O Touro e o Toureiro – A derrota de Ronda Rousey

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Um touro e um toureiro “apeado”, ou “à espanhola”, encontram-se numa arena. O touro avança para o toureiro com o objectivo de lhe acertar, mas falha. Ou melhor, é levado a falhar. Por muitas vezes que o touro se insurja, o toureiro esquiva-se em todas elas, espetando bandarilhas que atiçam ao mesmo tempo que cansam o touro. Este vai sendo dominado, preparado para a estocada final. Quando esta altura chega, o toureiro aproxima-se do touro e crava a sua espada o mais próximo que conseguir do coração, matando-o. Assim, o toureiro confirma a sua superioridade e banaliza a raiva e força desenfreada do animal que se lhe opôs. Um espetáculo para uns, um desconcerto para outros.

No momento em que vi Rousey caiu ao tapete fiquei petrificado em frente ao ecrã, totalmente desconcertado. Pisquei os olhos várias vezes, abanei a cabeça, não acreditei imediatamente. O título foi colocado à volta da cintura de Holly Holm e ainda estava à procura de outra realidade, uma em que Ronda Rousey não tivesse perdido, uma onde tudo fosse normal. Mas Ronda perdeu, e não foi por sorte. Tenho, enquanto fã de Ronda, alguma dificuldade em escrever isto, mas seria injusto de mim dizer que Holm simplesmente venceu. Não, é falso. Holly Holm destruiu um ícone, banalizou Rousey à semelhança daquilo que um toureiro faz a um touro. Fez algo que me custará a ver independentemente das vezes que o veja. Não há como digerir.

Antes de o combate começar, Ronda recusou-se a tocar luvas com Holm, provavelmente devido ao que se sucedeu nas pesagens – Rousey aproximou-se muito de Holly, esta tocou-lhe com o punho e Ronda explodiu, acusando nervosismo e pressão. A ex-boxer, por outro lado, manteve-se calma e serena. No combate o mesmo se passou.

Ronda tentou, logo de início, encurtar o espaço em relação a Holm, mantendo pressão para que esta não fosse capaz de dar uso à sua vantagem de envergadura. Como um touro, Rousey parecia cega: simplesmente perseguia a sua adversária, tentando soqueá-la. Esta, por sua vez, ia-se esquivando e esperava as aberturas criadas pela displicência de Rousey para acertar jabs de esquerda e anular o seu movimento com alguns pontapés oblíquos (característicos de Jon Jones, parceiro de equipa de Holly Holm). Esta cena acima descrita foi recorrente e acabou por ser o espetar das bandarilhas por parte de “The Preacher’s Daughter”. No final do primeiro assalto Rousey já estava exausta, já sangrava.

Holly Holm (branco) desfere o pontapé que termina o reinado e onda invicta de Rousey (preto) Fonte: UFC
Holly Holm (branco) desfere o pontapé que termina o reinado e onda invicta de Rousey (preto)
Fonte: UFC

Na ronda seguinte Rousey tornou a perseguir a antiga campeã mundial de Boxe desenfreadamente e sem grande critério. Num destes movimentos, Holm tourou Rousey por completo, levando-a a ir contra a rede. Quando “Rowdy” se levantou e virou para Holm via-se na sua cara que não estava apenas quebrada fisicamente, mas também psicológica e emocionalmente. Via-se que estava em desespero, impotente, a viver um pesadelo. Tornou a dirigir-se a Holm, que a recebeu com dois jabs de esquerda. O último tombou Ronda. Quando se levantou, fê-lo de costas para a sua adversária. Holm virou-a e desferiu aquele que será um dos pontapés altos mais marcantes da história da UFC, aquele que deixou Ronda “Rowdy” Rousey K.O.

O plano de Ronda para o combate foi uma das causas da sua derrota: a meu ver, subestimou Holly Holm a partir do momento em que tentou combater de pé com esta, sobrevalorizando assim o seu próprio striking. Talvez devesse ter recorrido ao seu ganha-pão (judo) ao invés de ter tentado provar um ponto ao tentar vencer no “stand-up”. Quem tinha algo a provar era Holm, afinal.

Não me vou alongar, no entanto, nesta análise. Não é justo para Holm, que venceu de forma fantástica, nem para Rousey, que, por enquanto, não tem forma de se defender das críticas que circulam nos meios de comunicação. Prefiro antes focar-me naquilo que está para vir.

White e Holm ambos deixaram no ar a possibilidade de uma desforra imediata para Ronda. A acontecer, o mais provável é que seja no futuro UFC 200, que marcará, conforme o número indica, o 200º PPV da organização. Por agora não temos como saber o que vai na cabeça de Rousey, mas espero que esta continue. Ainda é um ícone, um ídolo para muitos, e tem muito a provar. Acredito que quererá sair de cabeça e braço erguido, com um legado que uma derrota não mancha. Depois de todas as adversidades que já passou não podemos acreditar que vai parar por aqui. Esperem um regresso, esperem uma vitória. Parabéns Holly, até já Ronda.

Fonte: UFC

Gonçalo Caseiro
Gonçalo Caseirohttp://www.bolanarede.pt
Entusiasta de MMA e futebol, o Gonçalo apoia fervorosamente o Benfica e a ideia de que desportos de combate não são apenas socos e pontapés.                                                                                                                                                 O Gonçalo não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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