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Tóquio 2020, Natação #3: Cumpriu-se momento histórico para os nacionais nas Águas Abertas

Diogo Rodrigues · 6 min

Natação COP Angélica
Foto: COP

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ANGÉLICA BEM SUCEDIDA NUMA PROVA EM QUE O OURO FALOU PORTUGUÊS 

Concluída uma semana de grande emoção na natação pura, onde se quebraram vários recordes mundiais, era agora tempo de os nadadores/as de Águas Abertas iniciarem as hostilidades.

A prova teria como palco a Odaiba Marine Park em Tóquio, disputando-se sob condições demoníacas, sendo que as senhoras eram as primeiras a enfrentar o exigente percurso.

Seriam sete as voltas a terem de ser efetuadas pelas 25 guerreiras, num total de dez quilómetros.

Destaque-se os cerca de 30 graus de temperatura da água, com a do ar a fixar-se nos 27, para além da humidade, que se cifrava nos 86%.

O primeiro objetivo a atingir pelas nadadoras seria superar as mais duras condições de uma competição na vertente de Águas Abertas, disciplina que apareceu pela primeira ocasião nos Jogos de Pequim, em 2008.

De entre as destemidas, destacava-se o nome de Angélica André, atleta do Clube Fluvial Portuense, que em Tóquio fazia a sua estreia, tendo a responsabilidade de defender a bandeira das quinas na modalidade de Natação – Águas Abertas.

Ainda de destacar a presença de uma praticante treinada por Ricardo Santos, no SL Benfica, e que representava a Argélia.

À partida para a mais dura prova de Natação, haviam alguns nomes a encabeçar o lote de maiores favoritas: uma delas, a campeã olímpica no Rio, a representante dos Países Baixos, Sharon Van Rouwendaal, que já atuara na Natação Pura na presente olimpíada na prova dos 200m costas.

No entanto, a holandesa não teria tarefa facilitada, pois a brasileira Ana Marcela Cunha também sonhava com a eternidade.

Quanto a Angélica, os objetivos passavam por tentar manter-se com as da frente durante o maior tempo que lhe fosse possível, não quebrando quando perdesse o contacto com o grupo da dianteira, esperando ser capaz de imprimir um ritmo que lhe possibilitasse concluir num lugar honroso.

Foi pelas 22h30, hora de Portugal continental, que as praticantes de Natação deram as primeiras braçadas, para uma competição tudo menos fácil e na qual a condição física desempenharia “papel-chave”.

Percorrida a volta inaugural, de cerca de dois quilómetros, ninguém parecia querer assumir as despesas da prova, com a mesma a ser lançada em moldes bastante equilibrados e que poderiam originar alguma surpresa.

Por esses instantes, Angélica ia tendo a virtude de conseguir aguentar no principal grupo, passando na primeira zona de abastecimento, por volta dos quatro quilómetros, bem integrada no top-10, mantendo assim bem vivas as suas legítimas ambições em representar condignamente a sua pátria.

O figurino foi-se mantendo idêntico até que, a meados da segunda volta, aquando do cumprimento de novo abastecimento, a norte-americana Michel e a canarinha Ana Marcela Cunha, optando por não cumprir tal situação, ganhavam assim uma vantagem face à mais direta concorrência.

Seria também com este “esticão” provocado pelo não cumprimento do abastecimento, estratégia muito vulgar neste tipo de compitas e replicada por mais nadadoras, daria origem ao fracionamento do pelotão em três: na dianteira, iam sendo cerca de 15 as atletas que mantinham o sonho de uma subida ao pódio.

A cerca de 30 segundos, ia estando um grupo perseguidor, no qual se ia integrando Angélica e mais uma série de atletas bem conceituadas. Mais atrasada ia “rodando” e fazendo a solo a sua competição a atleta argelina que, de certa forma, era outra competidora a ter debaixo de olho, pela sua ligação ao nosso país.

Contudo, e com o passar dos quilómetros, as favoritas iam-se perfilando como tal, com poucas a seguirem na pegada de Ana Marcela, campeã mundial da especialidade em 2017. Bem como de Sharon Van Rouwendaal, atleta que parecia ser a única com capacidade para disputar e tentar “roubar” o ouro à representante brasileira, que ambicionava ser a primeira a resgatar o metal para o “país do samba” nesta especialidade em Jogos Olímpicos.

Angélica, revelando grande serenidade, maturidade competitiva e grande espírito de compromisso, não se deixava esmorecer, isto mesmo após pela metade da prova ter perdido bastante tempo para o grupo da frente, hipotecando, deste modo, as suas aspirações a um lugar entre as dez primeiras.

Apesar das adversidades provocadas por um ritmo bastante forte ao qual a atleta norte-americana sucumbiria, a lusitana, beneficiando de uma espetacular reta final, na qual “trepou” bastantes posições, terminaria em 17º posto, igualando assim o melhor registo de sempre, obtido por Daniela Inácio na estreia da prova em certames olímpicos.

De mencionar que a atleta de 26 anos, natural da cidade Invicta, concluiu a exigente e demoníaca competição em 2.4.40h, a cerca de cinco minutos da líder.

O ouro, esse, ficaria na posse de Ana Marcela Cunha, que em tempos de pandemia se havia refugiado em Portugal, onde nas piscinas do Jamor treinou para tão grandioso momento.

A representante do país irmão garantiria a vitória mesmo sob a linha de meta, ao impor-se na chegada ante Sharon Van Rouwendaal que, desta forma, cedeu o seu título olímpico à desportista brasileira, perdendo-o por escassas milésimas de segundo. Já em posição de bronze ficaria a grande surpresa deste pódio na Natação, a australiana, de somente 21 anos, Kareena Lee.

Quanto aos tempos realizados, a vencedora conseguia o feito de cumprir aquele que seria reconhecido de forma unânime como o percurso mais duro de sempre em 1.59.30h, com a medalhada de prata a registar mais 20 milésimas.

Kareena Lee, a  primeira mulher do seu país a conquistar um lugar de tamanha magnitude em certames do género, ficaria a dois segundos do ouro, dando assim novo metal a um dos países mais bem sucedidos na piscina no decurso da presente olimpíada.

Foto de capa: COP

ESTREIA DE TIAGO CAMPOS GARANTE 23º LUGAR
 
Fonte: COP

Depois da grande prova proporcionada pelo setor feminino no dia anterior, foi pela mesma hora e com condições igualmente duras e difíceis de suportar que 26 atletas, em representação de 23 países, se faziam às águas, na marina de Odaiba.

Entre estes havia um representante luso, o estreante, de apenas 22 anos, Tiago Campos, atualmente em representação do Clube de Natação de Rio Maior.

Refira-se que esta era a primeira vez que tínhamos assegurada representação tanto no feminino, quanto no masculino, na mesma edição de uns Jogos nesta especialidade.

Com vários candidatos às medalhas, os mais salientes eram: Ferry Weertman, dos Países Baixos, campeão olímpico no Rio 2016, bem como o bávaro Florian Wellbrock, que não queria ver o ouro escapar-lhe novamente.

A fechar a primeira linha de favoritos ao trono olímpico estava talvez o melhor nadador de piscina de entre os presentes, o transalpino Gregório Paltrinieri.

Logo após o “tiro” de partida, Wellbrock parecia imprimir uma toada demasiado forte e complicada de manter ao longo de 10 exigentes e trabalhosos quilómetros.

Quanto ao luso, ia-se mantendo nos postos cimeiros, tendo passado no primeiro abastecimento na 8ª posição, integrando o grupo da dianteira que ia tentando perseguir Wellbrock, anotando uma vantagem de mais de três corpos e 20 segundos, com esse segundo grupo a ser comandado por Paltrinieri.

A meio da prova, o húngaro Kristof Rasovszky assumia a segunda posição, com o italiano a quebrar de modo ligeiro, ele que é frequentemente um dos nadadores que efetua maior número de braçadas por minuto.

Tiago, esse, ia vendo o cansaço apoderar-se, navegando por esses momentos no 14º posto a cerca de um minuto do líder.

A ousadia, própria de um jovem, patenteada por Tiago passaria fatura na segunda metade da disputa, com este a quebrar de forma abrupta e bastante saliente, perdendo muito tempo nesse tramo final, comprometendo, assim, as chances de um bom resultado na estreia.

No entanto, conseguiria concluir na 23ª posição, sendo que, dos 26 à partida, dois não resistiram às condições, acabando por serem forçados à desistência. Um destes, o representante gaulês, era forte candidato a conseguir um diploma olímpico.

Quanto aos lugares de medalhas, não sofreriam mais alterações até à derradeira braçada.

O germânico Wellbrock, que esteve praticamente toda a competição na liderança, concluiu com o tempo de 1.48.37h, deixando o húngaro a 25 segundos de diferença, enquanto que Paltrinieri ficaria a 27, no bronze.

Tiago Campos concluiria a distância em 1.59.42h, deixando boas indicações para o futuro.

Desta forma, fica tudo contado sobre as competições de Natação em Águas Abertas, que foram um dos pontos altos da presente edição dos Jogos.

Artigo revisto por Gonçalo Tristão Santos

Diogo Rodrigues

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