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Os videojogos enquanto desporto

Ricardo Mota · 4 min

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Cabeçalho modalidadesÉ um contrassenso. Quando se pensa em videojogos, imaginamos um sedentário nerd, de janelas semicerradas agarrado a um computador ou consola durante largas horas a fio, desperdiçando a sua vida. O preconceito é quase omnipresente e, contrariamente aos outros produtos de cultura, é quase exclusivamente pejorativo. Não me ocorre alguém ser criticado por adorar livros, por ouvir muita música ou por ser um fã incondicional de cinema. Professor que sou, nunca vi uma mãe preocupada com o insucesso escolar do seu rebento por força das suas constantes idas a concertos ou pelo devorar de clássicos de literatura até às 2 da manhã. Mas os videojogos… isso são “coisas de crianças”; são brincadeiras; são desperdícios de tempo. Não se aprende nada.

Há um sem-número de argumentos que vão sendo usados para denegrir esta forma de entretenimento em particular. Daí que o facto de um videojogo se tornar um desporto deixe alguns boquiabertos… daí o facto de, quando se fala de números nos desportos tradicionais e se refere que há eventos de eSports cujo prémio é maior do que o de um Masters de Golf, das finais de NBA ou do famoso Super Bowl, essa incredulidade venha acompanhada de ruídos de incompreensão.

Fonte: Dota Blast
NBA Finals – 24 milhões de espectadores na AB, aproximadamente 7 milhões de dólares de prémio
Fonte: Dotablast.com

Um dos passos importantes foi dado há relativamente pouco tempo, com intenções de articular campeonatos de desportos electrónicos com os Jogos Olímpicos. Há, claro, um conjunto de regras específicas para os desportos electrónicos que não encontram particular reflexo nos desportos convencionais. Estes primam por uma estabilidade em termos de regras e alterações.

É assim no futebol, onde potenciais alterações são testadas durante longos períodos de tempo e em competições devidamente controladas. Há regras desde tempos imemoriais. Ora no volátil mundo dos videojogos, o terreno e as regras de jogo sofrem alterações várias vezes por ano… Em alguns casos as mudanças são quase semanais, trazendo novas funcionalidades, personagens ou objectos e corrigindo erros ou ajustando aqui e ali, a bem do equilíbrio. Pior, nem sempre essas alterações surtem o efeito necessário e são comuns várias iterações de alterações em determinado ponto até que a coisa agrade a gregos e a troianos. É, portanto, diferente dos desportos tradicionais, e arrisco dizer que nunca será igual por muito que se tente uniformizar a coisa ou mesclar desportos com eSports. Há até quem opte por apelidar os eSports de “modalidade”, como se a coisa se resumisse a uma só.

Fonte: Jens Hilgers
Lista de eSports por rentabilidade
Fonte: Jens Hilgers

Certo é que se cumprem determinados preceitos para que determinados videojogos sejam considerados desporto. É um ambiente competitivo controlado, com regras estipuladas; a perícia tem um papel fulcral no sucesso, e há vários ramos de diferentes perícias a explorar. O treino, individual ou em equipa, é fundamental. Há estratégias a seguir, barreiras a ultrapassar, objectivos a cumprir até à meta da vitória. A rapidez de execução, a qualidade da mesma, a capacidade e velocidade de decidir e o reajuste de um plano inicial estão também presentes, com notas elevadas para o seu peso no sucesso e há, claro, uma vertente muito física também. Os reflexos são importantes, treinando-se e afinando-se até à centésima de segundo os tempos de reacção e execução. A precisão e a coordenação óculo-motora são trabalhadas até à exaustão e, por falar nela, a resistência física e psicológica assumem também papéis importantes, em eventos decisivos cuja jornada se pode alastrar por longas horas… e treino, muito treino. Geral, específico, orientado, livre, por objectivos… treino. Horas e horas diárias de treino… a isto tudo, acresce o público. Um desporto é um espectáculo, é algo para ser visto como entretenimento por multidões ao rubro, torcendo por equipas, vibrando pelos pontos, tremendo ante a perspectiva de derrota… pois bem, tudo isto está nos eSports. Tudo isto está nos desportos electrónicos.

Das centenas de milhar de milhões de jogadores um pouco por todo mundo, apenas uns quantos se tornarão atletas. Desses, apenas uma fracção conseguirá tornar-se profissional e viver de uma carreira… Não muito diferente dos desportos convencionais, portanto… com algumas diferenças: não é fácil começar uma carreira. Não há, ainda, clubes a lançar e financiar épocas de captação e treinos, não há equipas técnicas interessadas em olhar para a eira e separar o trigo do joio por entre milhões de candidatos. E, claro, a diferença no apoio da família. Inúmeras famílias regozijam-se e apoiam os jovens candidatos a futebolistas. Incentivam-nos e vibram com eles. Por outro lado, poucos serão os jogadores de eSports, profissionais ou semi-profissionais (para nem tocar aqui os amadores) que nunca tiveram problemas com os seus familiares devido à sua escolha de carreira. Afinal, os videojogos não dão dinheiro, pois não?

Tendo apenas em conta o dinheiro de prémios de torneios, descartando portanto coisas como salários e acordos publicitários, temos “apenas” 30 atletas de eSports milionários. Ora se tivermos em conta que o cenário internacional de eSports cresceu financeiramente apenas nos últimos 5 anos, os números são, em perspectiva, bastante bons. Iremos explorar a origem deste dinheiro num dos próximos artigos. Até lá arranca esta semana aquele que é um dos maiores eventos de eSports do mundo, o The International. São mais de 23 milhões de dólares em disputa ao longo de mais de uma semana. Vale a pena espreitar!

Foto de Capa: Eurosport

artigo revisto por: Ana Ferreira

 

Ricardo Mota

Redação Bola na Rede · ver artigos