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A ode de Leverkusen

Francisco Vaz de Miranda · 2 min

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Havia, por aquela altura, um intenso cheiro a Benfica. Benfica vivia-se, do Benfica se falava, pelo Benfica se sentia. Leverkusen traz o 15 de Março de 1994 agarrado à memória. Era um Benfica diferente, que se nos entrava pelo espírito e nos enchia a alma. Mais aos doentes, menos aos menos fanáticos, mas sempre numa partilha e comunhão que só agora parecem querer reaparecer. A ode do Ulrich Haberland empurra-nos para as lembranças de como o Benfica se fez grande, enorme, gigantesco no futebol europeu. Depois do 1-1 na Luz, a missão daquela equipa parecia quase impossível. Não nos esqueçamos de que o Bayer Leverkusen era, por esses tempos, uma das mais fortes equipas alemãs. Como ainda é hoje. Sem Mozer e sem Veloso, os benfiquistas agarravam-se ao Toni, aos emigrantes que saltitavam por entre as bancadas e à mística que, sem nunca ninguém saber explicar muito bem como e porquê e quando, se junta aos 11 em campo e os faz parecer 14. Dessa altura restam-nos os VHS gloriosamente guardados na prateleira para nos imbuirmos em benfiquismo sem ordem nem razão, nas palavras e nos sentimentos de quem por Leverkusen andou nessa mítica noite de Março. E nos 3-6 de Alvalade dois meses depois.

João Vieira Pinto e Isaías no histórico 4-4
João Vieira Pinto e Isaías no histórico 4-4

O desenrolar do jogo de loucos é por demais conhecido e não é por ele que aqui estou. Nem sequer pela eliminação aos pés do Parma, na meia-final. Estou, sim, pelo prazer que é poder dizer que, vinte anos depois da epopeia alemã, o Benfica europeu está de volta. O Benfica temido por quem lhe calha nos sorteios. Não o de Vigo, não o de Hamlstads. O de Leverkusen, o de Amesterdão, o de Turim, o de Newcastle, o de White Hart Lane. O que arrepia e nos faz sorrir a milhares de quilómetros de distância para muitos e a poucos metros para poucos. Poucos mas felizes por ali verem o Benfica de Ulrich Haberland. Que finalmente parece querer reerguer-se do nevoeiro em que esteve nestes vinte anos que se atravessaram desde então.

Serve isto, também, para não deixar de realçar a importância de o Benfica se mostrar e andar pela Liga dos Campeões. Sendo certo que o trabalho de Jorge Jesus é notável em ter chegado a duas finais da Liga Europa, o Benfica nasceu, cresceu e morrerá na Liga dos Campeões. É lá que temos de estar, é lá que temos de ser temidos. Sendo certo que o plantel não apresenta opções de qualidade e quantidade como na passada temporada, que não sirva isso para desculpar mais um possível fracasso na liga milionária. Jesus sabe-o, com certeza, apesar de o discurso focado no bicampeonato ser, até, compreensível. Mas também sabe da exigência europeia que as duas finais, embora perdidas, trouxeram. Que comece já hoje a corresponder à exigência. Queremos mais Ulrichs Haberlands, por favor.

Francisco Vaz de Miranda

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