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Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016 estiveram longe de ser perfeitos e uma das várias polémicas deu-se com a exclusão da participação de atletas russos no atletismo e no levantamento de pesos. Tudo começou em julho do mesmo ano com a apresentação da Primeira Parte do Relatório McLaren, um documento da autoria do jurista Richard McLares, contratado pela Agência Mundial Anti-Dopagem (WADA) para investigar alegações de doping sistemático e organizado estatalmente pela Rússia. Em resposta, o Comité Olímpico Internacional (COI) ameaçou excluir a Federação Russa das Olimpíadas como um todo, mas acabou por deixar a decisão nas mãos das entidades reguladoras de cada modalidade.
Este foi o primeiro erro na forma como todo este caso tem sido conduzido pelo COI, já que o mais sensato seria assumir os resultados do relatório e decidir um castigo em concordância ou esperar pela Segunda Parte do mesmo para tomar uma decisão final sobre qual era a punição adequada. Ao invés, o COI enveredou por um caminho de se desresponsabilizar e deixar a batata quente nas mãos de outros, acabando permitir injustiças e tratamentos desiguais dos atletas. Atitude bem diferente foi a do Comité Paralímpico Internacional que tomou uma posição firme e baniu a Rússia dos seus Jogos em 2016.
Em julho do mesmo ano, seria publicada a Segunda Parte do Relatório McLaren que se debruçava sobre a forma como o Estado russo tinha controlado o sistema de testes anti-dopagem no período dos Jogos Olímpicos de Inverno que decorreram no seu país, em Sochi 2014, confirmando a influência estatal nos mecanismos de fraude desportiva a que os atletas recorriam.

Fonte: Comité Olímpico Internacional
Ora, entretanto, o COI pediu às Federações das modalidades que procurassem alternativas à Rússia para os eventos internacionais a realizar nesta. Também aqui se viu a relevância que diferentes modalidades dão ao combate ao doping. Se, por um lado, a Federação Internacional de Ski suspendeu vários atletas e retirou ao país dos czares a organização de alguns eventos, por outro, a FIFA nem sequer considerou a hipótese de realocar a Taça das Confederações de 2017 ou o Mundial de Futebol de 2018.
Em seguida, foi a vez da Comissão Disciplinar do COI se inteirar da situação e se debruçar a fundo sobre as várias acusações enfrentadas pela Rússia. Assim surgiu o Relatório Schmid, liderado pelo antigo Presidente da Suíça Samuel Schmid e que confirmou as descobertas do Relatório McLaren, nomeadamente que havia sido desenvolvido um sistema que permitia a um laboratório moscovita alterar constantemente resultados positivos para negativos em controlos anti-doping e que este sistema era financiado estatalmente.
Ainda assim, o Presidente do Comité Olímpico Russo nega as acusações e alega que o Relatório Schmid não tem provas para tirar conclusões de qualquer envolvimento estatal em programas de dopagem. Adicionalmente, os russos terão tido acesso ao Relatório apenas 20 minutos antes de apresentarem ao COI o seu caso em favor da não proibição de participação nas Olimpíadas de PyeongChang 2018.
Tudo isto resultou no COI deliberar em suspender o Comité Olímpico Russo, mas permitir a participação de atletas deste país sob restritas regras. Além do mais, entre as outras deliberações encontra-se a não acreditação de qualquer oficial do Ministério do Desporto Russo nos Jogos que se realizarão na Coreia do Sul em fevereiro próximo. Sendo uma decisão drástica e que poderá causar problemas diplomáticos, é mesmo assim a mais ajustada para tentar credibilizar o desporto e reparar alguns dos tantos danos que o doping tem feito, mas a sua eficácia dependerá também de como for gerido o processo dos atletas que participarem neste novo modelo criado Ad Hoc pelo COI.
Perante esta decisão, havia grande expectativa de que a Federação Russa a tomasse como um ataque e que o Kremlin decidisse aplicar um boicote às Olimpíadas, só que tal não aconteceu e, indo ao encontro dos anseios dos atletas do seu país, Vladimir Putin veio a público anunciar que seria permitido aos desportistas russos competirem como neutros. Na mesma declaração, o Presidente disse ainda que a Rússia tinha uma parte da culpa pela situação, mas reiterou que não havia provas de qualquer intervenção estatal e que houve um aproveitamento pouco honesto do que foi realmente provado pelos Relatórios.
Esta posição de Putin é algo surpreendente já que o Presidente Russo anunciou recentemente a sua recandidatura ao cargo e podia ficar inclinado em mostrar uma posição de força, até porque algumas personalidades do Regime já tinham avançado com a narrativa de que este seria mais um passo que viria na tentativa do Ocidente de minar a posição do país. Apesar de tudo, Putin fugiu a essa tentação e embarcou por uma retórica mais suave, de protetor dos seus atletas e das suas ambições.
Esta decisão afetará os Jogos como um todo, mas poderá ser dramática nalgumas modalidades, que correm o risco de ver os seus grandes nomes ficar de fora. A bi-Campeã do Mundo de Patinagem Artística e super-favorita ao ouro olímpico, Evgenia Medvedeva, que se mostrou revoltada com a decisão afirmando que pensava que os atletas russos ‘limpos’ não tinha que se preocupar, é uma das maiores figuras que fica no limbo à espera de uma decisão do COI. O ski cross-country e o Biatlo serão as outras modalidades mais afetadas, já que a Rússia tem sérios candidatos às medalhas em várias provas. Outra modalidade que fica em posição frágil é o hóquei no gelo, que já perdeu os atletas da NHL e agora arrisca-se a perder outra das melhores seleções, baixando o nível da competição ainda mais e tornando-o pouco condizente com o prestígio que supostamente teria.

Fonte: Evgenia Medvedeva
Temos, então, de olhar para este sistema de participação como neutros a que os atletas se sujeitarão, na esperança de não deitar a perder todas as preparações destes quatro anos. A possibilidade de participação é como “Atleta Olímpico da Rússia”, sob a bandeira olímpica e será o hino olímpico a tocar em cerimónias de entrega de medalhas. Será criado um painel liderado por Valerie Fourneyron, Presidente da Autoridade de Controlo Independente e antiga Ministra do Desporto da França, que analisará os pedidos dos atletas e que, tendo em conta o rendimento desportivo e critérios de controlo anti-dopagem, apresentará ao COI uma lista daqueles que podem ser convidados, tendo depois o Comité Olímpico Internacional discrição para escolher a quem desses endereça os convites para participar.
Esta solução tenta salvaguardar os interesses dos atletas, mas também a verdade desportiva, já que há um grande foco nos critérios de controlo a serem aplicados por este painel. Ora, a situação em si é complicada de analisar e de tomar uma posição totalmente contra ou a favor, porque as conclusões dos Relatórios McLaren e Schmid são de uma gravidade tal que não podem ser ignoradas e exigem severidade, mas também é importante não esquecer que os atletas se preparam durante quatro anos a pensar nos Jogos Olímpicos e não devemos condenar nem prejudicar nenhum atleta contra o qual não haja provas de malfeitoria.
Em geral, a ideia por trás da decisão do COI está correta e foi um bom equilíbrio entre estas duas faces da moeda, mas falta ainda saber como será aplicada na prática, pois há ainda muitas dúvidas sobre como se passará este sistema de convites no caso concreto, causando nervosismo incerteza aos atletas. Apesar de alguns erros, o COI está, para já, a gerir este tema com sensatez e a recuperar credibilidade para o desporto, mas terá que continuar bem atento nos próximos tempos, porque a forma como lidar com este sistema de convites que criou pode ser a diferença entre PeyongChang 2018 ser um exemplo a seguir no combate à fraude ou um fiasco.
Foto de Capa: Comité Olímpico Internacional












