

Elena Rybakina é a grande vencedora desta edição do Open da Austrália, ao derrotar a número um mundial Aryna Sabalenka. A tenista cazaque impôs-se na final à tenista bielorrussa pelos parciais de 6-4, 4-6 e 6-4 ao cabo de 2h19 de jogo, num jogo em que foram raros os momentos em que ambas jogadoras se exibiram simultaneamente ao seu melhor nível.
Com o seu segundo título em torneios do Grand Slam (juntando assim ao seu título de 2022 na relva de Wimbledon), Elena Rybakina torna-se apenas na quarta mulher a derrotar as duas primeiras colocadas do ranking da WTA a caminho do título do Open da Austrália, tendo derrotado a número 1 Aryna Sabalenka e a número 2 Iga Swiatek no seu caminho para a final, juntando-se ao seleto registo de Jennifer Capriati em 2001 (que curiosamente foi quem lhe entregou este troféu na Austrália), Serena Williams em 2005 e Madison Keys em 2025.
O seu grande serviço (provavelmente o melhor do circuito feminino) e a simplicidade do seu ténis, fizeram a diferença nos momentos mais importantes da partida, beneficiando igualmente de mais uma “implosão” mental de Aryna Sabalenka no terceiro set.
É certo que melhorou em todos os departamentos do seu jogo, que é uma tenista mais completa e que está emocionalmente mais estável, mas ainda necessita de dotar o seu jogo de uma maior variedade, e melhorar significativamente o seu jogo defensivo.
O ano de 2025 foi de uma grande irregularidade exibicional para Elena Rybakina, muito marcada pela polémica que envolveu o seu treinador Stefano Vukov, que foi temporariamente suspenso pela WTA com fortes acusações de assédio moral e laboral sobre Rybakina, que nunca chegou a confirmar essas mesmas acusações, nem a pronunciar-se publicamente sobre esse facto.
A tenista cazaque assinou uma das vitórias mais significativas da sua carreira. O triunfo na final frente a Aryna Sabalenka não foi apenas a continuação lógica da vitória nas WTA Finals, em outubro do ano passado, contra a mesma adversária.
Foi uma verdadeira demonstração de autoridade competitiva. Numa final de grande qualidade, Rybakina mostrou algo raríssimo no circuito feminino: conseguiu superar Sabalenka em potência, neutralizando a sua principal arma e impondo-se nos momentos de maior pressão.
A final teve um ponto de viragem claro. No terceiro e decisivo set, Rybakina esteve a perder por 3-0, com um break de desvantagem e a final aparentemente parecia inclinar-se para o lado da número um mundial.
O que se seguiu foi uma resposta de campeã: a cazaque recuperou o break, venceu quatro jogos consecutivos e mudou completamente a ascendência emocional e tática do encontro. A partir desse momento, Rybakina passou a dominar as trocas de bola, a mandar nos pontos e a empurrar Sabalenka para zonas desconfortáveis do campo.
Importa sublinhar: esta não foi uma final decidida por uma avalanche de erros da bielorrussa, que inclusive apresentou uma relação positiva entre winners e erros não forçados (35-25). Foi uma final resolvida sobretudo pelo mérito de Rybakina, pela clareza das suas decisões e pela capacidade de ganhar à número um mundial no seu próprio terreno físico. Muito provavelmente, não há hoje outra jogadora capaz de o fazer com esta naturalidade.
Foi o 15º encontro entre Rybakina e Sabalenka, e o histórico de confrontos diretos não poderia ser mais equilibrado. Oito vitórias para a bielorrussa e sete vitórias para Rybakina, sendo que as últimas duas vitórias foram em torneios de uma dimensão muito relevante: as WTA Finals e agora, o Open da Austrália.
Ainda assim, o torneio de Aryna Sabalenka (uma excelente quarta presença consecutiva na final do Open da Austrália) não deixa de ser sólido. A campanha até à final foi autoritária e consistente, mas o desfecho volta a levantar questões incómodas.
Tal como já tinha acontecido no Open da Austrália e em Roland Garros no ano passado, Sabalenka voltou a bloquear mentalmente num terceiro set de uma final de Grand Slam. Desta vez, porém, o bloqueio não surgiu por demérito próprio, mas porque encontrou uma adversária que se recusou a ceder terreno, mesmo quando tudo parecia perdido.
A segunda semana do quadro feminino do Open da Austrália trouxe confirmação de estatutos, regressos ao mais alto nível e frustrações que começam a ganhar contornos de padrão. Num torneio exigente, disputado em pisos rápidos que não perdoam hesitações, ficou claro que o sucesso em Melbourne continua a depender tanto da capacidade técnica como da fortaleza mental nos momentos decisivos.
Um dos grandes destaques da segunda semana foi Elina Svitolina. A ucraniana (moralizadíssima depois do título no WTA 250 de Auckland), realizou uma campanha notável até às meias-finais, regressando ao top 10 mundial e confirmando um nível competitivo que muitos julgavam definitivamente perdido.
A sua exibição frente a Coco Gauff, nos quartos-de-final, foi das mais marcantes do torneio: menos de uma hora de jogo, numa demonstração de superioridade tática e emocional absoluta. Gauff foi completamente anulada, incapaz de encontrar soluções perante a consistência, profundidade e leitura de jogo de Svitolina.
Entre as jovens, merece referência a norte-americana Iva Jovic, de apenas 18 anos, que chegou pela primeira vez aos quartos-de-final de um torneio do Grand Slam. Jovic deixou sinais claros de maturidade competitiva e de uma base técnica muito promissora, num torneio onde várias jovens acusaram o peso do palco.
A russa Mirra Andreeva voltou a ficar aquém do que o seu talento faz prever num contexto de Grand Slam, enquanto a checha Karolina Muchova, jogadora de ténis sublime e das mais prazerosas de ver atuar, voltou a confirmar a dificuldade em manter continuidade física e competitiva ao longo de duas semanas. De Muchova espera-se sempre mais , e é precisamente essa expectativa que torna as suas eliminações precoces ainda mais frustrantes.
A espanhola Paula Badosa protagonizou uma das maiores desilusões do torneio. Muito marcada por lesões, não conseguiu repetir as meias-finais do ano passado e ficou-se pela segunda ronda, derrotada por Oksana Selekhmeteva, jogadora fora do top 100. O resultado reflete um percurso que continua a ser travado por limitações físicas persistentes, e uma necessidade premente de recuperar um ritmo competitivo e nível de jogo condizentes com o seu talento.
A norte-americana Jessica Pegula voltou a assinar um torneio sólido, mas incompleto. Superou a sua compatriota Amanda Anisimova — visivelmente nervosa e emocionalmente abalada — mas voltou a esbarrar na falta de poder de fogo quando o nível subiu. Frente a Rybakina, dispôs de set points que poderiam ter levado o encontro para um terceiro set, mas não conseguiu aproveitar nenhuma dessas oportunidades, ficando novamente às portas de algo maior.
Madison Keys não conseguiu defender o seu título e repetir a maior vitória da sua carreira, sendo eliminada nos oitavos-de-final pela compatriota Pegula, num encontro que expôs a irregularidade que continua a marcar o seu percurso nos grandes palcos.
Por fim, Iga Swiatek mantém-se como uma das jogadoras mais sólidas do circuito, mas o Open da Austrália voltou a expor limitações claras. Em pisos rápidos, a polaca precisa de ser mais agressiva e melhorar significativamente a acutilância do seu segundo serviço. Sem isso, será difícil vencer adversárias que atacam desde a primeira pancada, e completar o Grand Slam de carreira com a conquista em Melbourne.
A segunda semana do torneio feminino deixou, assim, um retrato muito claro do circuito atual: uma campeã que venceu com autoridade e coragem, uma número um que voltou a esbarrar no momento decisivo, regressos inspiradores, talentos em crescimento e frustrações recorrentes. Em Melbourne, ganhou quem teve potência, cabeça fria e capacidade de virar uma final quando tudo parecia fugir-lhe das mãos.
Rybakina preconiza-se pela sua expressão esfíngica no court, e é aquilo a que chamam de “assassina silenciosa”, sabendo aproveitar muito bem as fraquezas das suas adversárias, quer técnicas quer mentais.
Mas nas suas declarações após o fim do jogo, demonstrou toda a sua classe, generosidade, humildade e doçura, sendo uma lufada de ar fresco ver uma campeã com um discurso tão simples mas igualmente profundo, transmitindo os valores que uma grande campeã deve ter. Graciosa, com um sorriso encantador e dotada de um grande ténis, Elena Rybakina é a nova (e merecida) rainha dos Antípodas.

