

O espanhol Carlos Alcaraz é o grande vencedor desta edição do Open da Austrália, ao derrotar na final o decacampeão (!) do torneio Novak Djokovic, com os parciais de 2-6, 6-2, 6-3 e 7-5 em pouco mais de três horas de jogo.
A final masculina foi histórica por múltiplas razões. Não apenas pelo nível exibicional, mas pelo seu simbolismo. Djokovic aos seus quase 39 anos em busca da oportunidade de conquistar o 25.º título do Grand Slam, um recorde absoluto na Era Open, precisamente no palco onde nunca tinha perdido uma final e onde já havia sido campeão em dez ocasiões.
Do outro lado da rede, um jovem de 22 anos e 272 dias, que procurava tornar-se no mais jovem de sempre a completar o Grand Slam de carreira, com Rafael Nadal, um dos seus grandes ídolos, a assistir de perto à consagração do seu discípulo.
A final do Australian Open confirmou aquilo que o circuito masculino já vinha a anunciar, mas que Melbourne transformou em evidência definitiva: estamos perante uma transição de poder delicada, desigual, mas ao mesmo tempo, fascinante. No centro de tudo, Carlos Alcaraz e Novak Djokovic, separados por quase 16 anos de idade, unidos por uma competitividade que continua a elevar o ténis a um patamar excecional.
Independentemente dos 38 anos de Djokovic, a verdade é que o sérvio chegou à final com muitas menos horas em court do que Alcaraz. Não teve de jogar o seu encontro dos oitavos-de-final por desistência do checo Jakub Mensik, e beneficiou igualmente da desistência do italiano Lorenzo Musetti no encontro dos quartos-de-final, quando o italiano vencia por dois sets a zero (!).
Djokovic estava a ser completamente dominado e não encontrava respostas naquele momento, e dificilmente não teria sucumbido aos pés do mago italiano, que tem uma das melhores esquerdas a uma mão do circuito, e que tem melhorado bastante no aspecto táctico e físico, estando já totalmente cimentado no top 5 mundial.
É certo que Djokovic chegava à final depois de uma batalha de cinco sets e mais de quatro horas contra o ultra-favorito Jannik Sinner. Mas também é igualmente certo que Carlos Alcaraz vinha de um esforço titânico de quase cinco horas e meia (num encontro em que se viu minado por cãibras durante mais de dois sets) diante do alemão Alexander Zverev.
Há 16 anos de diferença entre ambos os tenistas, e a recuperação é um aspecto essencial nas rondas finais de um torneio do Grand Slam, e esse aspecto tornou-se evidente durante grande parte do encontro.
Contudo, na final havia igualmente um detalhe sobre o qual Novak Djokovic poderia tirar grande partido. Se fosse uma final diurna, com mais calor e maior ressalto, a bola de Alcaraz faria muito mais estragos. À noite, não. Djokovic sentia-se confortável, protegido física e taticamente. Não por acaso, sofreu quase sempre quando jogou de dia ao longo dos anos neste torneio, em grande parte devido aos seus já conhecidos problemas respiratórios.
Era exatamente o contrário do que o espanhol precisava. Com estas condições, Alcaraz tinha obrigatoriamente de variar mais o seu jogo, servir a um nível altíssimo (sobretudo porque do outro lado estava o melhor jogador a responder ao serviço da história do ténis), jogar a uma intensidade elevadíssima, e aproveitar todas as oportunidades que Djokovic lhe desse no seu serviço, que vinha de estar imperial neste capítulo do seu jogo contra Jannik Sinner.
Nessas condições, a bola top spinada de Alcaraz não sofre o mesmo ressalto e não salta tanto sobre a fabulosa esquerda a duas mãos de Djokovic, que parecia ter tudo a seu favor para levar de vencida o tenista espanhol (que já o havia feito nos quartos-de-final da edição do ano passado) e alcançar o inédito e tão desejado 25º Grand Slam e o 11º (!) na Austrália.
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E o que se viu no primeiro set confirmou esse prognóstico. Djokovic dominava as trocas de bola, fazia deslocar Alcaraz e impunha o ritmo. As trajectórias mais retilíneas e planas das pancadas do tenista sérvio, não encontravam nenhum tipo de resposta ou variação táctica por parte do tenista murciano. 6-2 para o tenista sérvio ao cabo de pouco mais de meia-hora de jogo.
As sensações iniciais eram más para Alcaraz. Mas nunca se pode descartar alguém que, para além de talento, tem muita alma, como já o havia demonstrado anteriormente ao longo da sua curta carreira, nomeadamente no seu já citado encontro das meias-finais.
O primeiro set podia ter sido duríssimo para Alcaraz, que estava a ser praticamente banalizado. E aí que precisamente surge a grande diferença entre um campeão e um talento comum.
A forma como Alcaraz reagiu nos sets seguintes só está ao alcance dos predestinados. Mudou padrões, variou alturas, começou a responder melhor, encontrou soluções na rede, usou o amorti com mestria e começou a explorar todo o seu inesgotável arsenal de pancadas.
Apesar disso, Djokovic continuou competitivo, lúcido e intenso. A sua exibição ao longo de todo o torneio, incluindo a épica e surpreendente vitória sobre Jannik Sinner nas meias-finais, prova que, perto dos 39 anos, ainda consegue bater-se com dois talentos geracionais. Mas desta vez, o dia era de Carlitos Alcaraz.
A sua vitória só esteve em “perigo” no nono jogo do quarto set, onde um Djokovic (que parecia ter renascido das cinzas, algo que vimos infindáveis vezes ao longo da sua extraordinária carreira), interagiu pela primeira vez com o público, incendiando as bancadas em Melbourne, que tinha adoptado uma postura morna até então, tal como foi o jogo até aquele momento.
Break point a favor de Djokovic, que havia salvo seis (!) no segundo jogo do quarto set que o podia libertar para servir para a conquista do quarto set e consequente reentrada no jogo na discussão de uma quinta partida. Igualmente a sensação de que, caso conseguisse concretizar aquela oportunidade de levar o jogo a um quinto set, que Alcaraz pudesse soçobrar mentalmente e ceder ao síndrome da ocasião desperdiçada.
Um erro não forçado pouco habitual no sérvio (que costuma ser letal e cirúrgico nestes momentos) numa bola aparente fácil onde estava a dominar a troca de bola, impediu que houvesse essa mudança de ascendente, que jogou de forma brilhante os dois pontos seguintes.
Djokovic ainda conseguiu evitar a perda do set e respectivo encontro no seu jogo de serviço seguinte, mas não o conseguiu evitar quando servia com 6-5 abaixo, cometendo variadíssimos erros, fruto de todo o desgaste físico e emocional acumulado ao longo dos últimos dois jogos, e de toda a pressão que um Alcaraz muito esclarecido taticamente, estava a exercer sobre os seus segundos serviços.
O espanhol não só elevou o nível como demonstrou uma maturidade notável, sobretudo num contexto emocional complexo: vinha de romper a relação de sete anos com o seu mentor e treinador Juan Carlos Ferrero e carregava uma enorme pressão mediática. Respondeu com ténis, carácter e inteligência competitiva.
No final, Djokovic mostrou classe ao mencionar Nadal, sentado nas bancadas. Um gesto que engrandece quem, mesmo na derrota, continua a compreender a dimensão histórica do momento. Alcaraz também dedicou umas palavras bonitas ao seu compatriota, com quem chegou a jogar na variante de pares na última edição dos Jogos Olímpicos.
As meias-finais foram brutais. Na parte superior do quadro, Alcaraz venceu Alexander Zverev num encontro decidido ao fim de quase 5h30 de jogo, sem interrupções, com o espanhol a lidar com problemas físicos durante mais de dois sets, numa demonstração impressionante de resistência mental.
Na parte inferior do quadro, Djokovic bateu Jannik Sinner em mais de quatro horas, naquela que foi a grande surpresa do torneio, dado o domínio do italiano em piso rápido nos últimos meses.
A segunda semana do torneio foi intensa e repleta de episódios marcantes. A desistência de Lorenzo Musetti nos quartos-de-final, quando liderava por dois sets a zero frente a Djokovic, foi um dos momentos mais surpreendentes do torneio.
Houve também desilusões. Stefanos Tsitsipas voltou a protagonizar uma participação dececionante, sendo eliminado logo na segunda ronda pelo checo Tomás Machac. Um padrão que começa a deixar de ser exceção.
Entre as boas notícias, destacou-se o surgimento de Learner Tien, jovem talento norte-americano vencedor das últimas Next Gen Finals, e que deu uma lição de ténis a Daniil Medvedev nos oitavos-de-final, depois de já ter eliminado Nuno Borges de forma categórica. O tenista português voltou a atingir a terceira ronda, com resultado sólido, mas continuou sem dar o salto qualitativo que o seu ténis parece prometer.
O torneio ficou também marcado pelas despedidas emocionantes do Open da Austrália, de Stanislas Wawrinka, antigo vencedor do torneio em 2014, e de Gael Monfils, um dos jogadores mais espetaculares e carismáticos das últimas duas décadas.
Quanto ao australiano Alex de Minaur, voltou a fazer um bom torneio, mas insuficiente. A derrota nos quartos-de-final frente ao futuro campeão Carlos Alcaraz foi digna, depois de ter banalizado Alexander Bublik nos oitavos. Ainda assim, se quiser atingir meias-finais de Grand Slam ou até vir a ganhar um título, o australiano terá obrigatoriamente de dotar o seu jogo de maior potência e variedade.
Este Australian Open voltou a expor uma realidade incómoda: o circuito masculino já não tem a competitividade transversal de outros anos. Tirando Djokovic, Zverev e, em certa medida, Musetti, quase nenhum jogador consegue aguentar a intensidade exibicional de Alcaraz e Sinner ao longo de cinco sets.
Este binómio é extraordinário, mas pode não ser totalmente positivo para o ténis. Dois talentos geracionais elevam o jogo, mas também acentuam um fosso competitivo preocupante.
Neste Open da Austrália, celebrou-se o presente e o futuro. Carlos Alcaraz escreveu uma página eterna da história do ténis, diante do melhor tenista de todos os tempos.E fê-lo com variedade, magia e uma compreensão do jogo que vai muito além da idade que tem.
Melbourne coroou o futuro e a excelência. O ténis ganhou um novo marco. E talvez, também, um novo equilíbrio por encontrar.

