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Foi uma edição de Paris – Roubaix claramente marcada pelo triste acontecimento que foi a morte de Michael Goolaerts. O jovem ciclista belga da equipa da Vérandas Willems-Crelan faleceu segundo consta devido a uma paragem cardíaca que depois motivou a sua queda e posterior ida ao hospital, é um acontecimento trágico que infelizmente manchará esta 116 ª edição do Paris – Roubaix.
O primeiro domingo da Abril é normalmente reservado para a corrida do ano em França, “O Inferno do Norte” que testa a capacidade dos ciclistas nos mais variados climas no norte de França. Mas foi um dia solarengo que recebia os ciclistas à partida de Compiègne perspectivando uma corrida aberta e com os sectores de pavê secos poderia haver uma diminuta chance de quedas, pese embora muitos sectores estarem com lama nas bermas mas como se sabe não é por não chover que o Paris – Roubaix se tornará mais fácil de ser corrido.
Dos 29 sectores de pavê havia três categorizados com cinco estrelas que poderiam fazer grandes diferenças no pelotão e estragos em alguns dos favoritos, são eles o mítico Trouée d´Arenberg de 2400m, o Mons-en-Pévèle com 3000m e o Carrefour de l’Arbre de 2100m.

Fonte: Paris-Roubaix
Dos favoritos à vitória destacam-se armada belga Sep Vanmarcke (Education First-Drapac Cannondale) o campeão em título Greg Van Avermaet (BMC), Jasper Stuyen (Trek-Segafredo), Phillipe Gilbert (Quick-Step Floors) e os também favoritos Peter Sagan (Bora Hansgrohe), Gianni Moscon (Team Sky) Niki Terpstra e Zdenek Stybar (Quick-Step Floors), bem como os outsiders Kirstoff (UAE Emirates) Jens Debusschere (Lotto Soudal), Oliver Naessen (Ag2R La Mondiale) e a jovem promessa Wout Van Aert (Vérandas Willems-Crelan).
A questão maior de todas, tendo em conta os acontecimentos em outras provas de pavê, era de como fazer com que a Quick-Step fosse batida tendo o bloco mais forte neste tipo de provas. A resposta veríamos mais à frente.
O Paris – Roubaix não se ganha nos primeiros sectores de pavê mas pode perder-se a prova nesta fase da corrida, é uma afirmação feita por vários especialistas e que faz todo o sentido.
E foi numa primeira fase da corrida ainda antes dos primeiros sectores de pavê que os ciclistas, mostrando algum nervosismo, começam a ter várias quedas, e para nossa infelicidade o português Nélson Oliveira (Movistar Team) com uma queda muito feia foi dos primeiros a ir parar ao hospital. Poucas mexidas houve na primeira fase da corrida e os grandes acontecimentos que houve, tiveram a ver com quedas e/ou problemas mecânicos, ainda assim uma fuga conseguiu vingar.

Fonte: Paris-Roubaix
A primeira grande mexida feita na corrida surge no sector de Arenberg com Mike Teunissen (Team Sunweb) e Philippe Gilbert impuseram a sua força nesta fase da corrida dando início a uma sequência de mexidas de homens importantes. Ficava à vista qual seria a táctica que a Quick-Step utilizaria, pois mais à frente seria a vez de Stybar fazer o mesmo que o seu companheiro, esticando ainda mais o grupo e aqueles que iam em dificuldades ficavam definitivamente fora da corrida.
No início do ano Peter Sagan marcou como objectivo pessoal a vitória no Paris-Roubaix e mostrou essas intenções à entrada do Mons-en-Pévèle, segundo sector de cinco estrelas que os ciclistas passavam, para desferir um ataque que ninguém no grupo de favoritos soube responder, um pouco à imagem do que aconteceu no Tour de Flandres, quando Terpstra também desferiu um ataque longe da meta e ninguém respondeu.
Contando com o duo que ia na frente Jelle Walays (Lotto Soudal) e Silvian Dillier (Ag2R La Mondiale), Peter Sagan consegue aumentar a sua vantagem para o grupo dos favoritos. Lá atrás o holandês Nicky Terpstra endureceu o ritmo com Van Avarmaet e Sep Vanmarcke, entre os grandes favoritos tentando encurtar distâncias, para quando se aproximasse o sector do Carrefour de l´Arbre, fazerem a junção.
Mas tal não aconteceu.
Na frente Wallays não aguentava o ritmo de Sagan, restando apenas o campeão suíço Silvan Dillier que já ia em fuga quase desde o início da corrida. No grupo perseguidor não havia entendimento e o tempo mantinha-se praticamente inalterado. Talvez para espanto de Sagan, o campeão suíço mantinha-se agarrado à esperança de conseguir a vitória e ia-se aguentando na frente da corrida, uma situação que foi bem aceite por Sagan que em conjunto com o suiço uniram esforços e levaram a sua fuga avante.
Os últimos kms foram emocionantes, tanto na frente da corrida, porque a qualquer momento Sagan podia ir embora, como quer na luta pelo pódio e pelo top-10, onde vimos muitos grupos formados em lutas titânicas. O jovem Van Aert com um problema mecânico ficaria arredado da luta pelo pódio ficando no grupo que iria lutar pelo top-10, grupo onde estavam Stybar, Debusschere e Oliver Naessen, nos nomes mais sonantes.
Pelo pódio Terpstra, que levava consigo Van Avarmaet, Stuyen e Vanmarcke ligava o turbo, e conseguia fugir indo directamente para o terceiro lugar, uma pequena consolação para o ciclista holandês que pelo que mostrou poderia ter feito um lugar melhor.
Na chegada ao velódromo, pelas suas características, Sagan era o grande favorito mesmo tendo Dillier feito parte da sua carreira em pista, mas a maior experiência do eslovaco em situações destas faria com que de forma categórica se impusesse ao sprint conseguindo um dos monumentos que tanto almejava na sua carreira.
Uma palavra para Dillier que bateu-se grandemente com Sagan, mesmo vindo muitos quilómetros em fuga, não facilitando a vida a Sagan negando-lhe a hipótese de chegar isolado ao velódromo. E o que dizer de Sagan, consegue um dos seus objectivos desta época, acrescentando ao seu currículo um dos monumentos mais conceituados e que tão bem lhe assenta.

Fonte: Paris-Roubaix
37 anos depois a camisola de arco-íris envergada por Sagan volta a brilhar no velódromo de Roubaix depois de em 1981 Bernard Hinault ter sido o último ciclista campeão do mundo a vencer esta prova com esta camisola, mostra bem quão importante foi esta vitória do eslovaco.
Nos destaques, pela positiva agradou me a prestação de Tony Martin (Team Katusha – Alpecin), pese embora a classificação, o ciclista alemão apareceu sempre na frente nos sectores de pavê impondo o ritmo por diversas vezes e deixando muitos ciclistas em maus lençóis. Outro grande destaque vem de outro alemão também da Team Katusha – Alpecin, Nils Politt com um belo 7º lugar um feito do jovem alemão que talvez nem se esperasse um lugar nos 20 primeiros. Também no top-10 e de forma que ninguém esperava, Taylor Phinney (Education First-Drapac Cannondale), ele que já venceu esta prova nos juniores, tem andado arredado dos lugares de topo aparece aqui em grande forma sendo também uma boa ajuda ao seu companheiro de equipa Sep Vanmarcke.
Por fim mencionar novamente o jovem Wout Van Aert, não fosse a avaria que teve já em fase decisiva da prova e talvez tivesse conseguido um grande resultado, mesmo assim o seu 13º lugar mostra que é um nome que vamos ver muito nestas andanças, ele que no ano de estreia fez top-10 no Tour de Flandres e na Gent-Welvegen, fica à porta do top-10 aqui em Roubaix mas mostra que aos belgas que tem aqui um futuro campeão.
Pela negativa quero destacar a Quick Step, que jogou mal tacticamente, se num primeiro momento pareceu-nos que ao lançar vários ciclistas à vez para a frente de corrida fosse uma boa opção, o mesmo não podemos dizer no momento do ataque de Sagan, onde nada fizeram para encurtar o espaço para Sagan, quando tinham em Terpstra um elemento que podia muito bem ter acompanhado o eslovaco e ficando resignados a um 3º lugar do holandês.
Também dizer que Greg Van Avarmaet tem passado claramente ao lado destas clássicas, não parecendo o mesmo que venceu a edição do ano passado deste Paris-Roubaix, nem dos jogos olímpicos, tem sido para já para esquecer esta época para o belga.

Fonte: Véranda’s Willems – Crelan
Finalizo como comecei, com a morte do jovem Michael Goolaerts que deixará marcada na história desta prova como um momento terrível, uma mancha nesta bela prova que se faz através do esforço hercúleo dos ciclistas nas condições mais adversas,levando ao olimpo aquele que triunfa, e ao inferno aqueles que vão caindo prostrados perante a dureza de tal percurso.
Clavículas partidas, hematomas, fraturas de qualquer espécie, são meras marcas que os ciclistas levam para o resto da sua vida, lembranças que um dia já passaram pelo inferno, já o mesmo não poderá dizer Goolaerts, o jovem belga levou todas essas marcas diretamente para o céu!
Em nome do Bola na Rede as minhas condolências à família, amigos e colegas de Goolaerts, que descanse em paz.
Foto de Capa: Paris-Roubaix











