduram anos, décadas que vão impulsionar a criação de outras estrelas.

O aparecimento de uma figura dominante, um ciclista quase (enfâse no quase, vai ser importante) imbatível, bom em todos os terrenos, é isso que obriga o resto do pelotão a elevar o respetivo nível para lhe fazer frente e faz todos os momentos em que Pogacar seja derrotado, especiais, assim como o ciclista que alcance essa façanha. Que o diga Jonas Vingegaard.

COMO O DOMÍNIO DE POGACAR ELEVOU VINGEGAARD

Jonas Vingegaard é um dos nomes grandes do ciclismo em 2023, sendo que a defesa do seu título de vencedor do Tour é o momento mais antecipado, até por representar a desforra de Tadej Pogacar uma vez que a estrela dinamarquesa fez o que parecia impossível e derrotou Pogacar em 3 semanas. O momento mais importante desta batalha terá sido logo na etapa 11 com chegada ao alto do Col de Granon. Pogacar isolado teve de responder a ataques sucessivos de Primoz Roglic e Jonas Vingegaard ainda antes da última subida do dia.

Julgava-se que essa desvantagem numérica seria o maior teste ao “tri” de Pogacar e o esloveno parecia estar a ultrapassá-lo com nota máxima. Contudo, a 4 km da meta Vingegaard lança um ataque marcadamente mais forte do que os iniciais mas que parecia servir para testar Pogacar. O esloveno nem sequer saiu da roda de Rafal Majka e o que se seguiu foram minutos de drama, com Vingegaard em grande pela subida acima, um contraste claro com a figura “apeada” de Pogacar, como nunca antes tinha sido visto. O campeão estava a quebrar, havia um buraco na armadura.

Um momento semelhante tinha acontecido em 2021 no Mont Ventoux, quando Vingegaard voltou a quebrar Pogacar, a deixar o esloveno “a pé”. O motivo porque esse momento não é tão icónico (simplesmente mais chocante) é mesmo o facto de numa etapa anterior, Tadej Pogacar ter feito uma das melhores exibições da carreira para ganhar cerca de 4 minutos aos adversários mais diretos na geral. Existe uma ressalva: Vingegaard estava afetado por quedas ao longo dessa primeira semana da Volta à França, assim como quase toda a equipa da Jumbo-Visma. Desta forma, com o abandono da prova por Primoz Roglic, não existia uma equipa capaz de controlar a corrida, o que deu mais liberdade e acentuou a superioridade de Pogacar.

Nas duas chegadas em alto da terceira semana, Pogacar não seria capaz de deixar Carapaz e Vingegaard para trás a não ser no arranque para o sprint final. Tanto em Luz Ardiden como no col du Portet, Pogacar atacava, atacava e voltava a atacar para provar o seu domínio mas nenhum dos companheiros do pódio descolava.

É o domínio com que Tadej Pogacar alcança as suas vitórias que eleva instantaneamente quem lhe faz frente. Vingegaard é o caso maior, mas até Enric Mas demonstrou uma capacidade incrível na Volta à Andaluzia, ameaçando deixar Pogacar (que acabou por vencer a prova) para trás.

A MEMÓRIA CURTA NÃO APANHOU O “SKY TRAIN”

A SKY (atualmente INEOS Grenadiers) foi a equipa que dominou a década dos anos 2010. 7 Voltas à França, 2 Vueltas e 1 Giro, com 4 ciclistas diferentes provam esse domínio. A SKY, ainda assim, tinha uma particularidade que veio muito ao de cima entre 2015 e 2017, em três das quatro vitórias de Froome no Tour: a falta de ataques.

A SKY apresentou sempre uma grande equipa, mas a discrepância em relação às demais nesses anos era assombrosa. Como tal, os próprios líderes das equipas adversárias, como Alberto Contador, Nairo Quintana e Vincenzo Nibali tinham de se aventurar por si próprios com pequenos ataques para desgastar o bloco britânico, Raramente tinham sucesso mas caso conseguissem, era preciso ainda ter pernas para derrotar o próprio Christopher Froome.

Como era raro desmontar esse bloco com sucesso e com ciclistas e equipas a não quererem arriscar o seu lugar no pódio, no top 5 ou no top 10, era comum assistir a etapas em que ninguém se mexia e apenas o SKY-train ficava na frente, sem preparar sequer um ataque. Eram corridas monótonas e extremamente previsíveis.

E é isso que ciclistas como Tadej Pogacar trazem de importante ao ciclismo: combinam capacidade com imprevisibilidade; domínio com talento, com ataques a 50 ou a 30 km da meta que, no passado, permitiram contar as melhores histórias do ciclismo. Num desporto que estava a ser inteiramente controlado pela ciência e pelos números, parece que tornou a existir espaço para o coração bater. E o mesmo pode ser dito em relação à importância de nomes como Jonas Vingegaard, Remco Evenepoel, Mathieu Van der Poel e Wout Van Aert.

Filipe Pereira
Filipe Pereira
Licenciado em Ciências da Comunicação na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, o Filipe é apaixonado por política e desporto. Completamente cativado por ciclismo e wrestling, não perde a hipótese de acompanhar outras modalidades e de conhecer as histórias menos convencionais. Escreve com acordo ortográfico.

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