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Às duas por três, estaremos na Champions outra vez

André Maia · 4 min

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Cabeçalho Futebol Nacional

Após o apito final dado pelo árbitro Ovidiu Haţegan no jogo entre Juventus e FC Porto, o previsível confirmou-se: Portugal terá menos uma equipa na Liga dos Campeões na época 2018/2019, passando de três clubes nacionais para dois. Com a mais curta prestação europeia dos últimos 15 anos, a Liga Portuguesa cai dois lugares no ranking da UEFA, cedendo o quinto lugar à França e permitindo à Rússia subir ao sexto lugar.

Nesta altura – e sabendo a Liga que Portugal ainda terá no próximo ano três equipas na “Liga Milionária” –, resta reunir esforços e ideias com os clubes e pensar no próximo passo a dar na estratégia europeia – se é que a Liga tem uma – para recuperar o prestigiado quinto lugar. Porque a verdade é que há fatores crónicos que parecem sempre dirigir os clubes portugueses rumo ao fracasso europeu. E que fatores são esses?

Um deles é, quer queiramos quer não, financeiro. Quando se trata de comparar recursos financeiros entre a Liga Portuguesa e as restantes ligas de topo europeias, a nossa sai em desvantagem. Em praticamente tudo: a nível de orçamento individual e de valor de mercado de cada clube (basta uma pesquisa pelo portal Transfermarkt), a nível de assistências nos estádios ou até ao que os direitos televisivos dizem respeito. E nisso, grande parte da culpa recai sobre a Liga, que ainda não soube abraçar na totalidade uma postura de futebol-negócio como as demais.

Fonte: Sporting CP
Fonte: Sporting CP

Um dos golpes que demonstraram essa passividade ou ingenuidade negocial do organismo foi a abordagem feita na venda dos direitos televisivos. A Liga NOS é a única das principais ligas europeias, segundo a KPMG, que não vendeu os seus direitos televisivos em conjunto, mas sim pela iniciativa individual de cada clube. Quem beneficiou deste modelo? Os Três Grandes, claro está. Quem foi prejudicada? A Liga, que se torna mais desequilibrada, diminuindo as possibilidades de os restantes clubes nacionais se reforçarem e fazerem boa figura europeia. E não só: com equipas ainda mais fracas, o nosso campeonato torna-se “um passeio” para Sporting, FC Porto e SL Benfica, que não tendo desafios à altura nas competições domésticas vão mal preparados para as competições europeias – quantas vezes vimos os Três Grandes a golear na Liga, debatendo-se depois, com dificuldade, contra equipas medianas na Europa?

Mas talvez mais importante do que os motivos financeiros, existe um outro fator de que nos esquecemos muitas vezes: somos fracos mentalmente. Talento e qualidade não nos faltam, mas esses não são equilibrados com um espírito vencedor e corajoso. Pensei que a conquista do EURO 2016 – alicerçada mais na mentalidade do que na qualidade do futebol – dissipasse uma atitude medrosa que os nossos clubes demonstram na Europa, mas tal não aconteceu. Jorge Jesus disse recentemente que os treinadores portugueses são os melhores do mundo. Todos os dias, numa enxurrada de rumores, os média repetem que os jogadores portugueses são desejados por meia europa. Mas se temos tão bons treinadores e jogadores, porque nos subjugamos a uma habitual auto desvalorização e exaltamos as qualidades do adversário, ignorando as nossas? Alguns dizem que as competições europeias não são “o nosso campeonato”. Se continuarmos a repetir este discurso, talvez não o seja. Não se pede um campeão europeu português, mas pede-se sim empenho e coragem.

Foto de Capa: Sports Illustrated

 

Os clubes portugueses têm de pensar nos pontos positivos. Para além de terem bons jogadores e treinadores, beneficiam de boas infraestruturas e têm inclusive mais tempo de descanso para jogos europeus, em média, do que os clubes dos restantes países. Após uma pequena pesquisa baseada nos jogos europeus desta época, verifiquei que os clubes portugueses são aqueles que têm um intervalo de dias maior entre um jogo de competição nacional e competição europeia de entre as sete melhores ligas europeias do ranking UEFA – 4,4 dias, quase cinco dias, contra, por exemplo os 3,8 dias dos clubes espanhóis ou os 4 ou 4,1 dias de Rússia e França, respetivamente, que nos ultrapassaram no ranking. A diferença não é enorme, mas é uma curiosidade assinalável.

Número de dias, em média, entre jogo nacional e jogo europeu imediatamente a seguir - não foram contabilizadas pausas no campeonato ou adiamento de jogos Fonte: André Maia
Número de dias, em média, entre jogo nacional e jogo europeu seguinte (não foram contabilizadas pausas no campeonato ou adiamentos)
Fonte: André Maia

Aliás, de todos os clubes analisados, o Benfica – juntamente com o Mainz, da Alemanha, é mesmo o clube com mais dias entre jogos nacionais e europeus, com 4,8 dias de diferença, em média. Este tempo de descanso é também um ponto favorável.

Não pretendo com isto dizer que tudo são rosas e que os clubes portugueses têm a obrigação de saírem vitoriosos no fim. Não, há que ser realista. Há muito a melhorar, em especial as condições que a Liga propõe aos seus clubes como conjunto. Mas se não tivermos medo e se aproveitarmos aquilo que de melhor temos, então sairemos mais fortes. Mais fortes e, quem sabe, com um bom lugar ou uma taça na mão.

Foto de Capa: Sports Illustrated

 

André Maia

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